Confissões - Livro XI 14

Livro XI: o tempo e a eternidade, e o início do comentário ao Gênesis

Em nenhum tempo, portanto, houve em que não tivésseis feito algo, pois o próprio tempo Vós o fizestes. E nenhum tempo Vos é coeterno, porque Vós permaneceis; mas se eles permanecessem, não seriam tempos. Que é, pois, o tempo? Quem o poderá explicar com facilidade e brevidade? Quem o poderá apreender, mesmo com o pensamento, a ponto de proferir sobre ele uma palavra? E que coisa mencionamos no falar mais familiar e mais conhecida do que o tempo? E certamente entendemos quando dele falamos; entendemos também quando, ao falar dele outrem, o ouvimos. Que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu o sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, não o sei. Contudo, digo com confiança que sei que, se nada passasse, não haveria tempo passado, e se nada adviesse, não haveria tempo futuro, e se nada houvesse, não haveria tempo presente. Esses dois tempos, então, o passado e o futuro, como existem, se o passado não é e o futuro ainda não é? Quanto ao presente, porém, se sempre fosse presente e não passasse para o pretérito, não seria tempo, mas eternidade. Se, pois, o presente, para ser tempo, vem a existir porque passa para o pretérito, como dizemos que existe aquilo cuja causa de existir é o fato de que não de ser, de modo que, na verdade, não podemos dizer que o tempo existe senão porque tende a não ser?