Confissões - Livro I 12
Livro I: a infância e a meninice, o aprendizado da fala e os castigos da escola
Naquela mesma meninice, contudo, pela qual eu temia menos do que pela adolescência, não amava as letras e detestava ser forçado a elas; e era forçado, no entanto, e disso me vinha bem. Mas eu não fazia bem (pois não aprenderia se não fosse coagido; e ninguém faz bem contra a vontade, ainda que seja bom o que faz), nem os que me forçavam faziam bem, mas de Vós, ó meu Deus, é que me vinha o bem. Pois eles não atentavam para o fim a que eu havia de referir aquilo que me obrigavam a aprender, a não ser saciar as cobiças insaciáveis de uma indigência copiosa e de uma glória ignominiosa. Vós, porém, de quem estão contados os nossos cabelos, usáveis para meu proveito o erro de todos os que insistiam comigo para que eu aprendesse; e do meu, que não queria aprender, usáveis para meu castigo, com o qual não era indigno de ser punido, eu, tão pequenino menino e tão grande pecador. Assim, dos que não faziam o bem, fazíeis Vós o bem para mim, e do meu próprio pecado justamente me retribuíeis. Pois ordenastes, e assim é, que todo ânimo desordenado seja para si mesmo o seu próprio castigo.