Confissões - Livro VIII 4
Livro VIII: a crise interior, a cena no jardim e a conversão ("toma e lê")
Vinde, Senhor, agi, despertai-nos e chamai-nos de volta, inflamai-nos e arrebatai-nos, ardei, tornai-vos doçura: amemos-Vos, corramos para Vos. Acaso não voltam para Vós muitos, de um tártaro de cegueira mais profundo do que o de Vitorino, e se aproximam de Vós e são iluminados, recebendo a luz? E os que a recebem, recebem de Vós o poder de se tornarem vossos filhos. Mas se são menos conhecidos dos povos, menos se alegram por causa deles até mesmo os que os conhecem. Pois quando a alegria é com muitos, também em cada um é mais abundante o gozo, porque uns aos outros se aquecem e se inflamam mutuamente. Depois, porque, sendo conhecidos de muitos, são para muitos autoridade que conduz à salvação e a muitos precedem que hão de segui-los; e por isso muito se alegram com eles também os que os precederam, porque não se alegram apenas por causa de si sós. Longe esteja, com efeito, que em vosso tabernáculo se acolham as pessoas dos ricos de preferência aos pobres, ou os nobres de preferência aos humildes, quando antes escolhestes as coisas fracas do mundo para confundir as fortes, e escolhestes as coisas humildes deste mundo e as desprezíveis, e as que não são, como se fossem, para reduzir a nada as que são. E contudo, esse mesmo, o menor dos vossos apóstolos, por cuja língua fizestes soar essas vossas palavras, quando o procônsul Paulo, vencida a soberba pela milícia dele, foi posto sob o suave jugo do vosso Cristo, tornado súdito provincial do grande Rei, ele próprio também, do anterior Saulo, quis passar a chamar-se Paulo, em sinal de tão grande vitória. Pois mais é vencido o inimigo naquele a quem mais retém e por quem retém a mais. Ora, mais retém os soberbos pelo nome da nobreza, e por estes retém a mais pelo nome da autoridade. Quanto, pois, mais agradavelmente se pensava no coração de Vitorino, que o diabo possuíra como reduto inexpugnável, na língua de Vitorino, dardo grande e agudo com que destruíra a muitos, tanto mais abundantemente convinha que exultassem vossos filhos, porque o nosso Rei amarrou o forte, e viam os seus vasos arrebatados, purificados e ajustados para vossa honra, e tornados úteis ao Senhor para toda boa obra.