Confissões - Livro IV 10
Livro IV: os anos de professor de retórica, a morte do amigo e a astrologia
Deus dos exércitos, convertei-nos e mostrai-nos a vossa face, e seremos salvos. Pois, para onde quer que se volte a alma do homem, fica cravada em dores, em qualquer lugar que não seja em Vós, ainda que se crave em coisas belas fora de Vós e fora de si. Coisas que, no entanto, nada seriam, se não fossem de Vós. Elas nascem e morrem, e ao nascer como que começam a ser, e crescem para que se aperfeiçoem, e, aperfeiçoadas, envelhecem e perecem: e nem todas envelhecem, mas todas perecem. Portanto, quando nascem e tendem a ser, quanto mais depressa crescem para que sejam, tanto mais se apressam para que não sejam: tal é a sua condição. Tanto lhes destes, porque são partes das coisas, que não existem todas ao mesmo tempo, mas, passando e sucedendo umas às outras, todas constituem o universo, do qual são partes. (Eis que assim também se cumpre o nosso discurso por sinais sonoros. Pois não haverá discurso inteiro, se uma palavra não passar, depois de ter soado as suas partes, para que outra a suceda.) Louve-Vos a minha alma a partir delas, Deus, criador de todas as coisas, mas que ela não se fixe nelas pela cola do amor através dos sentidos do corpo. Pois elas vão para onde iam, para que deixem de ser, e dilaceram a alma com desejos pestilentos, já que ela quer ser e ama repousar nas coisas que ama. Nelas, porém, não há onde repousar, porque não permanecem: fogem, e quem as segue com o sentido da carne? Ou quem as apreende, mesmo quando estão presentes? Pois o sentido da carne é lento, porque é sentido da carne: essa é a sua medida. Basta para aquilo a que foi feito, mas para aquilo não basta, ou seja, para reter as coisas que correm desde o seu início devido até o seu fim devido. Pois no vosso Verbo, pelo qual são criadas, ali ouvem: 'daqui' e 'até aqui'.