Contra Celso - Livro I 5

A acusação de Celso e a defesa do cristianismo

Ora, quem investigasse com cuidado comum a natureza desses fatos não ficaria tomado de espanto diante da vitória deste homem? Diante de seu pleno êxito em superar, pela sua reputação, todas as causas que tendiam a desacreditá-lo, e de sua superioridade sobre todos os outros indivíduos ilustres do mundo? E no entanto é coisa rara homens distintos conseguirem adquirir reputação por várias coisas ao mesmo tempo. Pois um homem é admirado por sua sabedoria, outro por sua perícia militar, e alguns dos bárbaros por seus prodigiosos poderes de encantamento, e uns por uma qualidade, e outros por outra. Mas não foram muitos os que ao mesmo tempo foram admirados e adquiriram reputação por muitas coisas. Este homem, no entanto, além de seus outros méritos, é objeto de admiração tanto por sua sabedoria, quanto por seus milagres, quanto por seus poderes de governo. Pois ele persuadiu alguns a se afastarem de suas leis e a aderirem a ele, não como faria um tirano, nem como um salteador que arma os seus seguidores contra os homens, nem como um homem rico que concede ajuda aos que vêm a ele, nem como um dos que reconhecidamente merecem censura, mas como um mestre da doutrina a respeito do Deus de todas as coisas, e do culto que Lhe pertence, e de todos os preceitos morais capazes de assegurar o favor do Deus Supremo àquele que ordena a sua vida em conformidade com eles. Ora, a Temístocles, ou a qualquer outro homem de distinção, nada aconteceu que servisse de obstáculo à sua reputação. A este homem, no entanto, além do que enumeramos, e que basta para cobrir de desonra a alma de um homem ainda que da mais nobre índole, houve aquela morte aparentemente infame da crucificação, que bastaria para apagar a glória que ele havia adquirido e para levar aqueles que, como afirmam os que renegam a sua doutrina, antes haviam sido iludidos por ele, a abandonar o seu engano e a condenar o seu enganador.
E, além disso, bom motivo para admirar como aconteceu que os discípulos, se, como dizem os caluniadores de Jesus, não O viram depois de sua ressurreição dentre os mortos, e não estavam convencidos de sua divindade, não tiveram medo de suportar os mesmos sofrimentos que o seu Mestre, e de se expor ao perigo, e de deixar a sua terra natal para ensinar, conforme o desejo de Jesus, a doutrina que Ele lhes transmitiu. Pois penso que ninguém que examine os fatos com isenção diria que esses homens se dedicaram a uma vida de perigo por causa da doutrina de Jesus sem uma crença profunda, que Ele havia operado em suas mentes, na verdade dela, ensinando-os não a se conformarem aos seus preceitos, mas a ensiná-los também a outros, e isso mais ainda quando a destruição evidente da vida pairava sobre quem ousasse introduzir essas novas opiniões em todos os lugares e diante de todas as plateias, e que não podia manter como amigo nenhum ser humano que aderisse às opiniões e aos costumes antigos. Pois acaso os discípulos de Jesus não viram, quando ousaram provar não aos judeus, a partir de suas Escrituras proféticas, que este é Aquele de quem os profetas falaram, mas também às outras nações pagãs, que Aquele que foi crucificado ontem ou anteontem sofreu voluntariamente esta morte em favor da raça humana, que isso era análogo ao caso daqueles que morreram pela sua pátria para afastar uma peste, ou a esterilidade, ou tempestades? Pois é provável que haja, na natureza das coisas, por certas razões misteriosas difíceis de serem compreendidas pela multidão, tal virtude que um homem justo, morrendo de morte voluntária pelo bem comum, pudesse ser o meio de afastar espíritos maus, que são a causa das pragas, ou da esterilidade, ou das tempestades, ou de calamidades semelhantes. Que aqueles, portanto, que não querem crer na afirmação de que Jesus morreu na cruz em favor dos homens digam se também se recusam a aceitar os muitos relatos correntes, tanto entre gregos quanto entre bárbaros, de pessoas que deram a vida pelo bem público, a fim de afastar os males que haviam recaído sobre cidades e países. Ou dirão que tais eventos de fato aconteceram, mas que não se deve dar crédito àquele relato que afirma ter este chamado homem morrido para assegurar a destruição de um poderoso espírito maligno, o senhor dos espíritos malignos, que mantinha em sujeição as almas de todos os homens sobre a terra? E os discípulos de Jesus, vendo isso e muito mais, que provavelmente aprenderam de Jesus em particular, e estando, além disso, cheios de um poder divino, pois não foi nenhuma virgem meramente poética que os dotou de força e coragem, mas a verdadeira sabedoria e o entendimento de Deus, empregaram todos os seus esforços para se tornarem ilustres entre todos os homens, não entre os argivos, mas entre todos os gregos e bárbaros igualmente, e assim conquistarem para si uma fama gloriosa.
Mas voltemos agora ao ponto em que o judeu é introduzido, falando da mãe de Jesus e dizendo que, quando ela estava grávida, foi posta para fora de casa pelo carpinteiro com quem estava prometida em casamento, por ter sido culpada de adultério, e que ela teve um filho de um certo soldado chamado Pantera. E vejamos se aqueles que cegamente forjaram essas fábulas sobre o adultério da Virgem com Pantera e a sua rejeição pelo carpinteiro não inventaram essas histórias para derrubar a sua concepção milagrosa pelo Espírito Santo. Pois eles poderiam ter falsificado a história de outra maneira, dado o seu caráter extremamente prodigioso, e não terem admitido, como que contra a sua vontade, que Jesus não nasceu de um casamento humano comum. Era de esperar, de fato, que aqueles que não acreditavam no nascimento milagroso de Jesus inventassem alguma falsidade. E o fato de não fazerem isso de modo crível, mas de preservarem que não foi de José que a Virgem concebeu Jesus, tornou a falsidade muito evidente aos que sabem entender e detectar tais invenções. Acaso é de modo algum razoável que Aquele que ousou fazer tanto pela raça humana, para que, tanto quanto dependesse dele, todos os gregos e bárbaros, que aguardavam a condenação divina, se afastassem do mal e regulassem toda a sua conduta de maneira agradável ao Criador do mundo, não tivesse tido um nascimento milagroso, mas o mais vil e vergonhoso de todos? E eu lhes perguntarei, como gregos, e em particular a Celso, que ora sustenta, ora não, as ideias de Platão, mas que de todo modo as cita, se Aquele que envia almas para dentro dos corpos dos homens rebaixou Aquele que iria ousar feitos tão grandiosos, e ensinar tantos homens, e reformar tantos da massa de maldade do mundo, a um nascimento mais vergonhoso do que qualquer outro, e não O introduziu antes no mundo por meio de um casamento legítimo. Ou não está mais de acordo com a razão que toda alma, por certas razões misteriosas, falo agora segundo a opinião de Pitágoras, de Platão e de Empédocles, a quem Celso nomeia com frequência, seja introduzida num corpo, e introduzida segundo os seus méritos e as suas ações anteriores? É provável, portanto, que também esta alma, que pela sua permanência na carne trouxe mais benefício do que a de muitos homens, para evitar antipatia, não digo de todos, precisasse de um corpo não superior aos outros, mas dotado de todas as qualidades excelentes.
Ora, se uma alma particular, por certas razões misteriosas, não é digna de ser colocada no corpo de um ser totalmente irracional, nem no de um puramente racional, mas é revestida de um corpo disforme, de modo que a razão não consegue exercer as suas funções num corpo assim feito, que tem a cabeça desproporcional às demais partes e por demais curta, e outra recebe um corpo tal que a alma é um pouco mais racional do que a primeira, e outra ainda mais, contrariando a natureza do corpo, em maior ou menor grau, a recepção do princípio racional, por que não haveria também alguma alma que recebesse um corpo inteiramente prodigioso, possuindo algumas qualidades comuns às dos demais homens, de modo a poder passar a vida com eles, mas possuindo também alguma qualidade de superioridade, de modo que a alma possa permanecer livre de mancha de pecado? E se houver alguma verdade na doutrina dos fisionomistas, seja Zópiro, ou Loxo, ou Polemão, ou qualquer outro que tenha escrito sobre tal assunto, e que afirmam saber, de algum modo admirável, que todos os corpos são adaptados aos hábitos das almas, então para aquela alma que iria habitar com poder prodigioso entre os homens e realizar grandes feitos, deveria ter sido produzido um corpo, como pensa Celso, por um ato de adultério entre Pantera e a Virgem? Ora, de tal união profana antes deveria ter sido gerado algum tolo para causar dano à humanidade, um mestre de licenciosidade e de maldade, e de outros males, e não de temperança, de retidão e das demais virtudes!
Mas foi, como os profetas também predisseram, de uma virgem que haveria de nascer, segundo o sinal prometido, alguém que daria o seu nome a esse fato, mostrando que, no seu nascimento, Deus estaria com o homem. Ora, parece-me apropriado ao caráter de um judeu ter citado a profecia de Isaías, que diz que o Emanuel haveria de nascer de uma virgem. Isto, no entanto, Celso, que se diz conhecedor de tudo, não fez, seja por ignorância, seja por relutância, caso a tivesse lido e voluntariamente a tivesse passado em silêncio, em fornecer um argumento que pudesse frustrar o seu propósito. E a predição diz assim: E o Senhor falou de novo a Acaz, dizendo, Pede para ti um sinal ao Senhor teu Deus, pede-o ou nas profundezas ou nas alturas. Mas Acaz disse, Não pedirei, nem tentarei o Senhor. E ele disse, Ouvi agora, ó casa de Davi, é pouco para vós cansar os homens, mas cansareis também o meu Deus? Por isso o próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamará o seu nome Emanuel, que, traduzido, é Deus conosco. E que foi por malícia intencional que Celso não citou esta profecia, fica claro para mim a partir disto: embora ele faça numerosas citações do Evangelho segundo Mateus, como a da estrela que apareceu no nascimento de Cristo, e de outras ocorrências milagrosas, ele não fez menção alguma a esta. Ora, se um judeu vier a brigar com as palavras, e disser que as palavras não são, Eis uma virgem, mas, Eis uma jovem, respondemos que a palavra Olmah, que a Septuaginta verteu por virgem, e outros por jovem, ocorre, segundo dizem, no Deuteronômio, aplicada a uma virgem, na seguinte passagem: Se uma jovem que é virgem estiver prometida a um marido, e um homem a encontrar na cidade e se deitar com ela, então trareis ambos para fora, à porta daquela cidade, e os apedrejareis com pedras até que morram, a jovem porque não gritou, estando na cidade, e o homem porque humilhou a mulher do seu próximo. E ainda: Mas se um homem encontrar uma jovem prometida num campo, e o homem a forçar e se deitar com ela, então o homem que se deitou com ela morrerá, mas à jovem nada fareis, não nela pecado digno de morte.
Mas, para que não pareça que, por causa de uma palavra hebraica, estamos tentando persuadir os que são incapazes de decidir se devem ou não crer nela, que o profeta falou que este homem nasceria de uma virgem porque no seu nascimento foram proferidas estas palavras, Deus conosco, comprovemos o nosso ponto a partir das próprias palavras. Relata-se que o Senhor falou a Acaz assim: Pede para ti um sinal ao Senhor teu Deus, ou nas profundezas ou nas alturas. E depois é dado o sinal, Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho. Que espécie de sinal, então, teria sido aquele, uma jovem que não era virgem dando à luz uma criança? E qual das duas é a mais apropriada como mãe do Emanuel, isto é, Deus conosco, se uma mulher que teve relações com um homem e que concebeu à maneira das mulheres, ou uma que ainda é virgem pura e santa? É certo que à última cabe gerar um ser em cujo nascimento se diz, Deus conosco. E se ele for tão capcioso a ponto de dizer que é a Acaz que se dirige a ordem, Pede para ti um sinal ao Senhor teu Deus, perguntaremos em resposta: quem, nos tempos de Acaz, gerou um filho em cujo nascimento se fez uso da expressão Emanuel, isto é, Deus conosco? E se ninguém puder ser encontrado, então manifestamente o que foi dito a Acaz foi dito à casa de Davi, porque está escrito que o Salvador nasceu da casa de Davi segundo a carne. E diz-se que este sinal está na profundeza ou na altura, que Aquele que desceu é o mesmo que também subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. E emprego estes argumentos contra um judeu que crê na profecia. Que Celso me diga agora, ou qualquer dos que pensam como ele, com que sentido o profeta profere ou estas afirmações sobre o futuro, ou as outras que se contêm nas profecias. É com alguma previsão do futuro ou não? Se com previsão do futuro, então os profetas eram divinamente inspirados. Se sem previsão do futuro, que ele explique o sentido de alguém que fala com tanta ousadia a respeito do futuro, e que é objeto de admiração entre os judeus por causa de seus poderes proféticos.
E agora, que tocamos no tema dos profetas, o que estamos prestes a expor será útil não aos judeus, que creem que eles falaram por inspiração divina, mas também aos mais isentos entre os gregos. A estes dizemos que devemos necessariamente admitir que os judeus tinham profetas, se haviam de ser mantidos coesos sob aquele sistema de lei que lhes fora dado, e haviam de crer no Criador do mundo, como tinham aprendido, e haviam de ficar sem pretextos, no que dizia respeito à lei, para apostatar rumo ao politeísmo dos pagãos. E estabelecemos essa necessidade do seguinte modo. Pois as nações, como está escrito na própria lei dos judeus, hão de dar ouvidos a adivinhos e prognosticadores. Mas àquele povo se diz, Quanto a vós, o Senhor vosso Deus não vos permitiu agir assim. E a isto se junta a promessa: Um profeta vos suscitará o Senhor vosso Deus dentre os vossos irmãos. que, portanto, os pagãos empregam modos de adivinhação, seja por oráculos, ou por presságios, ou por aves, ou por ventríloquos, ou pelos que professam a arte do sacrifício, ou por genealogistas caldeus, todas práticas proibidas aos judeus, este povo, se não tivesse meios de obter conhecimento do futuro, levado pela paixão comum à humanidade de querer averiguar o porvir, teria desprezado os seus próprios profetas, como não tendo neles partícula alguma de divindade, e não teria aceitado nenhum profeta depois de Moisés, nem confiado as suas palavras à escrita, mas teria espontaneamente recorrido aos usos adivinhatórios dos pagãos, ou tentado estabelecer entre si práticas semelhantes. Não há, portanto, absurdo algum em que os seus profetas tenham proferido predições mesmo sobre eventos sem importância, para acalmar os que desejam tais coisas, como quando Samuel profetiza a respeito de três jumentas que se haviam perdido, ou quando se faz menção, no terceiro livro de Reis, à doença do filho de um rei. E por que os que desejavam obter augúrios de ídolos não haveriam de ser severamente repreendidos pelos administradores da lei entre os judeus? Como se Elias repreender Acazias, dizendo, É porque não um Deus em Israel que vais consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom?
Penso, então, que ficou razoavelmente estabelecido não que o nosso Salvador haveria de nascer de uma virgem, mas também que havia profetas entre os judeus que proferiram não meramente predições gerais sobre o futuro, como, por exemplo, a respeito de Cristo e dos reinos do mundo, e dos eventos que haveriam de acontecer a Israel, e daquelas nações que haveriam de crer no Salvador, e muitas outras coisas a respeito Dele, mas também profecias relativas a eventos particulares, como, por exemplo, de que modo as jumentas de Quis, que se haviam perdido, seriam encontradas, e a respeito da doença que recaíra sobre o filho do rei de Israel, e qualquer outra circunstância registrada de natureza semelhante. Mas, como mais uma resposta aos gregos, que não creem no nascimento de Jesus a partir de uma virgem, temos a dizer que o Criador mostrou, pela geração de várias espécies de animais, que o que Ele fez no caso de um animal poderia fazer, se Lhe aprouvesse, no de outros, e também no do próprio homem. Pois constata-se que certo animal fêmea que não tem relação com o macho, como dizem os que escrevem sobre animais ser o caso dos abutres, e que este animal, sem relação sexual, preserva a sucessão da espécie. Que incredibilidade, portanto, em supor que, se Deus quisesse enviar à raça humana um mestre divino, Ele o fizesse nascer de algum modo diferente do comum? Mais ainda: segundo os próprios gregos, nem todos os homens nasceram de homem e mulher. Pois, se o mundo foi criado, como muitos até dos gregos se comprazem em admitir, então os primeiros homens devem ter sido produzidos não a partir de relação sexual, mas da terra, na qual existiam elementos seminais. O que, contudo, considero mais incrível do que Jesus ter nascido como os demais homens, no que diz respeito à metade de seu nascimento. E não absurdo algum em empregar histórias gregas para responder aos gregos, com o intuito de mostrar que não somos os únicos a recorrer a narrativas prodigiosas desse tipo. Pois alguns acharam por bem, não a respeito de narrativas antigas e heroicas, mas a respeito de eventos de ocorrência muito recente, relatar como coisa possível que Platão era filho de Anfictíone, tendo Ariston sido impedido de ter relações conjugais com a esposa até que ela desse à luz aquele de quem estava grávida por obra de Apolo. E no entanto essas são fábulas verdadeiras, que levaram à invenção de tais histórias a respeito de um homem que eles consideravam possuir maior sabedoria e poder do que a multidão, e ter recebido o princípio de sua substância corpórea de elementos melhores e mais divinos do que os outros, porque pensavam que isso era apropriado a pessoas grandes demais para serem seres humanos. E que Celso introduziu o judeu disputando com Jesus e despedaçando, como imagina, a ficção de seu nascimento de uma virgem, comparando-a com as fábulas gregas sobre Dânae, Melanipe, Auge e Antíope, a nossa resposta é que tal linguagem fica bem a um bufão, e não a quem escreve em tom sério.
Mas, além disso, tomando a história, contida no Evangelho segundo Mateus, da descida de nosso Senhor ao Egito, ele se recusa a crer nas circunstâncias milagrosas que a acompanham, isto é, ou que o anjo deu o aviso divino, ou que a partida de nosso Senhor da Judeia e a sua residência no Egito tenham sido um evento de qualquer significado. Mas ele inventa algo completamente diferente, admitindo de algum modo as obras milagrosas feitas por Jesus, por meio das quais Ele induziu a multidão a segui-Lo como o Cristo. E no entanto ele deseja desacreditá-las, como tendo sido feitas com ajuda de magia e não por poder divino. Pois afirma que ele, Jesus, tendo sido criado como filho ilegítimo, e tendo servido por salário no Egito, e tendo então tomado conhecimento de certos poderes milagrosos, voltou de para a sua própria terra e, por meio desses poderes, proclamou-se um deus. Ora, não compreendo como um mago se esforçaria para ensinar uma doutrina que nos persuade a agir sempre como se Deus fosse julgar cada homem por seus atos, e teria formado os seus discípulos, que ele iria empregar como ministros de sua doutrina, na mesma crença. Pois acaso estes causaram impressão em seus ouvintes, depois de terem sido assim ensinados a operar milagres, ou foi sem o auxílio destes? A afirmação, portanto, de que eles não fizeram milagre algum, mas que, depois de cederem a argumentos que não eram de modo algum convincentes, como a sabedoria da dialética grega, entregaram-se à tarefa de ensinar a nova doutrina àquelas pessoas entre as quais por acaso fixaram morada, é completamente absurda. Pois em que depositaram a sua confiança quando ensinaram a doutrina e disseminaram as novas opiniões? Mas, se de fato operaram milagres, então como se pode crer que magos se expusessem a tais riscos para introduzir uma doutrina que proibia a prática da magia?
Não julgo necessário travar luta com um argumento apresentado não em espírito sério, mas zombeteiro, como o seguinte: Se a mãe de Jesus era bela, então o deus, cuja natureza não é amar um corpo corruptível, teve relações com ela porque era bela. Ou, Era improvável que o deus nutrisse paixão por ela, pois não era rica nem de estirpe real, que ninguém, nem mesmo entre os seus vizinhos, a conhecia. E é no mesmo espírito zombeteiro que ele acrescenta: Quando odiada pelo marido e posta para fora de casa, não foi salva por poder divino, nem a sua história foi acreditada. Tais coisas, diz ele, nada têm a ver com o reino dos céus. Em que tal linguagem difere da daqueles que despejam insultos sobre os outros nas ruas públicas, e cujas palavras não merecem nenhuma atenção séria?