Confissões - Livro VII 2
Livro VII: a libertação do materialismo e a leitura dos livros dos platônicos
Bastava-me, Senhor, contra aqueles enganadores enganados e tagarelas mudos (visto que de sua boca não soava a vossa Palavra), bastava-me, pois, aquele argumento que já havia muito, desde Cartago, Nebrídio costumava propor, e do qual todos nós que o ouvimos ficamos abalados: que vos teria feito não sei que raça de trevas, a qual eles costumam vos opor como massa adversária, se vós tivésseis recusado lutar contra ela? Pois, se se respondesse que ela vos teria causado algum dano, seríeis violável e corruptível. Mas, se se dissesse que ela em nada vos poderia prejudicar, então nenhuma causa de luta se apresentaria, e de tal modo de lutar que certa porção vossa e membro vosso, ou prole de vossa própria substância, se misturasse às potestades adversárias e a naturezas não criadas por vós, e a tal ponto fosse por elas corrompida e mudada para pior, que da bem-aventurança se voltasse à miséria e carecesse de auxílio pelo qual pudesse ser arrancada e purificada; e que esta seria a alma à qual o vosso Verbo, livre para a que servia, puro para a contaminada, íntegro para a corrompida, viesse em socorro, mas Ele próprio também corruptível, porque de uma só e mesma substância. E assim, se a vós, seja lá o que sois, isto é, a vossa substância pela qual sois, vos chamassem incorruptível, falsas seriam todas aquelas coisas e execráveis; mas, se corruptível, isso mesmo já seria falso e, à primeira voz, abominável. Bastava, pois, esse argumento contra eles, que de todo modo deviam ser vomitados da opressão do peito, porque não tinham por onde sair sem horrível sacrilégio do coração e da língua, sentindo de vós tais coisas e proferindo-as.