Contra Celso - Livro I 9
A acusação de Celso e a defesa do cristianismo
Mas se fôssemos censurar pela vida passada aqueles que se converteram, então teríamos motivo para acusar também Fédon, mesmo depois de ele se tornar filósofo, já que, como a história relata, foi tirado por Sócrates de uma casa de má fama para os estudos da filosofia. Aliás, até a vida dissoluta de Polêmon, sucessor de Xenócrates, seria motivo de reprovação para a filosofia. No entanto, mesmo nesses casos, devemos considerar como motivo de elogio que a razão conseguiu, pelo poder de persuasão desses homens, converter da prática de tais vícios aqueles que antes estavam presos a eles. Ora, entre os gregos houve apenas um Fédon, não sei se houve um segundo, e um Polêmon, que se dedicaram à filosofia depois de uma vida dissoluta e muito perversa. Já com Jesus havia não só, na época de que falamos, os doze discípulos, mas muitos mais em todos os tempos, que, tornando-se um grupo de homens sóbrios, falam nos seguintes termos sobre sua vida passada: Pois também nós éramos outrora insensatos, desobedientes, enganados, servindo a várias paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos, e odiando uns aos outros. Mas quando se manifestou a bondade e o amor de Deus, nosso Salvador, para com os homens, pela lavagem da regeneração e renovação do Espírito Santo, que ele derramou ricamente sobre nós, tornamo-nos o que somos. Pois Deus enviou a sua Palavra e os curou, e os livrou da ruína, como ensinou o profeta no livro dos Salmos. E, além do que já foi dito, eu acrescentaria o seguinte: que Crisipo, em seu tratado sobre a Cura das Paixões, em seu esforço para conter as paixões da alma humana, sem pretender determinar quais opiniões são as verdadeiras, diz que é segundo os princípios das diferentes seitas que devem ser curados aqueles que caíram sob o domínio das paixões, e continua: E se o prazer for um fim, então é por ele que as paixões devem ser curadas; e se houver três espécies de bens supremos, ainda assim, segundo esta doutrina, é do mesmo modo que devem ser libertados das suas paixões aqueles que estão sob o domínio delas. Enquanto isso, os que atacam o cristianismo não veem em quantas pessoas as paixões foram contidas, e a enxurrada de maldade refreada, e os costumes selvagens abrandados, por meio do Evangelho. De modo que conviria bem àqueles que tanto se vangloriam de seu zelo pelo bem público fazer um reconhecimento público de sua gratidão àquela doutrina que, por um método novo, levou os homens a abandonar muitos vícios, e dar ao menos o seu testemunho de que, ainda que não fosse a verdade, ela ao menos foi de proveito para a raça humana.
E como Jesus, ao ensinar seus discípulos a não cometerem imprudências, lhes deu o preceito: Se vos perseguirem nesta cidade, fugi para outra; e se vos perseguirem na outra, fugi de novo para uma terceira; e a esse ensino acrescentou o exemplo de uma vida coerente, agindo de modo a não se expor ao perigo de forma imprudente, inoportuna ou sem boas razões; disso Celso aproveita para levantar uma acusação maliciosa e caluniosa, fazendo o judeu que apresenta dizer a Jesus: Em companhia dos seus discípulos, você vai e se esconde em vários lugares. Ora, parecido com o que assim se tornou motivo de uma acusação caluniosa contra Jesus e seus discípulos, dizemos ter sido a conduta registrada de Aristóteles. Esse filósofo, vendo que um tribunal estava prestes a ser convocado para julgá-lo, sob a alegação de que era culpado de impiedade por causa de certas de suas teses filosóficas que os atenienses consideravam ímpias, retirou-se de Atenas e fixou sua escola em Cálcis, justificando aos amigos sua decisão ao dizer: Partamos de Atenas, para que não demos aos atenienses motivo de incorrer em culpa pela segunda vez, como antes no caso de Sócrates, e assim os impeçamos de cometer um segundo ato de impiedade contra a filosofia. Celso afirma ainda que Jesus andava de um lado para o outro com seus discípulos, e obtinha seu sustento de modo vergonhoso e importuno. Que mostre em que consistia o elemento vergonhoso e importuno no modo como se sustentavam. Pois está relatado nos Evangelhos que havia certas mulheres que tinham sido curadas de suas doenças, entre as quais também Susana, que, com seus próprios bens, davam aos discípulos os meios de sustento. E qual filósofo, ao dedicar-se ao serviço de seus conhecidos, não costuma receber deles o que é necessário para suas necessidades? Ou será que tais atos só são próprios e convenientes neles, mas, quando os discípulos de Jesus fazem o mesmo, são acusados por Celso de obter seu sustento por importunação vergonhosa?
E, além do acima, esse judeu de Celso depois se dirige a Jesus: Que necessidade havia, ademais, de que você, ainda sendo criança, fosse levado ao Egito? Foi para escapar de ser assassinado? Mas então não era provável que um Deus tivesse medo da morte; e, no entanto, um anjo desceu do céu, ordenando que você e seus amigos fugissem, para que não fosse capturado e morto! E o grande Deus, que já tinha enviado dois anjos por sua causa, não era capaz de manter você, seu único Filho, ali em segurança? A partir dessas palavras, Celso parece achar que não havia nenhum elemento de divindade no corpo e na alma humanos de Jesus, e que seu corpo nem sequer era como o descrito nas fábulas de Homero. E, com um deboche também sobre o sangue de Jesus que foi derramado na cruz, ele acrescenta que não era Ícor, como o que corre nas veias dos deuses bem-aventurados. Nós, por nossa vez, acreditando no próprio Jesus quando ele diz a respeito da sua divindade, Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida, e emprega outras expressões de sentido semelhante; e quando diz a respeito de estar revestido de um corpo humano, E agora procurais matar-me, um homem que vos disse a verdade, concluímos que ele era uma espécie de ser composto. E assim convinha àquele que cuidava de sua estadia no mundo como ser humano não se expor inoportunamente ao perigo da morte. E, do mesmo modo, era necessário que fosse retirado por seus pais, agindo sob as instruções de um anjo do céu, que lhes comunicou a vontade divina, dizendo na primeira ocasião: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, pois o que nela foi gerado é do Espírito Santo; e na segunda: Levanta-te, toma a Criança e sua mãe, e foge para o Egito, e fica ali até que eu te avise, pois Herodes vai procurar a Criança para matá-la. Ora, o que está registrado nessas palavras me parece nada ter de extraordinário. Pois em ambas as passagens da Escritura se afirma que foi em sonho que o anjo disse essas palavras; e que em sonho certas pessoas tenham coisas indicadas para fazer é algo que ocorre com frequência a muitos indivíduos, sendo a impressão na mente produzida ou por um anjo ou por alguma outra coisa. Onde está, então, o absurdo em acreditar que aquele que certa vez se tornou encarnado fosse também conduzido por orientação humana a manter-se longe dos perigos? Não por ser impossível que fosse de outro modo, mas pela conveniência moral de que se usassem meios para garantir a segurança de Jesus. E certamente era melhor que a Criança Jesus escapasse da cilada de Herodes e residisse com seus pais no Egito até a morte do conspirador, do que a Providência divina impedir o livre-arbítrio de Herodes em seu desejo de matar a Criança, ou que o fabuloso elmo poético de Hades fosse empregado, ou que algo semelhante fosse feito a respeito de Jesus, ou que os que vieram destruí-lo fossem feridos de cegueira como o povo de Sodoma. Pois enviar-lhe socorro de modo muito milagroso e desnecessariamente público de nada teria servido àquele que queria mostrar que, como homem do qual Deus dava testemunho, possuía dentro daquela forma que era vista pelos olhos dos homens algum elemento mais elevado de divindade, aquilo que era propriamente o Filho de Deus, Deus o Verbo, o poder de Deus e a sabedoria de Deus, aquele que é chamado o Cristo. Mas esta não é uma ocasião adequada para discutir a natureza composta do Jesus encarnado, sendo a investigação de tal assunto, para os crentes, por assim dizer, uma espécie de questão reservada.
Depois do acima, esse judeu de Celso, como se fosse um grego que ama o saber e bem instruído na literatura grega, continua: As antigas fábulas mitológicas, que atribuíam origem divina a Perseu, e Anfião, e Éaco, e Minos, não eram cridas por nós. Mesmo assim, para que não parecessem indignas de crédito, representavam os feitos dessas personagens como grandes e admiráveis, e verdadeiramente além do poder humano. Mas o que você fez de nobre ou admirável, seja em obra, seja em palavra? Você não nos deu nenhuma manifestação, embora eles o desafiassem no templo a exibir algum sinal inconfundível de que você era o Filho de Deus. Em resposta a isso temos a dizer: Que os gregos nos mostrem, entre os que foram enumerados, qualquer um cujos feitos tenham se distinguido por uma utilidade e um esplendor que se estendessem às gerações posteriores, e que tenham sido tão grandes a ponto de produzir crença nas fábulas que os representavam como de descendência divina. Mas esses gregos nada nos podem mostrar a respeito daqueles homens de quem falam que seja, mesmo de longe, comparável ao que Jesus fez; a menos que nos remetam de volta às suas fábulas e histórias, querendo que acreditemos nelas sem nenhum fundamento razoável, e que descreiamos dos relatos do Evangelho mesmo diante da mais clara evidência. Pois afirmamos que o mundo habitado inteiro contém evidências das obras de Jesus, na existência daquelas Igrejas de Deus que foram fundadas por meio dele por aqueles que se converteram da prática de inúmeros pecados. E o nome de Jesus ainda pode remover perturbações das mentes dos homens, e expulsar demônios, e também tirar doenças, e produzir uma admirável mansidão de espírito e uma completa mudança de caráter, e uma humanidade, e bondade, e brandura naqueles indivíduos que não fingem ser cristãos para garantir o sustento ou suprir quaisquer necessidades mortais, mas que aceitaram honestamente a doutrina a respeito de Deus e de Cristo, e do juízo que há de vir.
Mas depois disso, Celso, suspeitando que as grandes obras realizadas por Jesus, das quais nomeamos algumas dentre um grande número, seriam trazidas à vista, finge conceder que possam ser verdadeiras as afirmações feitas a respeito de suas curas, ou de sua ressurreição, ou da alimentação de uma multidão com alguns pães, dos quais sobraram muitos pedaços, ou aquelas outras histórias que Celso acha que os discípulos registraram como sendo de natureza admirável. E acrescenta: Pois bem, acreditemos que essas coisas foram realmente feitas por você. Mas em seguida ele imediatamente as compara aos truques dos charlatães, que se gabam de fazer coisas mais admiráveis, e aos feitos realizados por aqueles que foram ensinados pelos egípcios, que, no meio da praça do mercado, em troca de algumas moedas, transmitem o conhecimento de suas artes mais veneradas, e expulsam demônios dos homens, e dissipam doenças, e invocam as almas de heróis, e exibem banquetes suntuosos, e mesas, e pratos, e iguarias que não têm existência real, e que põem em movimento, como se vivos, o que não são de fato animais vivos, mas que têm apenas a aparência de vida. E ele pergunta: Já que, então, essas pessoas conseguem realizar tais feitos, deveremos necessariamente concluir que são 'filhos de Deus', ou devemos admitir que são procedimentos de homens maus sob a influência de um espírito mau? Você vê que, com essas expressões, ele admite, por assim dizer, a existência da magia. Não sei, no entanto, se ele é o mesmo que escreveu vários livros contra ela. Mas, como isso favorecia seu propósito, ele compara os (milagres) atribuídos a Jesus aos resultados produzidos pela magia. Haveria de fato uma semelhança entre eles se Jesus, como os que lidam com as artes mágicas, tivesse realizado suas obras só para exibição. Mas o caso é que não há um único charlatão que, por meio de seus procedimentos, convide os espectadores a reformar seus costumes, ou que conduza ao temor de Deus os que ficam pasmos com o que veem, nem que tente persuadi-los a viver como homens que hão de ser justificados por Deus. E os charlatães não fazem nenhuma dessas coisas, porque não têm nem o poder, nem a vontade, nem qualquer desejo de se ocupar da reforma dos homens, já que suas próprias vidas estão cheias dos pecados mais grosseiros e notórios. Mas como não haveria aquele que, pelos milagres que fez, induziu os que viram os excelentes resultados a empreender a reforma de seu caráter, de se manifestar não só aos seus genuínos discípulos, mas também aos outros, como modelo da vida mais virtuosa, a fim de que seus discípulos se dedicassem à obra de instruir os homens na vontade de Deus, e que os outros, depois de mais plenamente instruídos pela sua palavra e pelo seu caráter do que por seus milagres quanto a como deviam conduzir a vida, tivessem em toda a sua conduta uma constante referência ao bom prazer do Deus universal? E se assim era a vida de Jesus, como poderia alguém, com razão, compará-lo à seita dos impostores, e não, ao contrário, acreditar, segundo a promessa, que ele era Deus, que apareceu em forma humana para fazer o bem à nossa raça?
Depois disso, Celso, confundindo a doutrina cristã com as opiniões de alguma seita herética, e apresentando-as como acusações aplicáveis a todos os que creem na palavra divina, diz: Um corpo como o seu não poderia ter pertencido a Deus. Ora, em resposta a isso, temos a dizer que Jesus, ao entrar no mundo, assumiu, como alguém nascido de uma mulher, um corpo humano, capaz de sofrer uma morte natural. Por essa razão, entre outras, dizemos que ele foi também um grande lutador, tendo, por causa de seu corpo humano, sido tentado em tudo como os outros homens, mas não mais como os homens, com o pecado como consequência, e sim sendo de todo sem pecado. Pois é claramente evidente para nós que ele não cometeu pecado, nem se achou engano em sua boca; e, como alguém que não conheceu pecado, Deus o entregou como puro por todos os que tinham pecado. Então Celso diz: O corpo de um deus não teria sido gerado como você, ó Jesus, foi. Ele viu, além disso, que se, como está escrito, ele tivesse nascido, seu corpo de algum modo poderia ser até mais divino do que o da multidão, e, num certo sentido, um corpo de deus. Mas ele descrê dos relatos de sua concepção pelo Espírito Santo, e crê que ele foi gerado por um tal Pantera, que seduziu a Virgem, porque o corpo de um deus não teria sido gerado como você foi. Mas falamos dessas questões de modo mais extenso nas páginas anteriores.
Ele afirma, além disso, que o corpo de um deus não se alimenta de tal comida (como a de que Jesus se alimentava), já que é capaz de provar pelas narrativas dos Evangelhos tanto que ele tomava alimento, como que tomava alimento de um tipo específico. Pois bem, que seja assim. Que ele afirme que Jesus comeu a páscoa com seus discípulos, quando não só usou as palavras, Desejei ardentemente comer esta páscoa convosco, mas também de fato participou dela. E que diga também que ele sentiu a sensação de sede junto ao poço de Jacó, e bebeu da água do poço. Em que esses fatos contrariam o que dissemos a respeito da natureza de seu corpo? Além disso, parece indubitável que, depois de sua ressurreição, ele comeu um pedaço de peixe; pois, segundo a nossa visão, ele assumiu um corpo (verdadeiro), como alguém nascido de uma mulher. Mas, objeta Celso, o corpo de um deus não usa uma voz como a de Jesus, nem emprega um método de persuasão como o dele. Estas são, de fato, objeções insignificantes e de todo desprezíveis. Pois nossa resposta a ele será que aquele que, entre os gregos, é tido como um deus, ou seja, o Apolo Pítio e Dídimo, usa uma voz dessas para sua sacerdotisa Pítia em Delfos, e para sua profetisa em Mileto; e, no entanto, nem o Pítio nem o Dídimo são acusados pelos gregos de não serem deuses, nem qualquer outra divindade grega cujo culto está estabelecido num só lugar. E era de longe melhor, com certeza, que um deus empregasse uma voz que, por ser proferida com poder, produzisse nas mentes dos ouvintes uma espécie indescritível de persuasão.
Continuando a lançar insultos sobre Jesus como alguém que, por causa de sua impiedade e de suas opiniões perversas, era, por assim dizer, odiado por Deus, ele afirma que essas teses dele eram as de um feiticeiro mau e odiado por Deus. E, no entanto, se o nome e a coisa forem devidamente examinados, vai se constatar ser impossível que o homem seja odiado por Deus, visto que Deus ama todas as coisas existentes, e não odeia nada do que fez, pois nada criou num espírito de ódio. E se certas expressões nos profetas dão tal impressão, devem ser interpretadas de acordo com o princípio geral pelo qual a Escritura emprega tal linguagem a respeito de Deus como se ele estivesse sujeito a afeições humanas. Mas que resposta é preciso dar a quem, embora afirme apresentar declarações dignas de crédito, julga-se obrigado a recorrer a calúnias e difamações contra Jesus, como se ele fosse um feiticeiro mau? Esse não é o procedimento de quem busca provar sua causa, mas de quem está num estado de espírito ignorante e antifilosófico, já que o caminho correto é expor o caso, examiná-lo com honestidade e, na medida de sua capacidade, apresentar o que lhe ocorre a respeito dele. Mas, assim como o judeu de Celso, com as observações acima, encerrou suas acusações contra Jesus, também nós encerraremos aqui o conteúdo do nosso primeiro livro em resposta a ele. E se Deus conceder o dom daquela verdade que destrói toda falsidade, conforme as palavras da oração, Extermina-os na tua verdade, começaremos, no que se segue, a consideração da segunda aparição do judeu, em que ele é representado por Celso dirigindo-se aos que se tornaram convertidos a Jesus.