A Cidade de Deus - Livro XXI 7

Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena

Que a razão última para crer nos milagres é a onipotência do Criador

Por que, então, não pode Deus realizar tanto que os corpos dos mortos ressuscitem, quanto que os corpos dos condenados sejam atormentados no fogo eterno: Deus, que fez o mundo cheio de inumeráveis milagres no céu, na terra, no ar e nas águas, sendo ele próprio, sem dúvida, um milagre maior e mais admirável do que todas as maravilhas de que está repleto?
Mas aqueles com quem, ou contra quem, argumentamos, os quais creem tanto que um Deus que fez o mundo, quanto que deuses por ele criados que administram as leis do mundo como seus delegados: nossos adversários, digo eu, que, longe de negar enfaticamente, antes afirmam que no mundo poderes que produzem resultados maravilhosos (seja por sua própria iniciativa, seja porque são invocados por algum rito ou oração, ou de algum modo mágico), quando lhes apresentamos as propriedades admiráveis de outras coisas que não são nem animais racionais nem espíritos racionais, mas objetos materiais tais como os que acabamos de citar, têm o costume de responder: Esta é a sua propriedade natural, a sua natureza; estes são os poderes que naturalmente lhes pertencem.
Assim, toda a razão pela qual o sal agrigentino se dissolve no fogo e estala na água é que esta é a sua natureza. Contudo, isto parece antes contrário à natureza, a qual deu não ao fogo, mas à água, o poder de derreter o sal, e o poder de o crestar não à água, mas ao fogo. Mas isto, dizem eles, é a propriedade natural deste sal: mostrar efeitos contrários a estes. A mesma razão, portanto, é apresentada para explicar aquela fonte garamante, da qual um e mesmo fio de água é gélido de dia e fervente de noite, de modo que, em qualquer dos dois extremos, não pode ser tocado.
Assim também daquela outra fonte que, embora seja fria ao toque e, como as demais fontes, extinga uma tocha acesa, todavia, ao contrário das demais fontes e de modo surpreendente, acende uma tocha apagada. Assim da pedra de amianto, que, embora não tenha calor próprio, todavia, uma vez inflamada pelo fogo a ela aplicado, não pode ser apagada. E assim das demais coisas que estou cansado de enumerar, e nas quais, embora pareça haver uma propriedade extraordinária e contrária à natureza, todavia não se delas outra razão senão esta: que esta é a sua natureza. Razão breve, é verdade, e, reconheço, resposta satisfatória.
Mas, visto que Deus é o autor de todas as naturezas, como é que nossos adversários, quando se recusam a crer no que afirmamos, sob o pretexto de que é impossível, não estão dispostos a aceitar de nós uma explicação melhor do que a sua própria, a saber, que esta é a vontade do Deus Todo-Poderoso? Pois certamente ele é chamado Todo-Poderoso unicamente porque é poderoso para fazer tudo o que quer: ele que foi capaz de criar tantas maravilhas, não apenas desconhecidas, mas muitíssimo bem comprovadas, como tenho mostrado, e que, se não estivessem sob nossa própria observação, ou referidas por testemunhas recentes e dignas de fé, certamente seriam declaradas impossíveis.
Pois, quanto àquelas maravilhas que não têm outro testemunho senão os escritores em cujos livros as lemos, e que escreveram sem terem sido divinamente instruídos, estando, portanto, sujeitos ao erro humano, não podemos com justiça censurar quem quer que se recuse a crer nelas.
Pela minha parte, não desejo que todas as maravilhas que citei sejam aceitas precipitadamente, pois eu mesmo não creio nelas sem reservas, exceto naquelas que ou vieram sob a minha própria observação, ou que qualquer um pode facilmente verificar: tais como a cal, que é aquecida pela água e esfriada pelo azeite; o ímã, que por sua misteriosa e imperceptível atração puxa o ferro, mas não tem efeito algum sobre uma palha; a carne do pavão, que triunfa sobre a corrupção da qual nem a carne de Platão está isenta; a palha, tão fria que impede a neve de derreter, e tão quente que força as maçãs a amadurecer; o fogo ardente, que, conforme a sua aparência ardente, embranquece as pedras que cozinha, ao passo que, contrariamente à sua aparência ardente, enegrece a maior parte das coisas que queima (assim como manchas sujas são feitas pelo azeite, por mais puro que seja, e como as linhas traçadas pela prata branca são negras); e também o carvão, que pela ação do fogo é tão completamente transformado do seu estado original, que um pedaço de madeira finamente veado torna-se medonho, o resistente torna-se quebradiço, o que se decompõe torna-se incorruptível.
Algumas dessas coisas conheço em comum com muitas outras pessoas, outras em comum com todos os homens; e muitas outras que não tenho espaço para inserir neste livro. Mas, daquelas que citei, embora eu próprio não as tenha visto, mas apenas lido a seu respeito, não pude encontrar testemunhas dignas de pelas quais pudesse averiguar se são fatos, exceto no caso daquela fonte na qual tochas acesas se apagam e tochas apagadas se acendem, e no caso das maçãs de Sodoma, que são maduras na aparência, mas estão cheias de pó.
E, de fato, não encontrei ninguém que dissesse ter visto aquela fonte do Epiro, mas encontrei alguns que sabiam haver uma fonte semelhante na Gália, não longe de Grenoble. O fruto das árvores de Sodoma, porém, não é mencionado em livros dignos de crédito, mas tantas pessoas dizem tê-lo visto, que não posso duvidar do fato.
Mas os demais prodígios eu os recebo sem afirmá-los nem negá-los definitivamente; e citei-os porque os li nos autores de nossos adversários, e para poder provar quantas coisas muitos dentre eles próprios creem, por estarem escritas nas obras de seus próprios homens de letras, embora nenhuma explicação racional delas seja dada, e contudo desdenham crer em nós quando afirmamos que o Deus Todo-Poderoso fará o que está além da experiência e da observação deles; e isto fazem mesmo quando atribuímos uma razão à sua obra.
Pois que razão melhor e mais forte para tais coisas se pode dar do que dizer que o Todo-Poderoso é capaz de realizá-las, e as realizará, tendo-as predito naqueles livros nos quais muitas outras maravilhas, que se cumpriram, foram preditas? Aquelas coisas que são tidas por impossíveis se cumprirão conforme a palavra e pelo poder daquele Deus que predisse e efetuou que as nações incrédulas cressem em incríveis prodígios.