Confissões - Livro XI 2
Livro XI: o tempo e a eternidade, e o início do comentário ao Gênesis
Mas quando bastará a língua de minha pena para enunciar todas as vossas exortações, e todos os vossos terrores, e as consolações e direções com que me conduzistes a pregar a vossa Palavra e a dispensar o vosso sacramento ao vosso povo? E se basto para enunciá-las em ordem, caras me são as gotas do tempo. E há muito ardo por meditar na vossa lei, e nela confessar-vos a minha ciência e a minha inépcia, as primícias da vossa iluminação e os resíduos das minhas trevas, até que a fraqueza seja devorada pela fortaleza. E não quero que se escoem em outra coisa as horas que encontro livres das necessidades de refazer o corpo e da atenção do ânimo, e da servidão que devemos aos homens, e daquela que não devemos e todavia prestamos.
Senhor meu Deus, atendei à minha oração e que a vossa misericórdia escute o meu desejo, porque não se inflama só por mim, mas quer ser de proveito à caridade fraterna. E vedes no meu coração que assim é. Sacrifique eu a vós o serviço do meu pensamento e da minha língua, e dai-me o que vos hei de oferecer. Pois sou indigente e pobre, vós, rico para com todos os que vos invocam, vós que, isento de cuidado, tendes cuidado de nós. Circuncidai de toda temeridade e de toda mentira os meus lábios interiores e exteriores. Sejam as vossas Escrituras as minhas castas delícias, que eu não me engane nelas nem engane a partir delas. Senhor, atendei e tende misericórdia, Senhor meu Deus, luz dos cegos e força dos fracos, e também luz dos que veem e força dos fortes: atendei à minha alma e ouvi quem clama do profundo. Pois se os vossos ouvidos não estiverem presentes também no profundo, para onde iremos? a quem clamaremos? Vosso é o dia e vossa é a noite; ao vosso aceno voam os momentos. Concedei daí um espaço para as nossas meditações nos segredos da vossa lei, e não a fecheis aos que batem. Pois não foi em vão que quisestes que se escrevessem os obscuros segredos de tantas páginas; nem essas florestas deixam de ter os seus cervos, que nelas se recolhem e se restauram, andando e pastando, deitando-se e ruminando. Ó Senhor, aperfeiçoai-me e revelai-mas. Eis que a vossa voz é a minha alegria, a vossa voz acima da abundância dos prazeres. Dai-me o que amo: pois amo, e isto vós me destes. Não abandoneis os vossos dons nem desprezeis a vossa erva sedenta. Confesse eu a vós tudo o que encontrar nos vossos livros, e ouça a voz do louvor, e a vós beba, e considere as maravilhas da vossa lei, desde o princípio em que fizestes o céu e a terra até o reino perpétuo, convosco, da vossa santa cidade.
Senhor, tende misericórdia de mim e atendei ao meu desejo. Pois creio que ele não é da terra, não do ouro e da prata e das pedras, ou das vestes preciosas, ou das honras e potestades, ou dos prazeres da carne, nem das coisas necessárias ao corpo e a esta vida de nossa peregrinação, todas as quais nos são acrescentadas quando buscamos o vosso reino e a vossa justiça. Vede, ó meu Deus, donde vem o meu desejo. Os injustos me contaram deleites, mas não como a vossa lei, Senhor: eis donde vem o meu desejo. Vede, Pai, olhai e vede e aprovai, e apraza diante da vossa misericórdia que eu encontre graça perante vós, para que se me abram, a mim que bato, os interiores das vossas palavras. Suplico-vos por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, varão da vossa direita, Filho do homem, que constituístes para vós como mediador vosso e nosso, por meio do qual nos buscastes a nós que não vos buscávamos, e nos buscastes para que vos buscássemos, vosso Verbo por quem fizestes todas as coisas (entre elas também a mim), vosso Unigênito por quem chamastes à adoção o povo dos crentes (no qual também a mim): por ele vos suplico, ele que está sentado à vossa direita e intercede por nós junto a vós, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência: a estes busco eu nos vossos livros. Moisés escreveu acerca dele; isto diz ele mesmo, isto diz a Verdade.