Contra Celso - Livro I 2

A acusação de Celso e a defesa do cristianismo

O primeiro ponto que Celso levanta, no desejo de desacreditar o cristianismo, é que os cristãos formavam entre si associações secretas, contra a lei. Ele diz que algumas associações são públicas e estão de acordo com as leis, mas outras são secretas e mantidas em violação das leis. E quer pôr em fama o que se chama de festas de amor dos cristãos, como se tivessem nascido de um perigo comum e fossem mais obrigatórias do que qualquer juramento. que ele tagarela sobre a lei pública, alegando que as associações dos cristãos a violam, temos a responder o seguinte: se alguém fosse colocado entre os cítios, cujas leis eram ímpias, e, sem nenhuma chance de fuga, fosse obrigado a viver entre eles, esse homem teria boa razão, em nome da lei da verdade (que os cítios considerariam maldade), para entrar em associações contra as leis deles, ao lado dos que pensassem como ele. Da mesma forma, se a verdade é quem decide, as leis dos pagãos a respeito de imagens e de um politeísmo ateu são leis cíticas, ou até mais ímpias do que essas, se é que existem leis assim. Não é, portanto, irracional formar associações contra as leis vigentes, se isso for feito em nome da verdade. Pois assim como agiriam bem aqueles que formassem uma associação secreta para matar um tirano que se apoderou da liberdade de um Estado, do mesmo modo os cristãos, quando tiranizados por aquele que é chamado de diabo e pela falsidade, formam alianças contra as leis do diabo, contra o poder dele, e em favor da segurança daqueles outros que conseguirem convencer a se rebelar contra um governo que é, por assim dizer, cítico e despótico.
Celso segue dizendo que o sistema de doutrina sobre o qual o cristianismo se apoia, ou seja, o judaísmo, teve origem bárbara. E, com aparência de justiça, ele não censura o cristianismo por sua origem entre bárbaros, mas até reconhece neles a capacidade de descobrir tais doutrinas. A isso, no entanto, ele acrescenta que os gregos são mais hábeis do que quaisquer outros para julgar, firmar e pôr em prática as descobertas das nações bárbaras. Ora, esta é nossa resposta às alegações dele e nossa defesa das verdades contidas no cristianismo: se alguém viesse do estudo das opiniões e dos costumes gregos para o Evangelho, não concluiria que suas doutrinas são verdadeiras, como também, pela prática, firmaria essa verdade, supriria o que parecesse faltar (do ponto de vista grego) à demonstração delas, e assim confirmaria a verdade do cristianismo. Temos a dizer, além disso, que o Evangelho tem uma demonstração própria, mais divina do que qualquer uma estabelecida pela dialética grega. E esse método mais divino é chamado pelo apóstolo de manifestação do Espírito e de poder: do Espírito, por causa das profecias, que bastam para produzir em qualquer um que as leia, sobretudo no que diz respeito a Cristo; e de poder, por causa dos sinais e maravilhas que devemos crer terem sido realizados, tanto por muitos outros motivos quanto por este: que vestígios deles ainda se preservam entre os que regem a vida pelos preceitos do Evangelho.
Depois disso, Celso passa a falar dos cristãos que ensinam e praticam em segredo suas doutrinas preferidas, dizendo que fazem isso por um propósito: escapar da pena de morte que os ameaça. E compara os perigos deles com os enfrentados por homens como Sócrates em nome da filosofia. Aqui ele poderia ter mencionado também Pitágoras e outros filósofos. Mas nossa resposta a isso é que, no caso de Sócrates, os atenienses logo depois se arrependeram, e nenhuma amargura permaneceu na mente deles a respeito dele, como também aconteceu na história de Pitágoras. Os seguidores deste, de fato, por um tempo considerável mantiveram suas escolas naquela parte da Itália chamada Magna Grécia. Mas, no caso dos cristãos, o Senado romano, os príncipes da época, a soldadesca, o povo e os parentes dos que se converteram à fizeram guerra à doutrina deles e teriam impedido o seu avanço, vencendo-a com uma aliança tão poderosa, se ela, com a ajuda de Deus, não tivesse escapado do perigo e se erguido acima dele, a ponto de, por fim, derrotar o mundo inteiro na conspiração contra ela.
Vejamos também como ele pensa em desacreditar nosso sistema moral, alegando que ele é apenas comum a nós e a outros filósofos, e que não é um ramo de ensino venerável nem novo. Em resposta, temos a dizer que, se todos os homens não tivessem naturalmente gravadas na mente ideias sadias de moralidade, a doutrina do castigo dos pecadores teria sido descartada por aqueles que atraem sobre si os justos juízos de Deus. Não é, portanto, de admirar que o mesmo Deus tenha semeado no coração de todos os homens aquelas verdades que ensinou pelos profetas e pelo Salvador, para que, no juízo divino, todo homem fique sem desculpa, tendo as exigências da lei escritas no coração. A Bíblia faz uma alusão velada a essa verdade naquilo que os gregos consideram um mito: ali ela representa Deus escrevendo com o próprio dedo os mandamentos e dando-os a Moisés, mandamentos que a maldade dos adoradores do bezerro o fez quebrar em pedaços, como se a enxurrada de maldade, por assim dizer, os tivesse varrido. Mas, tendo Moisés talhado de novo as tábuas de pedra, Deus escreveu os mandamentos uma segunda vez e os deu a ele. A palavra profética preparou a alma, por assim dizer, depois da primeira transgressão, para a escrita de Deus pela segunda vez.
Tratando das normas sobre idolatria como sendo próprias do cristianismo, Celso reconhece que elas estão corretas, dizendo que os cristãos não consideram deuses aqueles que são feitos por mãos humanas, com base no fato de que não está de acordo com a reta razão supor que imagens, moldadas pelos mais reles e depravados dos artesãos, e muitas vezes encomendadas por homens perversos, possam ser tidas como deuses. No que segue, no entanto, querendo mostrar que essa é uma opinião comum, e não descoberta primeiro pelo cristianismo, ele cita uma frase de Heráclito nesse sentido: que os que se aproximam de imagens sem vida como se fossem deuses agem de maneira parecida com quem tentasse conversar com casas. A respeito disso, temos a dizer que ideias foram implantadas na mente dos homens, como os princípios da moralidade, das quais não Heráclito, mas qualquer outro grego ou bárbaro, poderia, pela reflexão, ter tirado a mesma conclusão. Pois ele afirma que os persas também eram da mesma opinião, citando Heródoto como sua autoridade. Nós também podemos acrescentar a esses Zenão de Cício, que, em sua Política, diz: E não haverá necessidade de construir templos, pois nada deve ser tido como sagrado, ou de muito valor, ou santo, se for obra de construtores e de homens vis. É evidente, então, com respeito a essa opinião (como a outras), que o dedo de Deus gravou no coração dos homens a percepção do dever que é exigido.
Depois disso, movido por algum motivo que desconheço, Celso afirma que é pelos nomes de certos demônios e pelo uso de encantamentos que os cristãos parecem possuir poder miraculoso, insinuando, suponho, as práticas dos que expulsam espíritos maus por encantamentos. E aqui ele claramente parece caluniar o Evangelho. Pois não é por encantamentos que os cristãos parecem prevalecer sobre os espíritos maus, mas pelo nome de Jesus, acompanhado do anúncio das narrativas que se referem a ele. A repetição dessas narrativas tem sido, com frequência, o meio de expulsar demônios das pessoas, sobretudo quando os que as repetiam o faziam com um espírito sadio e de genuína. Tamanho é o poder que o nome de Jesus possui sobre os espíritos maus que houve casos em que ele foi eficaz mesmo quando pronunciado por homens maus, o que o próprio Jesus ensinou que aconteceria, quando disse: Muitos me dirão naquele dia: Em teu nome expulsamos demônios e fizemos muitas maravilhas. Se Celso omitiu isso por intenção deliberada ou por ignorância, eu não sei. E ele em seguida passa a acusar o próprio Salvador, alegando que foi por meio de feitiçaria que ele conseguiu realizar as maravilhas que fez, e que, prevendo que outros alcançariam o mesmo conhecimento e fariam as mesmas coisas, gabando-se de fazê-las pela ajuda do poder de Deus, ele os exclui do seu reino. E a acusação dele é a seguinte: se eles são excluídos com justiça, enquanto o próprio Jesus é culpado das mesmas práticas, então Jesus é um homem mau; mas, se Jesus não é culpado de maldade ao fazer tais coisas, então também não o são os que fazem o mesmo que ele. Mas, ainda que seja impossível mostrar por qual poder Jesus operou esses milagres, está claro que os cristãos não usam feitiços nem encantamentos, e sim o simples nome de Jesus e certas outras palavras nas quais depositam fé, segundo as santas Escrituras.
Além disso, como ele frequentemente chama a doutrina cristã de um sistema secreto de crença, precisamos refutá-lo também nesse ponto, que quase o mundo inteiro conhece melhor o que os cristãos pregam do que as opiniões preferidas dos filósofos. Pois quem desconhece a afirmação de que Jesus nasceu de uma virgem, de que foi crucificado, de que sua ressurreição é um artigo de entre muitos, e de que se anuncia a chegada de um juízo geral, no qual os perversos serão punidos conforme merecem e os justos devidamente recompensados? E, no entanto, o mistério da ressurreição, por não ser compreendido, vira motivo de zombaria entre os incrédulos. Nessas circunstâncias, falar da doutrina cristã como um sistema secreto é totalmente absurdo. Mas que haja certas doutrinas não dadas a conhecer à multidão, reveladas depois de ensinadas as exotéricas, isso não é peculiaridade do cristianismo, mas também dos sistemas filosóficos, nos quais certas verdades são exotéricas e outras esotéricas. Alguns dos ouvintes de Pitágoras se contentavam com o ipse dixit dele, enquanto outros eram ensinados em segredo aquelas doutrinas que não se julgava conveniente comunicar a ouvidos profanos e mal preparados. Além disso, todos os mistérios celebrados por toda parte na Grécia e em terras bárbaras, embora mantidos em segredo, não sofrem nenhum descrédito. Então é em vão que ele tenta caluniar as doutrinas secretas do cristianismo, que não entende corretamente a natureza dela.
É com certa eloquência, de fato, que ele parece defender a causa dos que testemunham a verdade do cristianismo com a própria morte, nestas palavras: E eu não sustento que, se um homem que adotou um sistema de boa doutrina vier a correr perigo por parte dos outros por causa disso, ele deva apostatar, ou fingir apostasia, ou negar abertamente suas opiniões. E ele condena os que, sustentando as ideias cristãs, ou fingem que não as sustentam, ou as negam, dizendo que quem tem certa opinião não deve fingir que se retrata, nem a renegar publicamente. E aqui Celso deve ser apanhado em contradição consigo mesmo. Pois, por outros tratados dele, sabe-se que era epicurista. Mas aqui, porque achou que poderia atacar o cristianismo com mais eficácia se não professasse as opiniões de Epicuro, ele finge que no homem algo melhor do que a parte terrena de sua natureza, algo aparentado a Deus, e diz que aqueles em quem esse elemento, ou seja, a alma, está em condição sadia estão sempre em busca de sua natureza afim (querendo dizer Deus), e sempre desejando ouvir algo a respeito dele e trazê-lo à lembrança. Observe agora a falta de sinceridade do caráter dele! Tendo dito pouco antes que o homem que abraçou um sistema de boa doutrina não deveria, ainda que por isso ficasse exposto a perigo da parte dos outros, renegá-lo nem fingir que o havia feito, nem tampouco renegá-lo abertamente, agora ele se enreda em toda sorte de contradições. Pois sabia que, se reconhecesse ser epicurista, não obteria crédito algum ao acusar os que, em alguma medida, introduzem a doutrina da providência e colocam um Deus sobre o mundo. E ouvimos dizer que houve dois indivíduos com o nome de Celso, ambos epicuristas: o mais antigo dos dois viveu no tempo de Nero, mas este viveu no de Adriano, e depois.
Ele em seguida passa a recomendar que, ao adotar opiniões, devemos seguir a razão e um guia racional, pois quem assentimento a opiniões sem seguir esse caminho fica muito sujeito a ser enganado. E compara os crédulos irrefletidos aos sacerdotes mendicantes de Cibele, aos adivinhos, aos devotos de Mitra e de Sabázio, e a qualquer outra coisa com que se possa esbarrar, e aos fantasmas de Hécate, ou a qualquer outro demônio ou demônios. Pois, assim como entre essas pessoas frequentemente se encontram homens maus que, aproveitando-se da ignorância dos que se deixam enganar facilmente, os arrastam para onde quiserem, assim também, diz ele, ocorre entre os cristãos. E afirma que certas pessoas, que não querem nem dar nem receber uma razão para sua crença, ficam repetindo: Não examine, mas creia! e: A tua te salvará! E alega que essas também dizem: A sabedoria desta vida é má, mas a tolice é coisa boa! Ao que temos a responder o seguinte: se fosse possível a todos abandonar os afazeres da vida e se dedicar à filosofia, nenhum outro método deveria ser adotado por ninguém, apenas esse. Pois no sistema cristão também se constatará que há, para não falar de modo nenhum arrogante, pelo menos tanta investigação dos artigos de fé, e tanta explicação de ditos obscuros que ocorrem nos escritos proféticos, e das parábolas nos Evangelhos, e de incontáveis outras coisas que ou foram narradas ou foram encenadas com sentido simbólico, quanto em outros sistemas. Mas, que o caminho mencionado é impossível, em parte por causa das necessidades da vida, em parte por causa da fraqueza dos homens, pois pouquíssimos indivíduos se dedicam com seriedade ao estudo, que método melhor poderia ser concebido para ajudar a multidão do que aquele que foi entregue por Jesus aos pagãos? E investiguemos, a respeito da grande multidão de crentes que lavaram a sujeira de maldade na qual antes se chafurdavam, se foi melhor para eles crer sem uma razão e (assim) terem se reformado e melhorado nos costumes, pela crença de que os homens são castigados por pecados e honrados por boas obras, ou não terem se deixado converter pela força da mera fé, mas terem esperado até poderem se dedicar a um exame minucioso das razões necessárias. Pois é evidente que, por esse plano, todos os homens, com pouquíssimas exceções, não teriam alcançado essa melhora de conduta que alcançaram por uma simples, mas continuariam na prática de uma vida má. Ora, qualquer que seja a outra evidência que se possa apresentar do fato de que não foi sem intervenção divina que o plano filantrópico do cristianismo foi introduzido entre os homens, esta também deve ser acrescentada. Pois um homem piedoso não acreditará que mesmo um médico do corpo, que devolve a saúde aos doentes, pudesse fixar moradia em qualquer cidade ou país sem permissão divina, que nenhum bem acontece aos homens sem a ajuda de Deus. E se aquele que curou os corpos de muitos, ou os restaurou a uma saúde melhor, não realiza suas curas sem a ajuda de Deus, quanto mais aquele que curou as almas de muitos, e as voltou para a virtude, e melhorou a natureza delas, e as uniu a Deus, que está acima de todas as coisas, e as ensinou a remeter cada ação ao bom prazer dele, e a evitar tudo o que lhe desagrada, até a menor de suas palavras ou ações, ou mesmo dos pensamentos do coração?
Em seguida, que nossos adversários ficam repetindo aquelas afirmações sobre a fé, devemos dizer que, considerando-a coisa útil para a multidão, admitimos que ensinamos a crer sem razões aqueles homens que não conseguem abandonar todas as outras ocupações e se dedicar a um exame de argumentos. E nossos adversários, embora não o reconheçam, na prática fazem o mesmo. Pois quem é que, ao se voltar para o estudo da filosofia e se lançar nas fileiras de alguma escola, seja por acaso, seja por ter à disposição um mestre daquela corrente, adota tal caminho por algum outro motivo, a não ser por crer que a sua escola em particular é superior a qualquer outra? Pois, sem esperar para ouvir os argumentos de todos os outros filósofos e de todas as diferentes escolas, e as razões para condenar um sistema e para sustentar outro, ele dessa forma escolhe tornar-se estoico, por exemplo, ou platônico, ou peripatético, ou epicurista, ou seguidor de alguma outra escola, sendo assim levado, embora não o admitam, por uma espécie de impulso irracional à prática, digamos, do estoicismo, com desprezo pelos demais, menosprezando ou o platonismo, por ser marcado por maior humildade do que os outros, ou o peripatetismo, por ser mais humano e por admitir com mais justeza do que outros sistemas as bênçãos da vida humana. E alguns também, alarmados à primeira vista com a doutrina da providência, ao verem o que acontece no mundo aos viciosos e aos virtuosos, concluíram precipitadamente que não providência divina nenhuma, e adotaram as opiniões de Epicuro e de Celso.
que, então, como a razão ensina, devemos depositar em algum daqueles que foram os introdutores de escolas entre os gregos ou os bárbaros, por que não havemos de crer antes em Deus, que está acima de todas as coisas, e naquele que ensina que se deve adoração a Deus, e que as outras coisas devem ser deixadas de lado, ou como inexistentes, ou como existentes de fato e dignas de honra, mas não de adoração e reverência? E a respeito dessas coisas, aquele que não crê, mas que contempla as coisas com o olhar da razão, exporá as demonstrações que lhe ocorrerem e que são fruto de cuidadosa investigação. E por que não seria mais razoável, visto que todas as coisas humanas dependem de fé, crer em Deus em vez de neles? Pois quem embarca numa viagem, ou contrai matrimônio, ou se torna pai de filhos, ou lança semente à terra, sem crer que disso resultarão coisas melhores, ainda que o contrário possa acontecer e às vezes aconteça? E, no entanto, a crença de que coisas melhores virão, até conforme seus desejos, faz com que todos os homens se arrisquem em empreendimentos incertos, que podem ter desfecho diferente do esperado. E se a esperança e a crença de um futuro melhor são o apoio da vida em todo empreendimento incerto, por que não de essa ser racionalmente aceita por quem crê com base em fundamentos melhores do que aquele que navega o mar, ou lavra a terra, ou desposa uma mulher, ou se ocupa de qualquer outra atividade humana, isto é, na existência de um Deus que foi o Criador de todas essas coisas, e naquele que, com sabedoria sem par e divina grandeza de espírito, ousou dar a conhecer esta doutrina aos homens em toda parte do mundo, ao custo de grande perigo e de uma morte tida como infame, que ele suportou em favor da raça humana, tendo também ensinado àqueles que foram persuadidos a abraçar sua doutrina no início, a avançar, sob o risco de todo perigo e de morte sempre iminente, a todos os cantos do mundo, para garantir a salvação dos homens?