Confissões - Livro VIII 12
Livro VIII: a crise interior, a cena no jardim e a conversão ("toma e lê")
Mas quando uma profunda meditação, das ocultas profundezas, arrastou e amontoou toda a minha miséria diante dos olhos do meu coração, levantou-se uma tempestade enorme, trazendo uma enorme chuva de lágrimas. E para derramá-la inteira com as suas próprias vozes, ergui-me de junto de Alípio (a solidão parecia-me mais própria para o trabalho de chorar), e afastei-me para mais longe, de modo que nem mesmo a sua presença me pudesse ser pesada. Assim estava eu então, e ele percebeu: pois não sei o que eu dissera, em que se notava que o som da minha voz já vinha pejado de pranto, e assim me erguera. Ele então ficou onde estávamos sentados, profundamente atônito. Eu, sob uma certa figueira, lancei-me por terra não sei como, e dei rédeas às lágrimas, e romperam os rios dos meus olhos, sacrifício aceitável a Vós. E não por certo com estas palavras, mas neste sentido, muitas coisas Vos disse: 'E Vós, Senhor, até quando? Até quando, Senhor, vos irareis para sempre? Não vos lembreis das nossas antigas iniquidades.' Pois sentia-me preso por elas. Lançava vozes lastimosas: 'Por quanto tempo, por quanto tempo este ''amanhã e amanhã''? Por que não agora? Por que não nesta hora o fim da minha torpeza?'
Dizia estas coisas e chorava na amarguíssima contrição do meu coração. E eis que ouço de uma casa vizinha uma voz, cantando e repetindo com frequência, como de menino ou de menina, não sei: 'Toma e lê, toma e lê.' E imediatamente, mudado o semblante, comecei a pensar com toda a atenção se acaso os meninos costumavam, em algum gênero de brincadeira, cantar algo assim. E de modo nenhum me ocorria tê-lo ouvido em parte alguma; e, reprimido o ímpeto das lágrimas, levantei-me, interpretando que nada mais me era ordenado divinamente senão que abrisse o códice e lesse o primeiro capítulo que encontrasse. Pois eu ouvira de Antônio que, advertido pela leitura evangélica a que por acaso assistira, como se a ele se dissesse o que era lido: 'Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus; e vem, segue-me', por tal oráculo logo se convertera a Vós. Assim, agitado, voltei àquele lugar onde Alípio estava sentado: pois ali eu pusera o códice do apóstolo quando dali me erguera. Tomei-o, abri-o, e li em silêncio o capítulo sobre o qual primeiro se lançaram os meus olhos: 'Não em glutonarias e embriaguezes, não em leitos e impudicícias, não em contenda e inveja, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e não deis provimento à carne em suas concupiscências.' E não quis ler mais adiante, nem era preciso. Pois logo, com o fim desta sentença, como por uma luz de segurança infundida no meu coração, todas as trevas da dúvida se dissiparam.
Então, posto entre as páginas o dedo ou não sei que outro sinal, fechei o códice e, com o semblante já tranquilo, indiquei-o a Alípio. E ele, o que nele se passava (que eu desconhecia), assim me indicou. Pediu para ver o que eu lera. Mostrei-lhe, e ele atentou ainda além do que eu lera. E eu ignorava o que se seguia. Seguia-se, porém: 'Ao fraco na fé, acolhei-o.' O que ele aplicou a si e me revelou. Mas, fortalecido por tal advertência, com uma resolução e propósito bom e muito conforme aos seus costumes, nos quais há muito tempo já me era em muito melhor e por muito superior, sem nenhuma turbulenta demora, uniu-se a mim. Dali entramos onde estava minha mãe, anunciamos-lhe: ela se alegra. Narramos como sucedera: exulta e triunfa, e Vos bendizia, a Vós que sois poderoso para fazer além do que pedimos e entendemos, porque via concedido a si por Vós, a meu respeito, tanto mais do que costumava pedir com lastimosos e chorosos gemidos. Pois me convertestes a Vós, de modo que nem esposa procurava, nem alguma esperança deste século, firme naquela regra da fé na qual, tantos anos antes, me revelareis a ela; e convertestes o seu luto em alegria muito mais abundante do que ela quisera, e muito mais cara e mais casta do que requeria a respeito de netos da minha carne.