Confissões - Livro II 8
Livro II: a adolescência, os desejos da carne e o furto das peras
Que fruto colhi eu, mísero, naquelas coisas que agora, ao recordar, me envergonho? Sobretudo naquele furto em que amei o próprio furtar, nada mais, sendo ele em si nada, e por isso mesmo eu mais miserável. E contudo sozinho não o teria feito (assim recordo o meu ânimo de então), de modo algum sozinho o teria feito. Logo, amei ali também a companhia daqueles com quem o fiz. Não amei, pois, nada mais que o furto? Antes, na verdade, nada mais, porque também aquilo é nada. Que é, em verdade? (Quem há que me ensine, senão Aquele que ilumina o meu coração e discerne as suas trevas?) Que é isto que me veio à mente perguntar, discutir e considerar? Pois se eu então amasse aquelas frutas que furtei e desejasse delas fruir, poderia fazê-lo ainda que sozinho; se bastasse cometer aquela iniquidade pela qual chegaria ao meu prazer, não precisaria inflamar a comichão da minha cobiça pelo atrito dos ânimos cúmplices. Mas como naquelas frutas não estava o meu prazer, este estava no próprio delito, que a companhia dos que pecavam juntos produzia.