Confissões - Livro VII 19

Livro VII: a libertação do materialismo e a leitura dos livros dos platônicos

Eu, no entanto, pensava de outro modo, e tinha do Senhor Cristo apenas o conceito de um varão de excelentíssima sabedoria, ao qual ninguém se poderia igualar; sobretudo porque, nascido maravilhosamente de uma virgem, parecia, à maneira de quem despreza as coisas temporais para alcançar a imortalidade, ter merecido, pelo divino cuidado para conosco, tão grande autoridade de mestre. Mas que mistério encerrasse o Verbo feito carne, nem sequer eu podia suspeitar. Tão somente havia conhecido, daquilo que dele nos é transmitido por escrito, que comeu e bebeu, dormiu, andou, alegrou-se, entristeceu-se, falou, e que aquela carne não aderiu ao vosso Verbo senão com uma alma e mente humanas. Sabe isto todo aquele que conhece a imutabilidade do vosso Verbo, a qual eu conhecia quanto podia, e dela em nada de modo algum duvidava. Pois ora mover os membros do corpo pela vontade, ora não os mover; ora ser afetado por algum afeto, ora não o ser; ora proferir por sinais sentenças sábias, ora estar em silêncio, são próprios da mutabilidade da alma e da mente. E se tais coisas tivessem sido escritas falsamente a seu respeito, todas as demais também correriam o risco da mentira, nem permaneceria naqueles escritos salvação alguma da para o gênero humano. Visto, pois, que foram escritas verdadeiramente, eu reconhecia em Cristo o homem inteiro, não o corpo de um homem, nem, com o corpo, uma alma sensitiva sem mente racional, mas o próprio homem; o qual, não como forma da Verdade, mas por certa grande excelência da natureza humana e por uma participação mais perfeita da sabedoria, julgava ser preferível aos demais. Alípio, porém, julgava que os católicos criam ser Deus de tal modo revestido de carne que, além de Deus e da carne, não houvesse em Cristo alma nenhuma, e não cuidava que nele se pregasse uma mente humana. E porque mantinha bem persuadido que aquelas coisas que dele foram confiadas à memória não se fazem sem uma criatura vital e racional, movia-se mais lentamente para a própria cristã. Mas, conhecendo depois que este era o erro dos hereges apolinaristas, alegrou-se na católica e a ela se conformou. Eu, no entanto, confesso ter aprendido algum tempo mais tarde como, naquilo que o Verbo se fez carne, a verdade católica se distingue da falsidade de Fotino. Pois a reprovação dos hereges faz sobressair o que a vossa Igreja sente e o que tem a doutrina. Convinha, com efeito, que houvesse também heresias, para que os aprovados se tornassem manifestos entre os fracos.