Confissões - Livro II 9

Livro II: a adolescência, os desejos da carne e o furto das peras

Que afeto era aquele do meu ânimo? Por certo era de todo torpe em demasia, e ai de mim, que o tinha. Mas, ainda assim, que era? Quem entende os seus delitos? Era um riso, como que com o coração feito cócegas, porque enganávamos aqueles que não pensavam que tais coisas fossem feitas por nós e que veementemente as não queriam. Por que, então, me deleitava nisto, que não o fazia sozinho? Acaso porque também ninguém facilmente ri sozinho? Ninguém, de fato, facilmente; mas, ainda assim, mesmo os homens sós e isolados, quando nenhum outro está presente, o riso às vezes os vence, se algo demasiado ridículo se apresenta aos sentidos ou ao ânimo. Eu, porém, aquilo sozinho não o faria, não o faria de modo algum sozinho. Eis que está diante de Vós, meu Deus, a viva lembrança da minha alma. Sozinho não cometeria aquele furto, no qual não me agradava o que furtava, mas que furtava: o que, fazê-lo sozinho, de modo nenhum me agradaria, nem o faria. Ó amizade demasiado inimiga, sedução inescrutável da mente, avidez de causar dano nascida do brincar e do gracejo, e apetite do prejuízo alheio sem nenhuma cobiça de meu ganho, sem nenhuma sede de vingança! Mas, quando se diz: "Vamos, façamos", envergonhamo-nos de não sermos sem-vergonha.