Confissões - Livro VII 1

Livro VII: a libertação do materialismo e a leitura dos livros dos platônicos

morrera minha adolescência e nefanda, e eu entrava na juventude, tanto mais torpe na vaidade quanto maior na idade, eu que não podia conceber nenhuma substância senão tal como costuma ver-se por estes olhos. Não vos imaginava, ó Deus, sob a figura de um corpo humano; desde que comecei a ouvir algo da sabedoria, sempre fugi disso, e alegrava-me de o ter encontrado na de nossa mãe espiritual, a vossa Igreja Católica. Mas que outra coisa conceber de Vós, não me ocorria. E eu, homem, e tal homem, esforçava-me por conceber-Vos, supremo, único e verdadeiro Deus; e cria-Vos incorruptível, inviolável e imutável com todas as entranhas, porque, sem saber donde nem como, contudo via com clareza e estava certo de que aquilo que pode corromper-se é pior do que aquilo que não pode, e o que não pode ser violado preferia sem hesitação ao violável, e o que não sofre mudança alguma julgava melhor do que o que pode mudar-se. Clamava com violência o meu coração contra todos os meus fantasmas, e com este único golpe esforçava-me por afugentar a turba de imundície que esvoaçava em torno da vista de minha mente; e mal removida num abrir e fechar de olhos, eis que de novo, adensada, se fazia presente e irrompia sobre o meu olhar e o anuviava, de modo que, embora não sob a forma de corpo humano, era contudo forçado a conceber algo corpóreo através de espaços de lugares, fosse infundido no mundo, fosse mesmo difundido fora do mundo pelo infinito, até o próprio incorruptível, inviolável e imutável que eu preferia ao corruptível, violável e mutável; pois tudo o que eu privava de tais espaços parecia-me ser nada, mas absolutamente nada, nem sequer o vazio, como se um corpo fosse retirado de um lugar e o lugar permanecesse esvaziado de todo corpo, terreno, úmido, aéreo e celeste, e contudo fosse um lugar vazio, como um nada espaçoso.
Eu, pois, embotado de coração e nem a mim mesmo claro, julgava ser absolutamente nada tudo o que não se estendesse por alguns espaços, ou não se difundisse, ou não se adensasse, ou não inchasse, ou não recebesse nem pudesse receber algo de tal natureza. Pois pelas mesmas formas por onde costumam ir os meus olhos, por tais imagens ia o meu coração, e não via que esta mesma atenção, pela qual eu formava aquelas próprias imagens, não era algo de tal natureza, a qual, contudo, não as formaria se não fosse algo grande. Assim também a Vós, ó vida da minha vida, imaginava-Vos grande por espaços infinitos, penetrando de toda parte a inteira mole do mundo e, fora dela, por toda direção pelo imenso sem termo, de modo que Vos tivesse a terra, Vos tivesse o céu, Vos tivessem todas as coisas e nelas se findassem em Vós, mas Vós em parte alguma. Pois assim como à luz do sol não se oporia o corpo do ar, deste ar que está sobre a terra, de modo a impedir que por ele passasse penetrando-o, não o rompendo nem o cortando, mas enchendo-o todo, assim eu julgava que Vos era penetrável não o corpo do céu, do ar e do mar, mas também o da terra, e atravessável por todas as suas partes, as maiores e as menores, para receber a vossa presença, governando por oculta inspiração, por dentro e por fora, todas as coisas que criastes. Assim suspeitava, porque não podia conceber outra coisa; pois era falso. Pois daquele modo a maior parte da terra teria de Vós maior porção, e a menor, menor, e assim de Vós estariam cheias todas as coisas, de tal sorte que mais de Vós conteria o corpo de um elefante do que o de um pardal, quanto fosse este maior do que aquele e ocupasse lugar maior; e assim, aos pedaços, tornaríeis presentes as vossas partes às partes do mundo, grandes às grandes, breves às breves. Mas não é assim; mas ainda não havíeis iluminado as minhas trevas.