Confissões - Livro VII 6
Livro VII: a libertação do materialismo e a leitura dos livros dos platônicos
Por esse tempo eu havia rejeitado também as falazes adivinhações dos astrólogos e seus ímpios delírios. Confessem-vos por isto, do mais íntimo das entranhas de minha alma, as vossas misericórdias, ó meu Deus! Pois Vós, Vós inteiramente (porque quem outro nos chama de volta da morte de todo erro, senão a Vida que não sabe morrer, e a Sabedoria que ilumina as mentes carentes sem precisar de luz alguma, aquela pela qual o mundo é governado até as folhas voláteis das árvores?), Vós providenciastes contra a minha obstinação, com que lutei contra Vindiciano, agudo ancião, e contra Nebrídio, jovem de admirável talento, afirmando aquele veementemente, e dizendo este, com alguma dúvida porém amiúde, que não havia aquela arte de prever o futuro, mas que as conjecturas dos homens tinham muitas vezes a força da sorte, e que, dizendo muito, dizia-se a maior parte do que viria, sem que o soubessem os que diziam, mas que, não se calando, nela tropeçavam. Vós providenciastes, pois, um homem amigo, não por certo negligente consultor dos astrólogos, nem bem versado naquelas letras, mas, como disse, consultor curioso e que, contudo, sabia algo que dizia ter ouvido de seu pai: o quanto isto valia para derrubar a estima daquela arte, ele o ignorava. Este homem, pois, de nome Firmino, liberalmente instruído e cultivado na eloquência, consultando-me como a um caríssimo sobre certos negócios seus, nos quais sua esperança secular se havia inchado, sobre o que me parecia segundo aquelas que chamam constelações, eu, que já começara a inclinar-me nesta matéria para a opinião de Nebrídio, não recusava por certo conjecturar e dizer o que me ocorria na hesitação, mas acrescentava que já estava quase persuadido de que aquilo eram coisas ridículas e vãs. Então ele me narrou que seu pai fora curiosíssimo de tais livros e que tivera um amigo que igualmente os perseguia ao mesmo tempo. Estes, com igual zelo e colaboração, atiçavam naquelas ninharias o fogo de seu coração, a ponto de observarem também os momentos do nascimento dos animais mudos, se algum nascesse em casa, e de anotarem para eles a posição do céu, donde colhessem como que experiências daquela arte. E assim dizia ter ouvido de seu pai que, estando grávida do mesmo Firmino a sua mãe, também uma serva daquele amigo paterno engrossava igualmente o ventre, o que não pôde escapar ao senhor, que até dos partos de suas cadelas cuidava de saber com exatíssima diligência. E assim aconteceu que, contando um os dias e as horas e os mais miúdos pontos das horas de sua esposa, e o outro os da serva, com cautelosíssima observação, ambas deram à luz ao mesmo tempo, de modo que foram constrangidos a fazer as mesmas constelações até as mesmas minúcias para ambos os que nasciam, este para o filho, aquele para o servozinho. Pois, quando as mulheres começaram a entrar em trabalho de parto, ambos se avisaram do que se passava na casa de cada um, e prepararam mensageiros que enviariam um ao outro logo que a cada um fosse anunciado o nascido que se paria; e isto facilmente conseguiram, como em seu próprio reino, que se anunciasse no mesmo instante. E assim, os que foram enviados por um e por outro, dizia ele, encontraram-se a tão iguais distâncias das casas, que nenhum deles pôde notar outra posição dos astros ou outras partículas dos momentos. E, contudo, Firmino, nascido em amplo lugar entre os seus, corria pelas mais alvas vias do século, crescia em riquezas, sublimava-se em honras, ao passo que aquele servo, sem jamais afrouxar o jugo de sua condição, servia aos senhores, segundo o testemunho daquele mesmo que o conhecia.
Ouvidas, pois, e cridas estas coisas (porque tal homem as narrara), toda aquela minha resistência se desfez e ruiu. E primeiro tentei chamar o próprio Firmino de volta daquela curiosidade, dizendo-lhe que, inspecionadas as suas constelações para que eu pronunciasse o verdadeiro, eu deveria certamente ver ali pais entre os primeiros dos seus, família nobre na própria cidade, nascimento livre, educação honesta e doutrinas liberais; mas que, se aquele servo me consultasse a partir das mesmas constelações (porque eram também as dele), para que eu lhe proferisse igualmente o verdadeiro, eu deveria, ao contrário, ver ali família abjetíssima, condição servil e tudo o mais bem distante e diverso das primeiras coisas. Donde, porém, viesse a acontecer que, inspecionando as mesmas coisas, eu dissesse coisas diversas, se dissesse o verdadeiro, ou, se dissesse as mesmas, dissesse o falso, dali certíssimamente conclui que aquilo que, consideradas as constelações, se dizia de verdadeiro, não se dizia por arte, mas por sorte; e aquilo que de falso, não por imperícia da arte, mas pela mentira da sorte.
Recebido por aqui o acesso, ruminando comigo mesmo tais coisas, para que nenhum daqueles mesmos delirantes que seguiam tal ganho (aos quais já desejava atacar e refutar com escárnio) me resistisse, como se ou Firmino me houvesse narrado o falso, ou a ele o seu pai, dirigi a consideração aos que nascem gêmeos, dos quais a maior parte é lançada do ventre tão perto um do outro, que o próprio intervalo de tempo, por mais força que pretendam ter na natureza das coisas, não pode contudo ser apreendido pela observação humana, nem de modo algum vale ser assinalado naquelas figuras que o astrólogo há de inspecionar para pronunciar o verdadeiro. E não serão verdadeiras, porque, inspecionando as mesmas figuras, ele deveria dizer as mesmas coisas de Esaú e de Jacó, mas não as mesmas coisas aconteceram a ambos. Diria, pois, o falso; ou, se dissesse o verdadeiro, não diria as mesmas coisas; e, contudo, inspecionaria as mesmas. Não por arte, portanto, mas por sorte, diria o verdadeiro. Pois Vós, Senhor, justíssimo moderador do universo, sem o saberem nem os que consultam nem os consultados, por oculto instinto fazeis que, enquanto cada um consulta, oiça aquilo que lhe convém ouvir, segundo os ocultos méritos das almas, do abismo do vosso justo juízo. A quem não diga o homem: 'Que é isto?' 'Por que isto?' Não o diga, não o diga; pois é homem.