A Cidade de Deus - Livro XXI 8
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Que não é contrário à natureza que, num objeto cuja natureza é conhecida, se descubra uma alteração das propriedades tidas como suas propriedades naturais
Mas se eles responderem que a razão pela qual não acreditam em nós quando dizemos que os corpos humanos arderão para sempre e contudo nunca morrerão, é que se sabe estar a natureza dos corpos humanos constituída de modo bem diverso; se disserem que para este milagre não podemos dar a razão que valia no caso daqueles milagres naturais, a saber, que tal é a propriedade natural, a natureza da coisa (pois sabemos que esta não é a natureza da carne humana), encontramos a nossa resposta nas Escrituras sagradas, que mesmo esta carne humana foi constituída de uma maneira antes de haver pecado (foi constituída, com efeito, de modo que não podia morrer) e de outra maneira depois do pecado, tornada tal como a vemos neste mísero estado de mortalidade, incapaz de reter uma vida duradoura.
E assim, na ressurreição dos mortos, ela será constituída de modo diferente da sua atual e bem conhecida condição. Mas como eles não acreditam nestes nossos escritos, nos quais lemos qual natureza tinha o homem no paraíso e quão remoto estava da necessidade de morrer (e, na verdade, se neles acreditassem, teríamos por certo pouca dificuldade em debater com eles o castigo futuro dos condenados), devemos apresentar, a partir dos escritos das suas próprias e mais doutas autoridades, alguns exemplos para mostrar que é possível uma coisa tornar-se diferente daquilo que outrora se conhecia ser caracteristicamente.
Do livro de Marco Varrão, intitulado Da Raça do Povo Romano, cito palavra por palavra o seguinte exemplo: "Ocorreu um notável portento celeste; pois Castor relata que, na brilhante estrela Vênus, chamada Vesperugo por Plauto e o belo Hespero por Homero, ocorreu prodígio tão estranho que ela mudou de cor, tamanho, forma e curso, o que nunca aconteceu antes nem depois. Adrasto de Cízico e Díon de Nápoles, famosos matemáticos, disseram que isto ocorreu no reinado de Ógiges." Um autor tão grande como Varrão certamente não teria chamado a isto um portento, se não parecesse ser contrário à natureza.
Pois dizemos que todos os portentos são contrários à natureza; mas não o são. Porque como pode ser contrário à natureza aquilo que acontece pela vontade de Deus, visto que a vontade de tão poderoso Criador é certamente a natureza de cada coisa criada? Um portento, portanto, não acontece contra a natureza, mas contra aquilo que conhecemos como natureza. Mas quem pode contar a multidão de portentos registrados nas histórias profanas? Fixemos, então, por ora a nossa atenção apenas neste, que concerne ao assunto em questão. Que há de tão ordenado pelo Autor da natureza do céu e da terra como o curso exatamente regulado dos astros?
Que há estabelecido por leis tão certas e inflexíveis? E contudo, quando aprouve Àquele que com soberania e supremo poder regula tudo o que criou, uma estrela conspícua entre as demais por seu tamanho e esplendor mudou de cor, tamanho, forma e, o mais admirável de tudo, a ordem e a lei de seu curso! Certamente aquele fenômeno perturbou os cânones dos astrônomos, se é que então havia algum, pelos quais eles tabulam, como que por cômputo infalível, os movimentos passados e futuros dos astros, a ponto de se atreverem a afirmar que isto que aconteceu à estrela da manhã (Vênus) nunca aconteceu antes nem depois.
Mas lemos nos livros divinos que até o próprio sol parou quando um homem santo, Josué, filho de Num, pediu isto a Deus até que a vitória desse fim à batalha que havia começado; e que ele até recuou, para que a promessa de quinze anos acrescentados à vida do rei Ezequias fosse selada por este prodígio adicional. Mas estes milagres, que foram concedidos aos méritos de homens santos, mesmo quando os nossos adversários neles acreditam, eles os atribuem a artes mágicas; assim Virgílio, nos versos que citei acima, atribui à magia o poder de
"Fazer os rios voltarem à sua fonte, / E os astros esquecerem o seu curso."
Pois em nossos livros sagrados lemos que isto também aconteceu, que um rio "voltou para trás", retido em cima enquanto a parte inferior continuava a correr, quando o povo passou sob o já mencionado líder, Josué, filho de Num; e também quando o profeta Elias o atravessou; e depois, quando seu discípulo Eliseu por ele passou: e acabamos de mencionar como, no caso do rei Ezequias, o maior dos "astros esqueceu o seu curso". Mas o que aconteceu a Vênus, segundo Varrão, não foi por ele dito ter acontecido em resposta à oração de homem algum.
Não se obscureçam, pois, os céticos neste conhecimento da natureza das coisas, como se o poder divino não pudesse realizar num objeto nada além daquilo que a sua própria experiência lhes mostrou estar em sua natureza. Até as próprias coisas que são mais comumente conhecidas como naturais não seriam menos admiráveis nem menos eficazes para suscitar espanto em todos os que as contemplassem, se os homens não estivessem acostumados a admirar nada exceto o que é raro.
Pois quem, observando atentamente a incontável multidão dos homens e a sua semelhança de natureza, pode deixar de notar, com surpresa e admiração, a individualidade da aparência de cada homem, que nos sugere, como de fato sugere, que, se os homens não fossem semelhantes uns aos outros, não se distinguiriam dos demais animais; ao passo que, se, por outro lado, não fossem dessemelhantes, não poderiam distinguir-se uns dos outros, de modo que aqueles que declaramos serem semelhantes também os achamos dessemelhantes? E a dessemelhança é a mais admirável das duas considerações; pois uma natureza comum antes parece exigir a semelhança.
E contudo, porque a própria raridade das coisas é o que as torna admiráveis, ficamos cheios de muito maior espanto quando nos apresentam dois homens tão semelhantes que, ou sempre ou frequentemente, nos enganamos ao tentar distingui-los.
Mas é possível que, embora Varrão seja um historiador pagão, e mui erudito, eles não creiam que aquilo que dele citei realmente ocorreu; ou podem dizer que o exemplo é inválido, porque a estrela não continuou por algum tempo a seguir seu novo curso, mas voltou à sua órbita ordinária.
Há, então, outro fenômeno atualmente aberto à sua observação, e que, em minha opinião, deveria ser suficiente para convencê-los de que, embora tenham observado e averiguado alguma lei natural, não devem por isso prescrever a Deus, como se Ele não pudesse mudá-la e convertê-la em algo muito diferente daquilo que observaram. A terra de Sodoma nem sempre foi como agora é; mas outrora tinha a aparência de outras terras e gozava de fertilidade igual, se não mais rica; pois, na narrativa divina, foi comparada ao paraíso de Deus.
Mas depois que foi tocada [pelo fogo] do céu, como até a história pagã testemunha, e como agora atestam os que visitam o lugar, tornou-se de aparência antinaturalmente e horrivelmente fuliginosa; e as suas maçãs, sob uma enganosa aparência de maturação, contêm cinzas por dentro. Eis aqui uma coisa que era de um modo e é de outro. Vedes como a sua natureza foi convertida, pela admirável transmutação operada pelo Criador de todas as naturezas, numa diversidade tão repugnante: uma alteração que após tão longo tempo se deu, e após tão longo tempo ainda perdura.
Assim como, portanto, não foi impossível a Deus criar tais naturezas quais lhe aprouve, assim também não lhe é impossível mudar estas naturezas de sua própria criação em qualquer coisa que lhe apraza, e espalhar deste modo uma multidão daquelas maravilhas que se chamam monstros, portentos, prodígios, fenômenos, as quais, se eu quisesse citar e registrar, que fim teria esta obra? Dizem que se chamam "monstros" (monstra) porque demonstram (monstrant) ou significam alguma coisa; "portentos" (portenta) porque pressagiam (portendunt) alguma coisa; e assim por diante.
Mas vejam os seus adivinhos como ou se enganam, ou, mesmo quando predizem coisas verdadeiras, é porque são inspirados por espíritos que se empenham em enredar as mentes dos homens (dignos, na verdade, de tal sorte) nas malhas de uma curiosidade nociva, ou como acertam aqui e ali alguma verdade, porque fazem tantas predições.
Contudo, da nossa parte, estas coisas que acontecem contra a natureza, e se dizem ser contra a natureza (como o apóstolo, falando à maneira dos homens, diz que enxertar a oliveira brava na boa oliveira e participar de sua seiva é contra a natureza), e se chamam monstros, fenômenos, portentos, prodígios, devem demonstrar, pressagiar, predizer que Deus há de realizar aquilo que predisse acerca dos corpos dos homens, sem que dificuldade alguma O impeça, sem que lei alguma da natureza Lhe prescreva o seu limite.
Como Ele predisse o que há de fazer, penso que mostrei suficientemente no livro precedente, colhendo das sagradas Escrituras, tanto do Novo como do Antigo Testamento, não, na verdade, todas as passagens que a isto se referem, mas tantas quantas julguei bastarem para esta obra.