A Cidade de Deus - Livro XXII 10
Livro XXII: a felicidade eterna da cidade de Deus e a ressurreição da carne
Que os mártires, que operam muitos milagres para que o verdadeiro Deus seja adorado, são dignos de honra muito maior que os demônios, que realizam alguns prodígios para que eles mesmos sejam tidos por deus
Aqui talvez nossos adversários dirão que também os seus deuses fizeram algumas coisas maravilhosas, se é que agora começam a comparar os seus deuses aos nossos mortos. Ou dirão também que possuem deuses tomados dentre os mortos, tais como Hércules, Rômulo e muitos outros que imaginam haver sido recebidos no número dos deuses? Mas os nossos mártires não são os nossos deuses, pois sabemos que tanto os mártires quanto nós temos um só Deus, e o mesmo. Nem tampouco os milagres que eles sustentam haver sido feitos por meio de seus templos são de modo algum comparáveis àqueles que se fazem junto aos túmulos dos nossos mártires.
Se parecem semelhantes, os seus deuses foram vencidos pelos nossos mártires como os magos do Faraó o foram por Moisés. Na realidade, os demônios operavam esses prodígios com a mesma soberba impura com que aspiravam a ser os deuses das nações; mas os mártires fazem esses prodígios, ou antes Deus os faz enquanto eles oram e auxiliam, a fim de que se dê um impulso à fé pela qual cremos que eles não são os nossos deuses, mas têm, juntamente conosco, um só Deus.
Enfim, eles edificaram templos a esses seus deuses, ergueram altares, ordenaram sacerdotes e instituíram sacrifícios; mas aos nossos mártires edificamos, não templos como se fossem deuses, mas monumentos como a homens mortos cujos espíritos vivem com Deus. Nem erguemos altares junto a esses monumentos para que sacrifiquemos aos mártires, mas ao único Deus dos mártires e nosso; e neste sacrifício são eles nomeados em seu próprio lugar e posto, como homens de Deus que venceram o mundo confessando-O, mas não são invocados pelo sacerdote que oferece o sacrifício.
Pois é a Deus, e não a eles, que ele sacrifica, ainda que sacrifique junto ao monumento deles, porque ele é sacerdote de Deus, não deles. O próprio sacrifício, ademais, é o corpo de Cristo, o qual não é oferecido a eles, porque eles mesmos são este corpo. Quais, então, podem mais prontamente ser tidos como operadores de milagres? Aqueles que desejam ser tidos por deuses por aqueles entre os quais operam milagres, ou aqueles cujo único objetivo ao operar algum milagre é induzir à fé em Deus, e também em Cristo como Deus?
Aqueles que quiseram converter até mesmo os seus crimes em ritos sagrados, ou aqueles que não querem que sejam consagrados nem sequer os seus próprios louvores, e buscam que tudo aquilo pelo qual são justamente louvados seja atribuído à glória Daquele em quem são louvados? Pois no Senhor são louvadas as suas almas. Creiamos, portanto, naqueles que ao mesmo tempo dizem a verdade e operam prodígios. Pois por dizerem a verdade sofreram, e assim alcançaram o poder de operar prodígios.
E a verdade principal que professaram é que Cristo ressuscitou dentre os mortos, e primeiro mostrou em sua própria carne a imortalidade da ressurreição que prometeu haver de ser nossa, seja no princípio do mundo vindouro, seja no fim deste mundo.