A Cidade de Deus - Livro XXI 9
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Do inferno e da natureza dos castigos eternos
Assim, pois, aquilo que Deus disse por meio de Seu profeta acerca do castigo eterno dos condenados há de cumprir-se, e cumprir-se sem falta: "o seu verme não morrerá, nem o seu fogo se apagará". A fim de gravar isto em nós com a máxima força, o próprio Senhor Jesus, ao ordenar-nos que cortássemos os nossos membros, querendo com isso significar aquelas pessoas que o homem ama como os mais úteis membros do seu corpo, diz: "Melhor te é entrar na vida mutilado, do que, tendo duas mãos, ir para o inferno, para o fogo que nunca se apagará; onde o seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga". Semelhantemente quanto ao pé: "Melhor te é entrar coxo na vida, do que, tendo dois pés, seres lançado no inferno, no fogo que nunca se apagará; onde o seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga". E assim também quanto ao olho: "Melhor te é entrar no reino de Deus com um só olho, do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno; onde o seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga". Ele não se esquivou de usar as mesmas palavras três vezes numa só passagem.
E quem não fica aterrorizado por esta repetição, e pela ameaça desse castigo proferido tão veementemente pelos próprios lábios do Senhor?
Ora, aqueles que quereriam referir tanto o fogo quanto o verme ao espírito, e não ao corpo, afirmam que os ímpios, que são separados do reino de Deus, serão queimados, por assim dizer, pela angústia de um espírito que se arrepende demasiado tarde e infrutiferamente; e sustentam que o fogo, portanto, não é empregado inapropriadamente para exprimir esse tormento ardente, como quando o apóstolo exclama: "Quem se escandaliza, que eu não me abrase?" O verme, também, pensam eles, deve ser entendido de modo semelhante.
Pois está escrito, dizem eles: "Assim como a traça consome a veste, e o verme a madeira, assim a tristeza consome o coração do homem". Mas aqueles que não têm dúvida alguma de que, naquele castigo futuro, tanto o corpo quanto a alma hão de sofrer, afirmam que o corpo será queimado pelo fogo, ao passo que a alma será, por assim dizer, roída por um verme de angústia.
Embora esta opinião seja mais razoável (pois é absurdo supor que o corpo ou a alma escapará à dor no castigo futuro), todavia, de minha parte, acho mais fácil entender ambos como referentes ao corpo do que supor que nenhum dos dois o seja; e penso que a Escritura se cala acerca da dor espiritual dos condenados porque, ainda que não expresso, necessariamente se entende que, num corpo assim atormentado, também a alma é torturada com um arrependimento infrutífero.
Pois lemos nas antigas Escrituras: "A vingança da carne do ímpio é fogo e vermes". Poderia ter-se dito mais brevemente: "A vingança do ímpio". Por que, então, se disse "a carne do ímpio", senão porque tanto o fogo quanto o verme hão de ser o castigo da carne?
Ou, se o intento do escritor ao dizer "a vingança da carne" foi indicar que este será o castigo daqueles que vivem segundo a carne (pois isto conduz à segunda morte, como o apóstolo deu a entender quando disse: "Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis"), escolha cada um o que prefere, seja atribuindo o fogo ao corpo e o verme à alma (um figuradamente, o outro realmente), seja atribuindo ambos realmente ao corpo.
Pois já demonstrei suficientemente que os animais podem viver no fogo, queimando sem serem consumidos, em dor sem morrer, por um milagre do Criador onipotentíssimo, ao qual ninguém pode negar que isto seja possível, se não ignorar por quem foi feito tudo quanto há de admirável em toda a natureza. Pois é o próprio Deus quem operou todos esses milagres, grandes e pequenos, neste mundo que mencionei, e incomparavelmente mais que omiti, e quem encerrou essas maravilhas neste mundo, ele mesmo o maior de todos os milagres.
Escolha, pois, cada homem o que quiser, seja pensando que o verme é real e pertence ao corpo, seja que se significam coisas espirituais por representações corporais, e que ele pertence à alma. Mas qual destas seja verdadeira se descobrirá mais prontamente pelos próprios fatos, quando houver nos santos tal conhecimento que não exija que a própria experiência lhes ensine a natureza desses castigos, mas que, por sua própria plenitude e perfeição, baste para instruí-los nesta matéria.
Pois "agora conhecemos em parte, até que venha o que é perfeito"; somente isto cremos acerca daqueles corpos futuros: que serão tais que certamente serão atormentados pelo fogo.