Confissões - Livro XI 5
Livro XI: o tempo e a eternidade, e o início do comentário ao Gênesis
Mas como fizestes o céu e a terra? E qual foi a máquina de obra tão grandiosa? Pois não fizestes como o homem artífice, que forma um corpo a partir de outro corpo, ao arbítrio da alma capaz de impor de algum modo a forma que ela contempla em si mesma pelo olho interior (e de onde teria ela esse poder, senão porque Vós a fizestes?), e impõe a forma ao que já existe e tem ser, como à terra, ou à pedra, ou à madeira, ou ao ouro, ou a qualquer coisa desse gênero. E de onde existiriam estas coisas, se Vós não as houvésseis instituído? Vós fizestes o corpo do artífice, Vós fizestes o ânimo que comanda os membros, Vós a matéria de que ele faz alguma coisa, Vós o engenho com que apreende a arte e vê por dentro o que há de fazer por fora, Vós o sentido do corpo, pelo qual, como por um intérprete, transporta do ânimo para a matéria aquilo que faz e relata ao ânimo o que foi feito, para que ele, por dentro, consulte a verdade que o preside, se foi bem feito ou não. Todas estas coisas Vos louvam, a Vós, Criador de todas. Mas como as fazeis? Como fizestes, ó Deus, o céu e a terra? Por certo não foi no céu nem na terra que fizestes o céu e a terra, nem no ar nem nas águas, visto que também estas pertencem ao céu e à terra; nem no mundo inteiro fizestes o mundo inteiro, porque não havia onde fazê-lo antes que fosse feito, para que viesse a ser. Nem tínheis na mão alguma coisa de que fizésseis o céu e a terra: pois de onde vos viria isto que Vós não havíeis feito, donde fizésseis alguma coisa? Que é, com efeito, senão porque Vós sois? Portanto, dissestes, e foram feitas, e na vossa Palavra as fizestes.