Confissões - Livro VII 17

Livro VII: a libertação do materialismo e a leitura dos livros dos platônicos

E admirava-me de que Vos amava, e não um fantasma em Vosso lugar; e, contudo, não me firmava no gozo de meu Deus, mas era arrebatado para Vós pela vossa formosura, e logo de Vós era arrancado pelo meu próprio peso, e desabava com gemido sobre estas coisas inferiores; e este peso era o costume carnal. Mas estava comigo a memória de Vós, nem de modo algum duvidava de que houvesse Aquele a quem me unir, mas que eu ainda não era tal que pudesse unir-me a Vós, pois o corpo que se corrompe agrava a alma, e a habitação terrena oprime a mente que muito cogita. E estava certíssimo de que as vossas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, são claramente vistas e entendidas pelas coisas que foram feitas, e também o vosso eterno poder e a vossa divindade. Pois, indagando donde me vinha que eu aprovasse a beleza dos corpos, fossem celestes ou terrestres, e o que me assistia ao julgar com retidão acerca das coisas mutáveis e ao dizer: 'isto deve ser assim, aquilo não assim', indagando, pois, isto, donde me vinha que assim julgasse, quando assim julgava, encontrei a imutável e verdadeira eternidade da Verdade acima da minha mente mutável. E assim, gradualmente, dos corpos passei à alma que sente por meio do corpo, e daí à sua força interior, à qual os sentidos do corpo anunciam as coisas exteriores, e até onde podem chegar os animais; e daí, de novo, à potência que raciocina, à qual se refere para julgar o que se recebe dos sentidos do corpo. Esta, achando-se também em mim mutável, ergueu-se ao seu próprio entendimento e afastou o pensamento do costume, subtraindo-se às turbas contraditórias dos fantasmas, para encontrar de que luz era aspergida, quando, sem dúvida alguma, clamava que o imutável se devia preferir ao mutável, donde conhecia o próprio imutável (pois, se de algum modo não o conhecesse, de modo nenhum o anteporia com certeza ao mutável); e chegou àquilo que é, no relâmpago de um olhar trêmulo. Então, na verdade, contemplei as vossas coisas invisíveis, entendidas pelas coisas que foram feitas, mas não fui capaz de fixar o olhar; e, repelido pela fraqueza, devolvido às coisas costumeiras, não levava comigo senão uma memória que amava e que desejava, como por um aroma percebido, aquilo que ainda não podia comer.