Confissões - Livro VII 3
Livro VII: a libertação do materialismo e a leitura dos livros dos platônicos
Mas eu, embora afirmasse e firmemente sentisse que o nosso Deus, o Deus verdadeiro, que fizestes não só as nossas almas mas também os nossos corpos, e não apenas as nossas almas e corpos mas todas as almas e todas as coisas, era incontaminável, inconvertível e em parte alguma mutável, ainda assim não alcançava a causa do mal explicada e desatada. Qualquer que fosse, todavia, via que ela devia ser de tal modo buscada que por ela eu não fosse constrangido a crer mutável o Deus imutável, para que eu mesmo não me tornasse aquilo que buscava. Por isso a buscava tranquilo, e certo de que não era verdade o que diziam aqueles de quem eu fugia com toda a alma, pois via que, ao buscarem donde vem o mal, estavam cheios de malícia, pela qual antes opinavam que a vossa substância padecia o mal a sofrer o mal do que a sua própria o cometia.
E me esforçava por enxergar o que ouvia: que o livre arbítrio da vontade é a causa de fazermos o mal, e o vosso reto juízo a causa de o padecermos; mas não conseguia vê-lo com clareza. Assim, tentando erguer a vista da mente daquele abismo, de novo era submergido, e muitas vezes, tentando, era submergido de novo e mais uma vez. Mas levantava-me até a vossa luz o saber que eu tinha vontade tão certamente quanto sabia que vivia. E por isso, quando algo eu queria ou não queria, estava certíssimo de que nenhum outro senão eu queria e não queria, e ali, já então, percebia estar a causa do meu pecado. Mas o que eu fazia contra a vontade, via que antes o padecia do que o fazia, e julgava ser isso não culpa mas pena, pela qual, tendo-vos por justo, logo confessava ser eu castigado não injustamente. Mas de novo dizia: 'Quem me fez? Não foi o meu Deus, que não só é bom, mas o próprio bem? Donde, então, me vem querer o mal e não querer o bem, de modo a haver razão por que eu justamente pagasse penas? Quem pôs isto em mim e enxertou em mim este viveiro de amargura, sendo eu todo feito pelo meu dulcíssimo Deus? Se o diabo é o autor, donde vem o próprio diabo? E se ele também, por vontade perversa, de bom anjo se fez diabo, donde também nele a vontade má pela qual se fez diabo, se todo o anjo fora feito pelo Criador ótimo?' Por estes pensamentos era de novo oprimido e sufocado, mas não até aquele inferno do erro onde ninguém vos confessa, enquanto antes se pensa que Vós padeceis o mal do que o homem o faz.