A Cidade de Deus - Livro XXI 10

Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena

Se o fogo do inferno, sendo fogo material, pode queimar os espíritos malignos, isto é, os demônios, que são imateriais

Surge aqui a questão: se o fogo não de ser imaterial, análogo à dor da alma, mas material, queimando por contato, de modo que nele os corpos sejam atormentados, como podem nele ser punidos os espíritos malignos? Pois é sem dúvida o mesmo fogo que servirá para o castigo dos homens e dos demônios, segundo as palavras de Cristo: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos"; a menos que, talvez, como têm pensado homens doutos, os demônios tenham uma espécie de corpo feito daquele ar denso e úmido que sentimos ferir-nos quando sopra o vento.
E se este gênero de substância não pudesse ser afetado pelo fogo, não poderia queimar quando aquecido nos banhos. Pois, para queimar, primeiro é queimado, e afeta as outras coisas tal como ele próprio é afetado. Mas, se alguém sustenta que os demônios não têm corpos, não é esta uma matéria a investigar laboriosamente, nem a debater com aspereza.
Pois por que não havemos de afirmar que mesmo os espíritos imateriais possam, de algum modo extraordinário, ser realmente atormentados pelo castigo do fogo material, se os espíritos dos homens, que também são certamente imateriais, estão tanto agora contidos em membros materiais do corpo, quanto, no mundo vindouro, hão de estar indissoluvelmente unidos aos seus próprios corpos?
Portanto, ainda que os demônios não tenham corpos, seus espíritos, isto é, os próprios demônios, hão de ser postos em pleno contato com os fogos materiais, para serem por eles atormentados; não que os próprios fogos com os quais entram em contato venham a ser animados por sua ligação com esses espíritos, tornando-se animais compostos de corpo e espírito, mas, como eu disse, essa junção se efetuará de modo admirável e inefável, de sorte que recebam dor dos fogos, sem, contudo, dar-lhes vida.
E, na verdade, esse outro modo de união, pelo qual corpos e espíritos se ligam entre si e se tornam animais, é inteiramente maravilhoso e está além da compreensão do homem, embora seja precisamente isto o que constitui o homem.
Eu diria, na verdade, que esses espíritos hão de arder sem corpo algum próprio, como aquele homem rico ardia no inferno quando exclamou: "Estou atormentado nesta chama", não fosse eu sabedor de que se responde, com acerto, que aquela chama era da mesma natureza que os olhos que ele levantou e fixou em Lázaro, que a língua sobre a qual implorou que se lhe gotejasse um pouco de água refrescante, ou que o dedo de Lázaro, com o qual pediu que isto se fizesse: tudo o que se passou onde as almas existem sem corpos.
Assim, portanto, tanto aquela chama em que ardia quanto aquela gota que suplicava eram imateriais, e assemelhavam-se às visões dos que dormem ou das pessoas em êxtase, às quais objetos imateriais aparecem em forma corpórea. Pois o próprio homem que está em tal estado, ainda que seja apenas em espírito, não em corpo, vê-se contudo tão semelhante ao seu próprio corpo que não consegue discernir diferença alguma.
Mas aquele inferno, que também é chamado lago de fogo e enxofre, será fogo material, e atormentará os corpos dos condenados, sejam homens ou demônios: os corpos sólidos de uns, os corpos aéreos dos outros; ou, se os homens têm corpos além de almas, ainda assim os espíritos malignos, embora sem corpos, estarão de tal modo ligados aos fogos corpóreos que receberão dor sem lhes comunicar vida. Um fogo certamente será a sorte de ambos, pois assim o declarou a verdade.