Confissões - Livro VII 5

Livro VII: a libertação do materialismo e a leitura dos livros dos platônicos

E procurava donde vinha o mal, e procurava mal, e na minha própria busca não via o mal. Punha diante da vista do meu espírito toda a criação, tudo quanto nela podemos discernir, como a terra e o mar e o ar e os astros e as árvores e os animais mortais, e tudo quanto nela não vemos, como o firmamento do céu acima e todos os anjos e todas as suas criaturas espirituais; mas até estas, como se fossem corpos, dispôs a minha imaginação em lugares e lugares. E fiz uma massa enorme, distinta segundo os gêneros dos corpos, criatura vossa, fossem os que de fato eram corpos, fossem os que eu mesmo havia forjado em lugar de espíritos; e fi-la grande, não quanto era, o que não podia saber, mas quanto me aprouve, finita de todos os lados, mas a Vós, Senhor, imaginava-Vos por toda a parte cercando-a e penetrando-a, ainda que por toda parte infinito: como se houvesse um mar em toda parte e de todo lado, por espaços imensos um mar infinito, e dentro de si tivesse uma esponja qualquer, por grande que fosse, mas finita contudo, e essa esponja estivesse cheia, em cada uma de suas partes, daquele mar imenso. Assim eu cuidava que a vossa criatura finita estava cheia de Vós, o infinito, e dizia: "Eis Deus, e eis o que Deus criou; e Deus é bom, sim, validíssima e longissimamente superior a estas coisas; mas, sendo bom, criou coisas boas, e eis como as cerca e as enche. Onde está, pois, o mal, e donde, e por onde se introduziu aqui? Qual é a sua raiz e qual a sua semente? Ou não existe de modo algum? Por que, então, tememos e nos acautelamos do que não existe? Ou, se em vão tememos, ao menos o próprio temor é mal, com que se aguilhoa e atormenta o coração à toa; e mal tanto mais grave, quanto não existe o que tememos, e contudo tememos. Por isso, ou é mal o que tememos, ou é mal isto: que tememos. Donde vem, pois, isto, visto que Deus, sendo bom, fez todas estas coisas boas? Sem dúvida o maior e sumo bem fez bens menores, mas tanto o que cria como o que é criado, tudo é bom. Donde vem o mal? Acaso aquilo de que as fez, alguma matéria, era má, e Ele a formou e ordenou, mas deixou nela algo que não converteu em bem? E por que isto? Acaso era impotente para mudar e transformar a totalidade dela, de modo que nenhum mal restasse, sendo Ele onipotente? Por fim, por que quis fazer dela alguma coisa, e não antes, pela mesma onipotência, fez com que ela de todo não existisse? Ou, na verdade, podia ela existir contra a sua vontade? Ou, se era eterna, por que tão longamente, pelos infinitos espaços do tempo passado, a deixou assim existir, e muito depois Lhe aprouve fazer alguma coisa dela? Ou então, se de repente quis fazer algo, antes faria isto, sendo onipotente: que ela não existisse, e Ele fosse o todo, verdadeiro, sumo e infinito bem? Ou, se não era bom que Aquele que era bom não fabricasse e fundasse também algo de bom, removida e reduzida ao nada essa matéria que era má, Ele mesmo instituiria uma matéria boa, donde criasse todas as coisas? Pois não seria onipotente se não pudesse fundar algo de bom sem ser ajudado por aquela matéria que Ele mesmo não havia fundado." Tais coisas revolvia no peito miserável, sobrecarregado de cuidados mordacíssimos pelo temor da morte e por não ter encontrado a verdade; mas firmemente aderia ao meu coração, na Igreja Católica, a do vosso Cristo, nosso Senhor e Salvador, em muitos pontos ainda informe e flutuando à margem da norma da doutrina, mas contudo a minha alma não a abandonava, antes a cada dia a sorvia mais e mais.