A Cidade de Deus - Livro XXII 30

Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne

Da felicidade eterna da cidade de Deus e do sábado perpétuo

Quão grande será aquela felicidade, na qual não haverá mácula de mal algum, à qual não faltará bem algum, e que proporcionará ócio para os louvores de Deus, que será tudo em todos! Pois não sei que outra ocupação possa haver onde nenhum cansaço afrouxe a atividade, nem necessidade alguma estimule ao labor.
Sou também advertido pelo cântico sagrado, no qual leio ou ouço as palavras: Bem-aventurados os que habitam na vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão para sempre. Todos os membros e órgãos do corpo incorruptível, que agora vemos adaptados a vários usos necessários, contribuirão para os louvores de Deus; pois naquela vida não haverá lugar para a necessidade, mas sim felicidade plena, certa, segura e eterna.
Pois todas aquelas partes da harmonia corporal, que se distribuem por todo o corpo, por dentro e por fora, e das quais acabei de dizer que no presente escapam à nossa observação, então serão discernidas; e, juntamente com as outras grandes e maravilhosas descobertas que então inflamarão as mentes racionais no louvor do grande Artífice, haverá o gozo de uma beleza que fala à razão. Que poder de movimento tais corpos possuirão, não tenho a audácia de definir temerariamente, assim como não tenho a capacidade de conceber.
Não obstante, direi que em todo caso, tanto em movimento quanto em repouso, serão, como na sua aparência, decorosos; pois àquele estado nada que seja indecoroso será admitido. Uma coisa é certa: o corpo estará imediatamente onde quer que o espírito queira, e o espírito nada quererá que seja indigno quer do espírito quer do corpo. Verdadeira honra haverá ali, pois não será negada a nenhum que seja digno, nem concedida a algum indigno; nem sequer pessoa indigna alguma a pleiteará, pois ninguém senão os dignos ali estará. Verdadeira paz haverá ali, onde ninguém sofrerá oposição quer de si mesmo quer de qualquer outro.
O próprio Deus, que é o Autor da virtude, ali será o seu galardão; pois, como não nada maior nem melhor, Ele prometeu a si mesmo. Que outra coisa significava a sua palavra por meio do profeta: Eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo, senão: Eu serei a satisfação deles, eu serei tudo o que os homens honestamente desejam, vida, e saúde, e alimento, e abundância, e glória, e honra, e paz, e todas as coisas boas? Esta é também a reta interpretação do dito do apóstolo: Para que Deus seja tudo em todos. Ele será o fim dos nossos desejos, Ele que será visto sem fim, amado sem fastio, louvado sem cansaço.
Este transbordamento do afeto, esta ocupação, será certamente, como a própria vida eterna, comum a todos.
Mas quem pode conceber, para não dizer descrever, que graus de honra e de glória serão concedidos aos vários graus de mérito? Contudo, não se pode duvidar de que haverá graus. E naquela cidade bem-aventurada haverá esta grande bênção, que nenhum inferior invejará qualquer superior, assim como agora os arcanjos não são invejados pelos anjos, porque ninguém desejará ser o que não recebeu, ainda que ligado em estreitíssima concórdia com aquele que o recebeu; assim como no corpo o dedo não busca ser o olho, embora ambos os membros estejam harmoniosamente incluídos na estrutura completa do corpo. E assim, juntamente com o seu dom, maior ou menor, cada um receberá este dom ulterior de contentamento, de não desejar mais do que tem.
Tampouco devemos supor que, por não ter o pecado poder algum de deleitá-los, o livre-arbítrio deva ser-lhes retirado. Pelo contrário, ele será tanto mais verdadeiramente livre, por estar liberto do deleite em pecar para tomar deleite indefectível em não pecar. Pois a primeira liberdade da vontade que o homem recebeu quando foi criado reto consistia numa capacidade de não pecar, mas também numa capacidade de pecar; ao passo que esta última liberdade da vontade será superior, porquanto não poderá pecar. Esta, na verdade, não será uma capacidade natural, mas o dom de Deus. Pois uma coisa é ser Deus, outra coisa é ser participante de Deus.
Deus por natureza não pode pecar, mas o participante de Deus recebe de Deus esta incapacidade. E neste dom divino havia de observar-se esta gradação, que o homem primeiro recebesse um livre-arbítrio pelo qual fosse capaz de não pecar, e por fim um livre-arbítrio pelo qual não fosse capaz de pecar: o primeiro adaptado à aquisição do mérito, o segundo ao gozo do galardão. Mas a natureza assim constituída, havendo pecado quando tinha a capacidade de fazê-lo, é por uma graça mais abundante que ela é liberta, de modo a alcançar aquela liberdade na qual não pode pecar.
Pois assim como a primeira imortalidade, que Adão perdeu pecando, consistia em ser ele capaz de não morrer, enquanto a última consistirá em não ser ele capaz de morrer; assim o primeiro livre-arbítrio consistia em ser ele capaz de não pecar, o último em não ser ele capaz de pecar. E assim a piedade e a justiça serão tão indefectíveis quanto a felicidade. Pois certamente, pecando, perdemos tanto a piedade quanto a felicidade; mas, quando perdemos a felicidade, não perdemos o amor por ela. Diremos acaso que o próprio Deus não é livre porque não pode pecar?
Naquela cidade, então, haverá livre-arbítrio, um em todos os cidadãos e indivisível em cada um, libertado de todo mal, cheio de todo bem, gozando indefectivelmente das delícias das alegrias eternas, esquecido dos pecados, esquecido dos sofrimentos, e contudo não tão esquecido de sua libertação a ponto de ser ingrato para com o seu Libertador.
A alma, então, terá uma lembrança intelectual de seus males passados; mas, no que toca à experiência sensível, eles estarão de todo esquecidos. Pois um médico hábil conhece, na verdade, profissionalmente quase todas as enfermidades; mas experimentalmente ignora um grande número delas, das quais ele mesmo nunca padeceu. Como, portanto, dois modos de conhecer as coisas más, um pela visão da mente, o outro pela experiência sensível, pois uma coisa é compreender todos os vícios pela sabedoria de uma mente cultivada, outra é compreendê-los pela insensatez de uma vida dissoluta, assim também dois modos de esquecer os males.
Pois um homem bem instruído e erudito os esquece de um modo, e aquele que experimentalmente padeceu deles os esquece de outro: o primeiro negligenciando o que aprendeu, o segundo escapando ao que sofreu. E deste último modo os santos esquecerão seus males passados, pois a tal ponto terão escapado de todos eles, que estarão de todo apagados de sua experiência. Mas o seu conhecimento intelectual, que será grande, mantê-los-á cientes não de suas próprias aflições passadas, mas também dos sofrimentos eternos dos perdidos.
Pois, se não soubessem que haviam sido miseráveis, como poderiam, como diz o Salmista, cantar para sempre as misericórdias de Deus? Certamente aquela cidade não terá maior alegria do que a celebração da graça de Cristo, que nos remiu com o seu sangue. Ali se cumprirão as palavras do salmo: Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus. Ali haverá o grande sábado que não tem tarde, o qual Deus celebrou entre as suas primeiras obras, como está escrito: E descansou Deus no sétimo dia de toda a sua obra que tinha feito.
E abençoou Deus o sétimo dia, e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra que Deus criara e fizera. Pois nós mesmos seremos o sétimo dia, quando estivermos cheios e repletos da bênção e da santificação de Deus. Ali estaremos quietos, e saberemos que Ele é Deus; que Ele é aquilo que nós mesmos aspirávamos ser quando nos afastamos dele e demos ouvidos à voz do sedutor: Sereis como deuses, e assim abandonamos a Deus, que nos teria feito como deuses, não por desertarmos dele, mas por participarmos dele. Pois sem Ele que fizemos nós, senão perecer na sua ira?
Mas quando formos restaurados por Ele e aperfeiçoados com graça maior, teremos ócio eterno para ver que Ele é Deus, pois estaremos cheios dele quando Ele for tudo em todos. Pois até mesmo as nossas boas obras, quando se compreende que são mais dele do que nossas, nos são imputadas para que possamos gozar deste descanso sabático.
Pois, se as atribuirmos a nós mesmos, serão servis; pois do sábado se diz: Nele não fareis obra servil alguma. Pelo que também se diz pelo profeta Ezequiel: E lhes dei os meus sábados, para que servissem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que eu sou o Senhor que os santifico. Este conhecimento será aperfeiçoado quando estivermos perfeitamente em repouso, e soubermos perfeitamente que Ele é Deus.
Este sábado aparecerá ainda mais claramente se contarmos as idades como dias, em conformidade com os períodos de tempo definidos na Escritura, pois aquele período se mostrará ser o sétimo. A primeira idade, como o primeiro dia, estende-se de Adão ao dilúvio; a segunda, do dilúvio a Abraão, igualando a primeira, não na extensão do tempo, mas no número de gerações, havendo dez em cada uma.
De Abraão à vinda de Cristo há, como calcula o evangelista Mateus, três períodos, em cada um dos quais catorze gerações: um período de Abraão a Davi, um segundo de Davi ao cativeiro, um terceiro do cativeiro ao nascimento de Cristo na carne. assim cinco idades ao todo. A sexta está agora passando, e não pode ser medida por número algum de gerações, conforme foi dito: Não vos pertence saber os tempos que o Pai reservou ao seu próprio poder. Depois deste período, Deus descansará como no sétimo dia, quando nos der descanso em si mesmo, a nós que seremos o sétimo dia.
Mas não agora espaço para tratar destas idades; baste dizer que a sétima será o nosso sábado, que será levado a termo, não por uma tarde, mas pelo dia do Senhor, como um oitavo e eterno dia, consagrado pela ressurreição de Cristo, e prefigurando o repouso eterno não do espírito, mas também do corpo. Ali descansaremos e veremos, veremos e amaremos, amaremos e louvaremos. Isto é o que haverá no fim sem fim. Pois que outro fim propomos a nós mesmos senão chegar ao reino do qual não fim?
Penso que agora, com o auxílio de Deus, desincumbi-me da minha obrigação de escrever esta extensa obra. Que aqueles que julgam ter eu dito pouco demais, ou aqueles que julgam ter eu dito demais, me perdoem; e que aqueles que julgam ter eu dito exatamente o suficiente se unam a mim em dar graças a Deus. Amém.