Contra Celso - Livro I 7

A acusação de Celso e a defesa do cristianismo

Embora o judeu, então, não ofereça defesa alguma para si mesmo nos casos de Ezequiel e Isaías, quando comparamos a abertura dos céus a Jesus, e a voz que foi por ele ouvida, aos casos semelhantes que encontramos registrados em Ezequiel e Isaías, ou em qualquer outro dos profetas, sustentaremos, no entanto, na medida do possível, a nossa posição, afirmando que, assim como é matéria de crença que num sonho impressões foram trazidas diante da mente de muitos, algumas referentes a coisas divinas e outras a acontecimentos futuros desta vida, e isso ou com clareza ou de modo enigmático (fato que é evidente a todos os que aceitam a doutrina da providência), como é absurdo dizer que a mente que pôde receber impressões num sonho seja impressionada também numa visão em vigília, para benefício seja daquele sobre quem as impressões são feitas, seja daqueles que vão ouvir dele o relato delas? E assim como num sonho imaginamos que ouvimos, e que os órgãos da audição são de fato impressionados, e que vemos com os olhos, embora nem os órgãos corporais da visão nem os da audição sejam afetados, mas seja apenas a mente que tem essas sensações, então não absurdo em crer que coisas semelhantes ocorreram aos profetas, quando se registra que eles testemunharam acontecimentos de tipo bastante maravilhoso, como quando ou ouviram as palavras do Senhor ou contemplaram os céus abertos. Pois não suponho que o céu visível tenha sido de fato aberto, e a sua estrutura física dividida, para que Ezequiel pudesse registrar tal acontecimento. Não se deveria, portanto, crer o mesmo a respeito do Salvador, por parte de todo ouvinte inteligente dos Evangelhos? Embora tal acontecimento possa ser um tropeço para os simples, que na sua simplicidade poriam o mundo inteiro em movimento, e partiriam em pedaços o corpo compacto e poderoso de todos os céus. Mas quem examina tais assuntos mais profundamente dirá que, havendo, como a Escritura a chama, uma espécie de percepção divina geral que o homem bem-aventurado sabe como descobrir, segundo o dito de Salomão: Acharás o conhecimento de Deus; e havendo várias formas desse poder perceptivo, tais como uma faculdade de visão que pode naturalmente ver coisas que são melhores do que os corpos, entre as quais se contam os querubins e os serafins; e uma faculdade de audição que pode perceber vozes que não têm o seu ser no ar; e um sentido do paladar que pode fazer uso do pão vivo que desceu do céu e que vida ao mundo; e assim também um sentido do olfato, que sente coisas como as que levam Paulo a dizer que ele é um suave aroma de Cristo para Deus; e um sentido do tato, pelo qual João diz que tocou com as suas mãos o Verbo da vida; tendo os bem-aventurados profetas descoberto essa percepção divina, e vendo e ouvindo desse modo divino, e gostando do mesmo modo, e cheirando, por assim dizer, sem nenhum órgão sensível de percepção, e apreendendo o Logos pela fé, de modo que uma emanação curativa dele vem sobre eles, viram desse modo o que registram ter visto, e ouviram o que dizem ter ouvido, e foram afetados de modo semelhante ao que descrevem ao comer o rolo de um livro que lhes foi dado. E assim também Isaque cheirou o aroma das vestes divinas do seu filho, e acrescentou à bênção espiritual estas palavras: Eis que o aroma do meu filho é como o aroma de um campo cheio que o Senhor abençoou. E de modo semelhante a isto, e mais como algo a ser compreendido pela mente do que percebido pelos sentidos, Jesus tocou o leproso, para purificá-lo, penso eu, num sentido duplo: livrando-o não só, como a multidão ouviu, da lepra visível por contato visível, mas também daquela outra lepra, pelo seu toque verdadeiramente divino. É desse modo, portanto, que João testemunho quando diz: Vi o Espírito descer do céu como uma pomba, e permanecer sobre ele. E eu não o conhecia; mas aquele que me enviou a batizar com água, esse me disse: Sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, esse é o que batiza com o Espírito Santo. E eu vi, e dou testemunho de que este é o Filho de Deus. Ora, foi a Jesus que os céus se abriram; e naquela ocasião não se registra que ninguém, exceto João, os tenha visto abertos. Mas quanto a essa abertura dos céus, o Salvador, predizendo aos seus discípulos que ela aconteceria, e que eles a veriam, diz: Em verdade, em verdade vos digo: Vereis os céus abertos, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem. E assim Paulo foi arrebatado ao terceiro céu, tendo antes o visto aberto, que era um discípulo de Jesus. Não pertence, contudo, ao nosso objetivo presente explicar por que Paulo diz: Se no corpo, não sei; ou se fora do corpo, não sei: Deus o sabe. Mas acrescentarei ao meu argumento até aqueles mesmos pontos que Celso imagina, a saber, que o próprio Jesus relatou o relato da abertura dos céus e da descida do Espírito Santo sobre ele no Jordão na forma de uma pomba, embora a Escritura não afirme que ele tenha dito que o viu. Pois este grande homem não percebeu que não estava de acordo com Aquele que ordenou aos seus discípulos, na ocasião da visão no monte: A ninguém conteis o que vistes, até que o Filho do homem ressuscite dos mortos, ter relatado aos seus discípulos o que foi visto e ouvido por João no Jordão. Pois pode-se observar como um traço do caráter de Jesus que ele em todas as ocasiões evitava falar de si mesmo sem necessidade; e por isso disse: Se falo de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro. E como ele evitava falar de si mesmo sem necessidade, e preferia mostrar por atos, mais do que por palavras, que era o Cristo, por essa razão os judeus lhe disseram: Se tu és o Cristo, dize-nos abertamente. E como é um judeu que, na obra de Celso, usa a Jesus a linguagem a respeito da aparição do Espírito Santo na forma de uma pomba: Este é o teu próprio testemunho, sem apoio senão o de um daqueles que compartilharam da tua punição, a quem tu apresentas, é necessário que lhe mostremos que tal afirmação não está apropriadamente posta na boca de um judeu. Pois os judeus não ligam João a Jesus, nem a punição de João à de Cristo. E por este exemplo, este homem que se gaba de conhecimento universal fica convencido de não saber que palavras deveria atribuir a um judeu empenhado num debate com Jesus.
Depois disso, ele deliberadamente põe de lado, não sei por quê, a mais forte evidência em confirmação das pretensões de Jesus, a saber, que a sua vinda foi predita pelos profetas judeus, Moisés e os que sucederam e também precederam aquele legislador, por incapacidade, como penso, de enfrentar o argumento de que nem os judeus nem qualquer outra seita herética se recusam a crer que Cristo foi objeto de profecia. Mas talvez ele desconhecesse as profecias relativas a Cristo. Pois ninguém que conhecesse as afirmações dos cristãos, de que muitos profetas anunciaram a vinda do Salvador, teria atribuído a um judeu sentimentos que melhor caberia a um samaritano ou a um saduceu proferir; nem o judeu no diálogo teria se expressado em linguagem como a seguinte: Mas o meu profeta certa vez declarou em Jerusalém que o Filho de Deus virá como o Juiz dos justos e o Punidor dos ímpios. Ora, não foi apenas um dos profetas que predisse a vinda de Cristo. Mas, embora os samaritanos e os saduceus, que recebem somente os livros de Moisés, digam que neles estavam contidas predições a respeito de Cristo, certamente não foi em Jerusalém, que nem sequer é mencionada nos tempos de Moisés, que a profecia foi proferida. Seria mesmo de desejar que todos os acusadores do cristianismo fossem igualmente ignorantes como Celso, não dos fatos, mas da simples letra da Escritura, e dirigissem assim os seus ataques contra ela, para que os seus argumentos não tivessem a menor influência disponível para abalar, não digo a fé, mas a pouca de crentes instáveis e passageiros. Um judeu, contudo, não admitiria que algum profeta usasse a expressão: O 'Filho de Deus' virá; pois o termo que eles empregam é: O 'Cristo de Deus' virá. E muitas vezes, de fato, eles nos interrogam diretamente sobre o Filho de Deus, dizendo que tal ser não existe, nem foi objeto de profecia. Não afirmamos, é claro, que o Filho de Deus não seja objeto de profecia; mas afirmamos que ele, de modo muito inapropriado, atribui ao interlocutor judeu, que não admitiria que Ele fosse, uma linguagem como esta: O meu profeta certa vez declarou em Jerusalém que o 'Filho de Deus' virá.
Em seguida, como se o único acontecimento predito fosse este, que Ele seria o Juiz dos justos e o Punidor dos ímpios, e como se nem o lugar do seu nascimento, nem os sofrimentos que Ele haveria de suportar às mãos dos judeus, nem a sua ressurreição, nem as obras maravilhosas que Ele haveria de realizar tivessem sido objeto de profecia, ele continua: Por que deveria ser você, em vez de inúmeros outros que existiram depois de as profecias serem publicadas, a quem essas predições se aplicam? E desejando, não sei como, sugerir a outros a possibilidade da ideia de que eles próprios eram as pessoas a que os profetas se referiam, ele diz que alguns, arrebatados pelo entusiasmo, e outros tendo reunido uma multidão de seguidores, anunciam que o Filho de Deus desceu do céu. Ora, não constatamos que se admita terem ocorrido tais coisas entre os judeus. Temos a observar, então, em primeiro lugar, que muitos dos profetas proferiram predições de todo tipo de modos a respeito de Cristo; alguns por meio de ditos obscuros, outros em alegorias ou de algum outro modo, e alguns também em palavras claras. E como no que se segue ele diz, no papel do judeu que se dirige aos convertidos da sua própria nação, repetindo com ênfase e malevolência que as profecias referentes aos acontecimentos da vida dele podem também se ajustar a outros acontecimentos, exporemos algumas delas dentre um número maior; e a respeito destas, qualquer um que quiser pode dizer o que considera apto a garantir uma refutação delas, e o que possa desviar da os crentes inteligentes.
Ora, a Escritura fala, a respeito do lugar do nascimento do Salvador, que o Soberano haveria de sair de Belém, do seguinte modo: E tu, Belém, casa de Efrata, não és a menor entre os milhares de Judá; pois de ti sairá para mim aquele que de ser Soberano em Israel; e as suas saídas são desde os tempos antigos, desde a eternidade. Ora, esta profecia não poderia se ajustar a nenhum daqueles que, como diz o judeu de Celso, eram fanáticos e agitadores da multidão, e que anunciavam ter vindo do céu, a menos que se mostrasse claramente que Ele tinha nascido em Belém, ou, como outro poderia dizer, que tinha saído de Belém para ser o líder do povo. Quanto ao nascimento de Jesus em Belém, se alguém deseja, depois da profecia de Miqueias e depois da história registrada nos Evangelhos pelos discípulos de Jesus, ter evidência adicional de outras fontes, saiba que, em conformidade com a narrativa do Evangelho sobre o seu nascimento, mostra-se em Belém a gruta onde Ele nasceu, e a manjedoura na gruta onde foi envolto em panos. E essa visão é muito comentada nos lugares circunvizinhos, mesmo entre os inimigos da fé, dizendo-se que nesta gruta nasceu aquele Jesus que é adorado e reverenciado pelos cristãos. Além disso, sou de opinião que, antes da vinda de Cristo, os principais sacerdotes e escribas do povo, por causa da clareza e nitidez desta profecia, ensinavam que em Belém o Cristo haveria de nascer. E essa opinião havia prevalecido também amplamente entre os judeus; por essa razão se relata que Herodes, ao perguntar aos principais sacerdotes e escribas do povo, ouviu deles que o Cristo haveria de nascer em Belém da Judeia, de onde era Davi. Afirma-se também no Evangelho segundo João que os judeus declararam que o Cristo haveria de nascer em Belém, de onde era Davi. Mas depois da vinda do nosso Senhor, aqueles que se empenhavam em derrubar a crença de que o lugar do seu nascimento tinha sido objeto de profecia desde o princípio retiveram tal ensino do povo; agindo de modo semelhante àqueles indivíduos que persuadiram aqueles soldados da guarda postados ao redor do túmulo, que o tinham visto ressuscitar dos mortos, e que instruíram essas testemunhas oculares a relatar o seguinte: Dizei que os seus discípulos vieram de noite, enquanto dormíamos, e o roubaram. E se isto chegar aos ouvidos do governador, nós o persuadiremos, e vos poremos a salvo.
A discórdia e o preconceito são instrumentos poderosos para levar os homens a desconsiderar até aquilo que é abundantemente claro; de modo que aqueles que de algum modo se familiarizaram com certas opiniões, que impregnaram profundamente as suas mentes e as marcaram com certo caráter, não as abandonarão. Pois um homem abandonará os seus hábitos em relação a outras coisas, embora possa lhe ser difícil arrancar-se deles, mais facilmente do que entregará as suas opiniões. Mais ainda, até os primeiros não são postos de lado facilmente por aqueles que se acostumaram a eles; e assim nem casas, nem cidades, nem aldeias, nem amizades íntimas são abandonadas de boa vontade quando estamos predispostos em seu favor. Esta, portanto, foi uma razão pela qual muitos dos judeus daquele tempo desconsideraram o testemunho claro das profecias, e dos milagres que Jesus realizou, e dos sofrimentos que se relata que Ele suportou. E que a natureza humana é assim afetada ficará manifesto àqueles que observam que aqueles que uma vez se predispuseram em favor das mais desprezíveis e insignificantes tradições dos seus antepassados e concidadãos as deixam de lado com dificuldade. Por exemplo, ninguém poderia facilmente persuadir um egípcio a desprezar o que aprendera dos seus pais, de modo a não mais considerar este ou aquele animal irracional como um deus, ou a não evitar comer, mesmo sob pena de morte, da carne de tal animal. Ora, se, ao levar a nossa investigação deste assunto a uma extensão considerável, enumeramos os pontos relativos a Belém e à profecia a seu respeito, consideramos que fomos obrigados a fazer isso, como defesa contra aqueles que afirmariam que, se as profecias correntes entre os judeus a respeito de Jesus eram tão claras como as representamos, por que eles, na sua vinda, não deram a sua adesão à doutrina dele, e não se entregaram à vida melhor por ele indicada? Que ninguém, contudo, lance tal reprovação contra os crentes, pois pode ver que razões de não pequeno peso são apresentadas, por aqueles que aprenderam a expô-las, para a sua em Jesus.
E se pedíssemos uma segunda profecia, que nos pareça ter clara referência a Jesus, citaríamos aquela que foi escrita por Moisés muitíssimos anos antes da vinda de Cristo, quando ele apresenta Jacó, ao partir desta vida, proferindo predições a respeito de cada um dos seus filhos, e dizendo de Judá junto com os outros: Não faltará o soberano de Judá, nem o governante dos seus lombos, até que venha aquilo que lhe está reservado. Ora, qualquer um que se deparasse com esta profecia, que na realidade é muito mais antiga do que Moisés, de modo que alguém que não fosse crente poderia suspeitar que ela não tenha sido escrita por ele, ficaria surpreso de que Moisés fosse capaz de predizer que os príncipes dos judeus, havendo entre eles doze tribos, nasceriam da tribo de Judá, e seriam os soberanos do povo; pela qual razão também a nação inteira é chamada de judeus, derivando o seu nome da tribo soberana. E, em segundo lugar, quem considerar com honestidade a profecia ficaria surpreso de como, depois de declarar que os soberanos e governantes do povo haveriam de proceder da tribo de Judá, ele determinaria também o limite do seu governo, dizendo que o soberano não faltaria de Judá, nem o governante dos seus lombos, até que viesse aquilo que lhe estava reservado, e que Ele é a expectativa das nações. Pois veio Aquele para quem essas coisas estavam reservadas, a saber, o Cristo de Deus, o soberano das promessas de Deus. E manifestamente Ele é o único, entre os que o precederam, e, eu ousaria dizer, também entre os que o seguiram, que foi a expectativa das nações; pois convertidos dentre todas as nações gentílicas creram em Deus por meio dele, e isso em conformidade com a predição de Isaías, de que no seu nome as nações tinham esperado: No teu nome esperarão as nações. E este homem disse também aos que estão na prisão, que todo homem é cativo das correntes dos seus pecados: Saí; e aos ignorantes: Vinde para a luz: tendo essas coisas também sido assim preditas: Eu te dei para aliança do povo, para firmar a terra, para fazer herdar a herança desolada; dizendo aos prisioneiros: Saí; e aos que estão nas trevas: Mostrai-vos. E podemos ver, no aparecimento deste homem, por meio daqueles que por toda parte do mundo depositaram nele uma simples, o cumprimento desta predição: Eles se apascentarão pelos caminhos, e os seus pastos estarão em todas as trilhas batidas.
E que Celso, embora declarando saber tudo sobre o Evangelho, censura o Salvador por causa dos seus sofrimentos, dizendo que Ele não recebeu nenhuma ajuda do Pai, ou que foi incapaz de ajudar a si mesmo, temos a afirmar que os seus sofrimentos foram objeto de profecia, junto com a causa deles; porque era para benefício da humanidade que Ele morresse por causa dela, e sofresse açoites por causa da sua condenação. Foi predito, além disso, que alguns dentre os gentios chegariam ao conhecimento dele (entre os quais os profetas não estão incluídos); e fora declarado que Ele seria visto numa forma que é considerada desonrosa entre os homens. As palavras da profecia dizem assim: Eis que o meu Servo terá entendimento, e será exaltado e glorificado, e levantado em extremo. Do mesmo modo, muitos se espantarão de ti; assim a tua forma será sem reputação entre os homens, e a tua glória entre os filhos dos homens. Eis que muitas nações se maravilharão por causa dele; e reis fecharão a boca: porque eles, a quem nenhuma mensagem a seu respeito fora enviada, o verão; e os que não ouviram falar dele terão conhecimento dele. Senhor, quem creu na nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Apresentamos a notícia diante dele como uma criança, como uma raiz numa terra sedenta. Ele não tem forma nem glória; e nós o contemplamos, e Ele não tinha forma nem beleza: mas a sua aparência era sem honra, e mais deficiente do que a de todos os homens. Era um homem sob sofrimento, e que sabia suportar a doença: porque o seu rosto fora desviado, foi tratado com desprezo, e foi tido em nada. Este homem leva os nossos pecados, e sofre dor em nosso favor; e nós o considerávamos como em aflição, e em sofrimento, e como maltratado. Mas Ele foi ferido pelos nossos pecados, e moído pelas nossas iniquidades. O castigo da nossa paz estava sobre Ele; pelas suas pisaduras fomos curados. Todos nós, como ovelhas, nos desviamos do caminho. Um homem se desviou no seu caminho, e o Senhor o entregou por causa dos nossos pecados; e Ele, por causa do seu mau tratamento, não abre a boca. Como ovelha foi levado ao matadouro; e como um cordeiro mudo diante do seu tosquiador, assim Ele não abre a boca. Na sua humilhação foi tirado o seu juízo. E quem descreverá a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra; por causa das iniquidades do meu povo foi Ele levado à morte.
Ora, lembro-me de que, em certa ocasião, num debate realizado com certos judeus que eram tidos por homens sábios, citei estas profecias; ao que o meu oponente judeu respondeu que essas predições tinham referência ao povo inteiro, considerado como um único indivíduo, e como estando em estado de dispersão e sofrimento, a fim de que muitos prosélitos pudessem ser ganhos, por causa da dispersão dos judeus entre numerosas nações pagãs. E desse modo ele explicava as palavras: A tua forma será sem reputação entre os homens; e depois: Eles, a quem nenhuma mensagem a seu respeito foi enviada, verão; e a expressão: Um homem sob sofrimento. Muitos argumentos foram empregados naquela ocasião, durante a discussão, para provar que essas predições a respeito de uma pessoa em particular não eram corretamente aplicadas por eles à nação inteira. E eu perguntei a que personagem a expressão seria apropriada: Este homem leva os nossos pecados, e sofre dor em nosso favor; e esta: Mas Ele foi ferido pelos nossos pecados, e moído pelas nossas iniquidades; e a quem propriamente pertencia a expressão: Pelas suas pisaduras fomos curados. Pois é manifesto que são eles, que tinham sido pecadores e tinham sido curados pelos sofrimentos do Salvador (quer pertencessem à nação judaica, quer fossem convertidos dentre os gentios), que usam tal linguagem nos escritos do profeta que previu esses acontecimentos, e que, sob a influência do Espírito Santo, aplicou essas palavras a uma pessoa. Mas parecia que os pressionávamos com mais força com a expressão: Por causa das iniquidades do meu povo foi Ele levado à morte. Pois se o povo, segundo eles, é o objeto da profecia, como se diz que o homem foi levado à morte por causa das iniquidades do povo de Deus, a menos que ele seja uma pessoa diferente desse povo de Deus? E quem é esta pessoa senão Jesus Cristo, por cujas pisaduras são curados os que nele creem, quando Ele havia despojado os principados e as potestades (que estavam sobre nós), e os havia exposto publicamente na sua cruz? Em outra ocasião poderemos explicar as várias partes da profecia, sem deixar nenhuma delas sem exame. Mas estes assuntos foram tratados mais demoradamente, necessariamente, como penso, por causa da linguagem do judeu, tal como citada na obra de Celso.