Confissões - Livro XI 6

Livro XI: o tempo e a eternidade, e o início do comentário ao Gênesis

Mas como falastes? Acaso daquele modo por que se fez a voz vinda da nuvem, dizendo: 'Este é o meu Filho amado'? Pois aquela voz foi feita e passou, começada e terminada. As sílabas soaram e passaram, a segunda após a primeira, a terceira após a segunda, e daí por diante na sua ordem, até a última após as demais, e o silêncio após a última. Donde resulta claro e manifesto que o movimento de uma criatura a exprimiu, ela mesma temporal, servindo a vossa vontade eterna. E estas vossas palavras, feitas para o tempo, o ouvido exterior as anunciou à mente prudente, cujo ouvido interior está posto para a vossa Palavra eterna. Mas ela comparou estas palavras que soavam temporalmente com a vossa Palavra eterna no silêncio, e disse: 'Outra coisa é, muito outra coisa é. Estas estão muito abaixo de mim, e nem são, porque fogem e passam; mas a Palavra do meu Deus permanece acima de mim para sempre.' Se, pois, com palavras que soam e passam dissestes que se fizessem o céu e a terra, e assim fizestes o céu e a terra, havia uma criatura corporal antes do céu e da terra, por cujos movimentos temporais aquela voz se desenrolasse temporalmente. Mas não havia nenhum corpo antes do céu e da terra; ou, se havia, certamente o tínheis feito sem voz transitória, donde fizésseis a voz transitória pela qual dissésseis que se fizessem o céu e a terra. Pois, qualquer que fosse aquilo de que tal voz se fizesse, se não tivesse sido feito por Vós, de modo algum existiria. Logo, para que se fizesse o corpo de que estas palavras se fizessem, por que palavra foi dito por Vós?