Confissões - Livro III 2

Livro III: Cartago, a leitura do Hortênsio de Cícero e a sedução do maniqueísmo

Arrebatavam-me os espetáculos teatrais, cheios de imagens das minhas misérias e de combustível para o meu fogo. Por que é que ali o homem quer doer-se quando contempla coisas tristes e trágicas, que ele próprio, no entanto, não quereria padecer? E, contudo, quer o espectador sentir delas a dor, e a própria dor é o seu prazer. Que é isto senão espantosa loucura? Pois tanto mais cada um se comove com elas quanto menos está são de tais afetos; ainda que, quando ele próprio padece, costume chamar-se miséria, e quando se compadece dos outros, misericórdia. Mas que misericórdia, afinal, pode haver em coisas fingidas e de cena? Pois o ouvinte não é chamado a socorrer, mas tão somente convidado a doer-se, e tanto mais aplaude o ator daquelas imagens quanto mais se dói. E se aquelas calamidades dos homens, sejam antigas, sejam falsas, forem representadas de tal modo que quem assiste não se doa, ele se afasta enfastiado e censurando; mas, se se dói, fica atento e, gozando, chora.
Logo, amam-se também as dores. Por certo todo homem quer alegrar-se. Ou será que, conquanto a ninguém agrade ser miserável, agrada todavia ser misericordioso, e porque isto não se sem dor, por esta única causa se amam as dores? Também isto procede daquela veia da amizade. Mas para onde vai ela? Para onde corre? Por que se escoa naquela torrente de pez fervente, nos imensos ardores das torpes concupiscências, em que ela própria se muda e se transforma por seu próprio aceno, desviada e lançada para baixo da celeste serenidade? Será, pois, repudiada a misericórdia? De modo nenhum. Que se amem, pois, as dores algumas vezes, mas guarda-te da imundície, ó minha alma, sob a guarda do meu Deus, o Deus de nossos pais, louvado e sobre-exaltado por todos os séculos, guarda-te da imundície. Pois nem agora deixo de me compadecer; mas então, nos teatros, congratulava-me com os amantes quando se fruíam por meio de torpezas, ainda que fizessem estas imaginariamente no jogo do espetáculo. E quando se perdiam um ao outro, eu, como que misericordioso, me entristecia, e ambas as coisas me deleitavam, contudo. Agora, porém, mais me compadeço de quem se alegra na torpeza do que daquele que, por assim dizer, padece coisas duras pela perda de um prazer pernicioso e pela perda de uma mísera felicidade. Esta, por certo, é a mais verdadeira misericórdia, mas nela a dor não deleita. Pois, ainda que se aprove pelo ofício da caridade quem se dói pelo miserável, todavia quem é genuinamente misericordioso preferiria, sem dúvida, que não houvesse aquilo de que se doer. Pois, se houvesse benevolência malévola, o que não pode ser, poderia também aquele que verdadeira e sinceramente se compadece desejar que houvesse miseráveis, para deles se compadecer. Alguma dor, pois, se deve aprovar; nenhuma se deve amar. Pois isto fazeis Vós, Senhor Deus, que amais as almas, compadecendo-Vos delas muito mais pura e incorruptivelmente do que nós, porque por nenhuma dor sois ferido. E para estas coisas quem é idôneo?
Mas eu, miserável naquele tempo, amava doer-me, e buscava algo de que me doer, quando na aflição alheia, fingida e teatral, tanto mais me agradava a atuação do histrião e mais veementemente me atraía quanto mais dela me eram arrancadas as lágrimas. Que de admirar, se eu, infeliz ovelha desgarrada do vosso rebanho e impaciente da vossa guarda, me enodoava de torpe sarna? E daí vinham os amores das dores, não com que mais fundo fosse penetrado (pois não amava padecer tais coisas como amava contemplá-las), mas com que, ouvidas e fingidas, fosse arranhado como que a superfície. E a estas, todavia, como as unhas dos que coçam, seguia-se ardente inchaço, e podridão, e sânie horrenda. Tal vida minha, por acaso era vida, ó meu Deus?