Contra Celso - Livro IV 11

A providência divina e a descida de Deus aos homens

Além de tudo o que disse, Celso acrescenta o seguinte: todas as coisas, portanto, não foram feitas para o homem, assim como não foram feitas para os leões, ou as águias, ou os golfinhos, mas para que este mundo, sendo obra de Deus, fosse perfeito e completo em todos os aspectos. Por essa razão, todas as coisas foram ajustadas não em referência umas às outras, mas em vista de sua relação com o todo. E Deus cuida do todo, e a sua providência nunca o abandonará. Ele não piora, nem Deus, depois de um tempo, o traz de volta a si, nem se ira por causa dos homens mais do que por causa de macacos ou moscas, nem ameaça esses seres, cada um dos quais recebeu o seu quinhão determinado em seu devido lugar. Respondamos, então, brevemente a essas afirmações. Penso, de fato, que mostrei nas páginas anteriores que todas as coisas foram criadas para o homem, e para todo ser racional, e que foi principalmente por causa da criatura racional que a criação ocorreu. Celso, é verdade, pode dizer que isso foi feito não mais para o homem do que para os leões ou as outras criaturas que ele menciona. Mas nós sustentamos que o Criador não formou essas coisas para os leões, ou as águias, ou os golfinhos, mas tudo em favor da criatura racional, e para que este mundo, sendo obra de Deus, fosse perfeito e completo em todas as coisas. Pois a esse parecer devemos dar nosso assentimento, por ter sido bem dito. E Deus cuida não, como supõe Celso, meramente do todo, mas, além do todo, de modo especial, de cada ser racional. Nem a providência jamais abandonará o todo, pois, ainda que ele se torne mais mau, por causa do pecado do ser racional, que é uma porção do todo, Deus toma providências para purificá-lo e, depois de um tempo, trazer o todo de volta a si. Além disso, Ele não se ira com macacos ou moscas, mas, contra os seres humanos, como aqueles que transgrediram as leis da natureza, Ele envia julgamentos e castigos, e os ameaça pela boca dos profetas e pelo Salvador que veio visitar toda a raça humana, para que os que ouvem as ameaças sejam convertidos por elas, ao passo que os que negligenciam esses chamados à conversão possam, merecidamente, sofrer aqueles castigos que cabe a Deus infligir, em conformidade com aquela sua vontade que age para o proveito do todo, sobre os que necessitam de tão dolorosa disciplina e correção. Mas como o nosso quarto livro alcançou dimensões suficientes, encerraremos aqui o nosso discurso. E que Deus conceda, por seu Filho, que é Deus o Verbo, e Sabedoria, e Verdade, e Justiça, e tudo o mais que as sagradas Escrituras chamam a Deus quando falam dEle, que façamos um bom começo do quinto livro, para benefício de nossos leitores, e o tragamos a uma conclusão bem-sucedida, com o auxílio da sua palavra que permanece em nossa alma.