Contra Celso - Livro I 2
A acusação de Celso e a defesa do cristianismo
Ele em seguida passa a recomendar que, ao adotar opiniões, devemos seguir a razão e um guia racional, pois quem dá assentimento a opiniões sem seguir esse caminho fica muito sujeito a ser enganado. E compara os crédulos irrefletidos aos sacerdotes mendicantes de Cibele, aos adivinhos, aos devotos de Mitra e de Sabázio, e a qualquer outra coisa com que se possa esbarrar, e aos fantasmas de Hécate, ou a qualquer outro demônio ou demônios. Pois, assim como entre essas pessoas frequentemente se encontram homens maus que, aproveitando-se da ignorância dos que se deixam enganar facilmente, os arrastam para onde quiserem, assim também, diz ele, ocorre entre os cristãos. E afirma que certas pessoas, que não querem nem dar nem receber uma razão para sua crença, ficam repetindo: Não examine, mas creia! e: A tua fé te salvará! E alega que essas também dizem: A sabedoria desta vida é má, mas a tolice é coisa boa! Ao que temos a responder o seguinte: se fosse possível a todos abandonar os afazeres da vida e se dedicar à filosofia, nenhum outro método deveria ser adotado por ninguém, apenas esse. Pois no sistema cristão também se constatará que há, para não falar de modo nenhum arrogante, pelo menos tanta investigação dos artigos de fé, e tanta explicação de ditos obscuros que ocorrem nos escritos proféticos, e das parábolas nos Evangelhos, e de incontáveis outras coisas que ou foram narradas ou foram encenadas com sentido simbólico, quanto há em outros sistemas. Mas, já que o caminho mencionado é impossível, em parte por causa das necessidades da vida, em parte por causa da fraqueza dos homens, pois só pouquíssimos indivíduos se dedicam com seriedade ao estudo, que método melhor poderia ser concebido para ajudar a multidão do que aquele que foi entregue por Jesus aos pagãos? E investiguemos, a respeito da grande multidão de crentes que lavaram a sujeira de maldade na qual antes se chafurdavam, se foi melhor para eles crer sem uma razão e (assim) terem se reformado e melhorado nos costumes, pela crença de que os homens são castigados por pecados e honrados por boas obras, ou não terem se deixado converter pela força da mera fé, mas terem esperado até poderem se dedicar a um exame minucioso das razões necessárias. Pois é evidente que, por esse plano, todos os homens, com pouquíssimas exceções, não teriam alcançado essa melhora de conduta que alcançaram por uma fé simples, mas continuariam na prática de uma vida má. Ora, qualquer que seja a outra evidência que se possa apresentar do fato de que não foi sem intervenção divina que o plano filantrópico do cristianismo foi introduzido entre os homens, esta também deve ser acrescentada. Pois um homem piedoso não acreditará que mesmo um médico do corpo, que devolve a saúde aos doentes, pudesse fixar moradia em qualquer cidade ou país sem permissão divina, já que nenhum bem acontece aos homens sem a ajuda de Deus. E se aquele que curou os corpos de muitos, ou os restaurou a uma saúde melhor, não realiza suas curas sem a ajuda de Deus, quanto mais aquele que curou as almas de muitos, e as voltou para a virtude, e melhorou a natureza delas, e as uniu a Deus, que está acima de todas as coisas, e as ensinou a remeter cada ação ao bom prazer dele, e a evitar tudo o que lhe desagrada, até a menor de suas palavras ou ações, ou mesmo dos pensamentos do coração?