Confissões - Livro VIII 12
Livro VIII: a crise interior, a cena no jardim e a conversão ("toma e lê")
Dizia estas coisas e chorava na amarguíssima contrição do meu coração. E eis que ouço de uma casa vizinha uma voz, cantando e repetindo com frequência, como de menino ou de menina, não sei: 'Toma e lê, toma e lê.' E imediatamente, mudado o semblante, comecei a pensar com toda a atenção se acaso os meninos costumavam, em algum gênero de brincadeira, cantar algo assim. E de modo nenhum me ocorria tê-lo ouvido em parte alguma; e, reprimido o ímpeto das lágrimas, levantei-me, interpretando que nada mais me era ordenado divinamente senão que abrisse o códice e lesse o primeiro capítulo que encontrasse. Pois eu ouvira de Antônio que, advertido pela leitura evangélica a que por acaso assistira, como se a ele se dissesse o que era lido: 'Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus; e vem, segue-me', por tal oráculo logo se convertera a Vós. Assim, agitado, voltei àquele lugar onde Alípio estava sentado: pois ali eu pusera o códice do apóstolo quando dali me erguera. Tomei-o, abri-o, e li em silêncio o capítulo sobre o qual primeiro se lançaram os meus olhos: 'Não em glutonarias e embriaguezes, não em leitos e impudicícias, não em contenda e inveja, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não deis provimento à carne em suas concupiscências.' E não quis ler mais adiante, nem era preciso. Pois logo, com o fim desta sentença, como por uma luz de segurança infundida no meu coração, todas as trevas da dúvida se dissiparam.