Contra Celso - Livro IV 11
A providência divina e a descida de Deus aos homens
Na minha opinião, no entanto, são certos demônios malignos, e, por assim dizer, da raça dos Titãs ou dos Gigantes, que cometeram impiedade contra o verdadeiro Deus e contra os anjos no céu, e que caíram de lá, e que rondam as partes mais densas dos corpos e frequentam lugares imundos sobre a terra. Possuindo algum poder de distinguir eventos futuros, porque não têm corpos de matéria terrena, eles se dedicam a uma ocupação desse tipo. E, desejando afastar a raça humana do verdadeiro Deus, entram secretamente nos corpos dos animais mais rapaces, selvagens e maus, e os incitam a fazer o que quiserem, no momento que quiserem: ou voltando a imaginação desses animais para fazê-los realizar voos e movimentos de vários tipos, a fim de que os homens sejam apanhados pelo poder de adivinhação que há nos animais irracionais e deixem de buscar o Deus que contém todas as coisas, ou de buscar a adoração pura de Deus, mas permitam que suas faculdades de raciocínio rastejem pela terra, entre aves e serpentes, e até raposas e lobos. Pois foi observado pelos que têm perícia em tais assuntos que os prognósticos mais claros se obtêm de animais desse tipo, porque os demônios não conseguem agir de modo tão eficaz nos animais mais brandos quanto nesses, por causa da semelhança entre eles no ponto da maldade. E ainda assim não é maldade, mas algo parecido com maldade, que existe nesses animais.
Por essa razão, seja o que for que haja nos escritos de Moisés que desperte a minha admiração, eu diria que o seguinte é digno de admiração: que Moisés, tendo observado as naturezas variadas dos animais, e tendo aprendido de Deus o que lhes era próprio, e próprio dos demônios aparentados a cada um dos animais, ou tendo ele mesmo apurado essas coisas por sua própria sabedoria, ao classificar os diferentes tipos de animais, declarou imundos todos aqueles que se supõe, entre os egípcios e o restante da humanidade, possuírem o poder de adivinhação, e, como regra geral, declarou limpos todos os que não são dessa classe. E entre os animais imundos mencionados por Moisés estão o lobo, a raposa, a serpente, a águia, o gavião e outros do gênero. E, de modo geral, você verá que não só na lei, mas também nos profetas, esses animais são empregados como exemplos de tudo o que é mais perverso, e que um lobo ou uma raposa nunca são mencionados para um bom propósito. Cada espécie de demônio, por consequência, pareceria possuir certa afinidade com certa espécie de animal. E assim como entre os homens há alguns que são mais fortes que outros, e isso de modo algum por causa de seu caráter moral, da mesma forma alguns demônios serão mais poderosos que outros em coisas indiferentes. E uma classe deles emprega um tipo de animal para enganar os homens, de acordo com a vontade daquele que em nossas Escrituras é chamado o príncipe deste mundo, enquanto outros predizem eventos futuros por meio de outro tipo de animal. Observe, além disso, a que ponto de maldade os demônios chegam, a ponto de assumirem até os corpos de doninhas para revelar o futuro! E agora, considere consigo mesmo se é melhor aceitar a crença de que é o Deus Supremo e o seu Filho que incitam as aves e as outras criaturas vivas à adivinhação, ou que aqueles que incitam essas criaturas, e não os seres humanos (embora estejam presentes diante deles), são maus, e, como são chamados por nossas Escrituras, demônios imundos.
Mas se a alma das aves deve ser tida por divina porque eventos futuros são preditos por elas, por que não sustentaríamos antes que, quando agouros são aceitos pelos homens, são divinas as almas daqueles através de quem os agouros são ouvidos? Por consequência, entre esses estaria a escrava mencionada em Homero, que moía o grão, quando disse a respeito dos pretendentes: pela última vez agora é que eles vão cear aqui. Essa escrava, então, era divina, ao passo que o grande Ulisses, o amigo da Palas Atena de Homero, não era divino, mas, entendendo as palavras ditas por essa divina moedora de grão como um agouro, alegrou-se, como diz o poeta: o divino Ulisses alegrou-se com o agouro. Observe agora: assim como as aves possuem uma alma divina e são capazes de perceber Deus, ou, como diz Celso, os deuses, fica claro que, quando nós homens também espirramos, fazemos isso em consequência de uma espécie de divindade que está dentro de nós e que confere um poder profético à nossa alma. Pois essa crença é atestada por muitas testemunhas, e por isso o poeta também diz: e enquanto rezava, ele espirrou. E Penélope também disse: não percebes que a cada palavra meu filho espirrou?
O verdadeiro Deus, no entanto, não emprega animais irracionais, nem indivíduos quaisquer que o acaso ofereça, para transmitir um conhecimento do futuro. Pelo contrário, emprega as mais puras e santas das almas humanas, a quem Ele inspira e dota de poder profético. E por isso, seja o que for nos escritos de Moisés que desperte a nossa admiração, o seguinte deve ser tido como capaz de fazê-lo: não praticareis agouros nem observareis o voo das aves. E em outro lugar: pois as nações que o Senhor teu Deus destruirá de diante de tua face darão ouvidos a agouros e adivinhações, mas a ti o Senhor teu Deus não permitiu fazer assim. E ele acrescenta: o Senhor teu Deus te suscitará um profeta dentre os teus irmãos. Em certa ocasião, além disso, Deus, querendo por meio de um áugure afastar o seu povo da prática da adivinhação, fez o espírito que estava no áugure falar o seguinte: pois não há encantamento em Jacó, nem adivinhação em Israel. No tempo certo se declarará a Jacó e a Israel o que o Senhor fará. E agora, nós que conhecíamos esses ditos e outros semelhantes desejamos observar este preceito com o sentido místico, a saber: guarda o teu coração com toda a diligência, para que nada de natureza demoníaca entre em nossas mentes, nem nenhum espírito de nossos adversários volte a nossa imaginação para onde quiser. Mas oramos para que a luz do conhecimento da glória de Deus brilhe em nossos corações, e para que o Espírito de Deus habite em nossas imaginações e as conduza a contemplar as coisas de Deus, pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são os filhos de Deus.
Devemos notar, no entanto, que o poder de prever o futuro não é, de modo algum, prova de divindade, pois em si mesmo é uma coisa indiferente, e se encontra ocorrendo tanto entre os bons quanto entre os maus. Os médicos, em todo caso, pela sua perícia profissional preveem certas coisas, ainda que seu caráter possa por acaso ser mau. E do mesmo modo também os pilotos, embora talvez sejam homens maus, conseguem prever os sinais (de bom ou mau tempo), a aproximação de violentas tempestades de vento e as mudanças atmosféricas, porque reúnem esse conhecimento da experiência e da observação. E ainda assim não suponho que por isso alguém os chamaria de deuses se seu caráter por acaso fosse mau. É falsa, então, a afirmação de Celso quando ele diz: o que poderia ser chamado de mais divino do que o poder de prever e predizer o futuro? E também é falso isto: que muitos dos animais reivindicam ter ideias de Deus, pois nenhum dos animais irracionais possui qualquer ideia de Deus. E inteiramente falsa, também, é sua afirmação de que os animais irracionais estão mais próximos da convivência com Deus (que os homens), quando até os homens que ainda estão num estado de maldade, por maior que seja o seu progresso no conhecimento, estão bem distantes dessa convivência. São, então, somente aqueles que são verdadeiramente sábios e sinceramente religiosos os que estão mais próximos da convivência com Deus, pessoas como foram os nossos profetas e Moisés. A este último, por causa de sua extraordinária pureza, a Escritura disse: só Moisés se aproximará do Senhor, mas os demais não se aproximarão.
Quão ímpia, de fato, é a afirmação deste homem, que nos acusa de impiedade, de que não só os animais irracionais são mais sábios que a raça humana, mas que são mais amados por Deus (que ela)! E quem não se afastaria, com horror, de dar qualquer atenção a um homem que declara que uma serpente, uma raposa, um lobo, uma águia e um gavião eram mais amados por Deus do que a raça humana? Pois decorre de sustentar tal posição que, se esses animais são mais amados por Deus que os seres humanos, fica manifesto que eles são mais caros a Deus do que Sócrates, Platão, Pitágoras, Ferécides e aqueles teólogos cujos louvores ele havia cantado pouco antes. E poderíamos nos dirigir a ele com esta oração: se esses animais são mais caros a Deus que os homens, que você seja amado por Deus junto com eles e se torne semelhante àqueles que considera mais caros a Ele do que os seres humanos! E que ninguém suponha que tal oração é uma maldição, pois quem não oraria para se assemelhar em todos os aspectos àqueles que crê serem mais caros a Deus que os outros, a fim de que ele, como eles, possa desfrutar do amor divino? E como Celso deseja mostrar que as assembleias dos animais irracionais são mais sagradas que as nossas, ele atribui essa afirmação não a indivíduos comuns, mas a pessoas de inteligência. No entanto, são os virtuosos os únicos que são verdadeiramente sábios, pois nenhum homem mau o é. Ele fala, por consequência, no seguinte estilo: homens inteligentes dizem que esses animais realizam assembleias mais sagradas que as nossas, e que sabem o que nelas se fala, e de fato provam que não são desprovidos de tal conhecimento quando mencionam de antemão que as aves anunciaram a intenção de partir para um lugar específico, ou de fazer isto ou aquilo, e depois mostram que elas partiram para o lugar em questão e fizeram a coisa específica que foi predita. Ora, na verdade, nenhuma pessoa de inteligência jamais relatou tais coisas, nem nenhum homem sábio jamais disse que as assembleias dos animais irracionais eram mais sagradas que as dos homens. Mas se, com o propósito de examinar a solidez de suas afirmações, olharmos para as suas consequências, fica evidente que, na opinião dele, as assembleias dos animais irracionais são mais sagradas que as do venerável Ferécides, de Pitágoras, de Sócrates, de Platão e dos filósofos em geral. Essa afirmação não é só incongruente em si mesma, mas cheia de absurdo. Para que possamos crer, no entanto, que certos indivíduos de fato aprendem do som indistinto das aves que elas estão prestes a partir e a fazer isto ou aquilo, e anunciam essas coisas de antemão, diríamos que essa informação é transmitida aos homens por demônios, por meio de sinais, com o intuito de fazer com que os homens sejam enganados pelos demônios e tenham o seu entendimento arrastado de Deus e do céu para a terra, e para lugares ainda mais baixos.
Não sei, além disso, como Celso pôde ouvir falar da fidelidade dos elefantes aos juramentos, de sua grande devoção ao nosso Deus e do conhecimento que possuem dEle. Pois conheço muitas coisas maravilhosas que se relatam sobre a natureza desse animal e sobre seu temperamento manso. Mas não tenho notícia de que alguém tenha falado de sua observância de juramentos, a menos que ele dê o nome de cumprir o juramento ao seu temperamento manso e à sua observância de acordos, por assim dizer, uma vez firmados entre ele e o homem. E essa afirmação em si mesma também é falsa, pois, embora raramente, às vezes se registrou que, depois de sua aparente docilidade, eles se rebelaram contra os homens da maneira mais selvagem, cometeram morte, e por isso foram condenados à morte, por não terem mais nenhuma utilidade. E vendo que, depois disso, para estabelecer (como ele pensa estabelecer) que a cegonha é mais piedosa que qualquer ser humano, ele apresenta os relatos que se narram sobre a demonstração de afeto filial dessa criatura, que traz alimento aos pais para o seu sustento, temos que dizer, em resposta, que isso é feito pelas cegonhas não por consideração ao que é próprio, nem por reflexão, mas por um instinto natural. A natureza que as formou desejava mostrar um exemplo, entre os animais irracionais, que pudesse envergonhar os homens na questão de demonstrar gratidão aos pais. E se Celso soubesse quão grande é a diferença entre agir desse modo por razão e por um impulso natural irracional, não teria dito que as cegonhas são mais piedosas que os seres humanos. Mas, ainda mais, Celso, continuando a defender a piedade da criação irracional, cita o caso da ave da Arábia, a fênix, que depois de muitos anos se dirige ao Egito e leva para lá o seu progenitor, morto e sepultado numa bola de mirra, e deposita o corpo dele no Templo do Sol. Ora, essa história de fato é registrada, e, se for verdadeira, é possível que ocorra em consequência de alguma disposição da natureza. A providência divina exibe livremente aos seres humanos, pelas diferenças que existem entre os seres vivos, a variedade de constituição que prevalece no mundo, e que se estende até às aves, em harmonia com a qual Ele trouxe à existência uma criatura, a única de sua espécie, para que por meio dela os homens sejam levados a admirar, não a criatura, mas Aquele que a criou.
Além de tudo o que já disse, Celso acrescenta o seguinte: todas as coisas, portanto, não foram feitas para o homem, assim como não foram feitas para os leões, ou as águias, ou os golfinhos, mas para que este mundo, sendo obra de Deus, fosse perfeito e completo em todos os aspectos. Por essa razão, todas as coisas foram ajustadas não em referência umas às outras, mas em vista de sua relação com o todo. E Deus cuida do todo, e a sua providência nunca o abandonará. Ele não piora, nem Deus, depois de um tempo, o traz de volta a si, nem se ira por causa dos homens mais do que por causa de macacos ou moscas, nem ameaça esses seres, cada um dos quais recebeu o seu quinhão determinado em seu devido lugar. Respondamos, então, brevemente a essas afirmações. Penso, de fato, que mostrei nas páginas anteriores que todas as coisas foram criadas para o homem, e para todo ser racional, e que foi principalmente por causa da criatura racional que a criação ocorreu. Celso, é verdade, pode dizer que isso foi feito não mais para o homem do que para os leões ou as outras criaturas que ele menciona. Mas nós sustentamos que o Criador não formou essas coisas para os leões, ou as águias, ou os golfinhos, mas tudo em favor da criatura racional, e para que este mundo, sendo obra de Deus, fosse perfeito e completo em todas as coisas. Pois a esse parecer devemos dar nosso assentimento, por ter sido bem dito. E Deus cuida não, como supõe Celso, meramente do todo, mas, além do todo, de modo especial, de cada ser racional. Nem a providência jamais abandonará o todo, pois, ainda que ele se torne mais mau, por causa do pecado do ser racional, que é uma porção do todo, Deus toma providências para purificá-lo e, depois de um tempo, trazer o todo de volta a si. Além disso, Ele não se ira com macacos ou moscas, mas, contra os seres humanos, como aqueles que transgrediram as leis da natureza, Ele envia julgamentos e castigos, e os ameaça pela boca dos profetas e pelo Salvador que veio visitar toda a raça humana, para que os que ouvem as ameaças sejam convertidos por elas, ao passo que os que negligenciam esses chamados à conversão possam, merecidamente, sofrer aqueles castigos que cabe a Deus infligir, em conformidade com aquela sua vontade que age para o proveito do todo, sobre os que necessitam de tão dolorosa disciplina e correção. Mas como o nosso quarto livro já alcançou dimensões suficientes, encerraremos aqui o nosso discurso. E que Deus conceda, por seu Filho, que é Deus o Verbo, e Sabedoria, e Verdade, e Justiça, e tudo o mais que as sagradas Escrituras chamam a Deus quando falam dEle, que façamos um bom começo do quinto livro, para benefício de nossos leitores, e o tragamos a uma conclusão bem-sucedida, com o auxílio da sua palavra que permanece em nossa alma.