A Cidade de Deus - Livro XXI 6

Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena

Que nem todos os prodígios são produzidos pela natureza, mas alguns se devem ao engenho humano e outros à artimanha diabólica

Neste ponto talvez respondam: "Essas coisas não têm existência alguma; não acreditamos em nenhuma delas; são histórias de viajantes e romances fictícios"; e podem acrescentar algo que tem aparência de argumento, dizendo: "Se acreditais em coisas como essas, acreditai também no que está registrado nos mesmos livros, que havia ou um templo de Vênus em que um candelabro posto ao ar livre sustenta uma lâmpada, a qual arde com tanta força que nenhuma tempestade ou chuva a extingue, e por isso é chamada, como a pedra mencionada acima, de lâmpada asbesto ou inextinguível." Podem dizer isto com a intenção de nos colocar num dilema: pois, se dissermos que isto é incrível, então estaremos impugnando a verdade dos outros prodígios registrados; se, por outro lado, admitirmos que isto é crível, estaremos atestando as divindades pagãs.
Mas, como disse no décimo oitavo livro desta obra, não temos por necessário crer em tudo o que a história profana contém, visto que, como diz Varrão, até os próprios historiadores discordam em tantos pontos que se poderia pensar que o fazem de propósito e com empenho; cremos, porém, se assim estivermos dispostos, naquelas coisas que não são contraditadas por estes livros, os quais não hesitamos em dizer que somos obrigados a crer.
Mas, quanto àqueles milagres permanentes da natureza, pelos quais desejamos persuadir os céticos dos milagres do mundo por vir, bastam plenamente para o nosso propósito aqueles que nós mesmos podemos observar, ou para os quais não é difícil encontrar testemunhas dignas de confiança. Além disso, aquele templo de Vênus, com sua lâmpada inextinguível, longe de nos encurralar num canto, abre um campo vantajoso ao nosso argumento.
Pois a esta lâmpada inextinguível acrescentamos uma multidão de prodígios operados por homens, ou pela magia, isto é, por homens sob a influência dos demônios, ou pelos próprios demônios diretamente, pois tais prodígios não podemos negar sem impugnar a verdade das Sagradas Escrituras em que cremos. Aquela lâmpada, portanto, ou foi dotada de asbesto por algum artifício mecânico e humano, ou foi disposta por arte mágica para que os adoradores se maravilhassem, ou algum demônio sob o nome de Vênus se manifestou de modo tão notável que este prodígio ao mesmo tempo começou e se tornou permanente.
Ora, os demônios são atraídos a habitar certos templos por meio das criaturas (criaturas de Deus, não deles), que lhes apresentam o que convém aos seus variados gostos. Não são atraídos por alimento, como os animais, mas, como espíritos, por aqueles símbolos que se adéquam ao seu gosto: diversas espécies de pedras, madeiras, plantas, animais, cânticos, ritos. E, para que os homens lhes proporcionem essas atrações, os demônios primeiramente os seduzem com astúcia, seja impregnando-lhes os corações com um veneno secreto, seja revelando-se sob uma aparência amigável, e assim fazem de uns poucos os seus discípulos, que se tornam os instrutores da multidão.
Pois, se não instruíssem primeiro os homens, seria impossível saber o que cada um deles deseja, do que se esquivam, por que nome devem ser invocados ou constrangidos a se fazer presentes. Daí a origem da magia e dos magos. Mas, acima de tudo, possuem os corações dos homens, e disso muito se orgulham principalmente quando se transformam em anjos de luz. Por isso, muitíssimas coisas que ocorrem são obra deles; e essas suas façanhas devemos evitar com tanto mais cuidado quanto mais reconhecemos serem deveras surpreendentes. E, contudo, são justamente essas façanhas que favorecem os meus presentes argumentos.
Pois, se tais prodígios são operados por demônios imundos, quão mais poderosos são os santos anjos! E que não poderá fazer aquele Deus que tornou os próprios anjos capazes de operar milagres!
Se, então, muitíssimos efeitos podem ser engendrados pela arte humana, de uma espécie tão surpreendente que os não iniciados os julgam divinos, como quando, por exemplo, em certo templo se ajustaram dois ímãs, um no teto e outro no piso, de modo que uma imagem de ferro fica suspensa no ar entre eles, e qualquer um suporia que isso se pelo poder da divindade, caso ignorasse os ímãs acima e abaixo; ou, como no caso daquela lâmpada de Vênus, que mencionamos como sendo uma hábil adaptação de asbesto; se, ainda, com o auxílio dos magos, a quem a Escritura chama de feiticeiros e encantadores, os demônios pudessem alcançar tal poder que o nobre poeta Virgílio se julgasse autorizado a descrever um mago muito poderoso nestes versos:
"Seus encantos curam as almas que lhe apraz, roubam de outros corações a sadia paz, fazem os rios voltarem à nascente, e os astros esquecerem seu curso constante, e evocam fantasmas da noite: o chão de mugir sob os vossos pés; o freixo da montanha de deixar seu lugar e descer pela encosta abaixo";
se assim é, quão mais capaz é Deus de fazer aquelas coisas que aos céticos são incríveis, mas ao seu poder são fáceis, visto ser Ele quem deu às pedras e a todas as outras coisas a sua virtude, e aos homens a habilidade de usá-las de modos admiráveis; Ele que deu aos anjos uma natureza mais poderosa do que a de tudo o que vive sobre a terra; Ele cujo poder ultrapassa todos os prodígios, e cuja sabedoria em operar, ordenar e permitir não é menos admirável no governo de todas as coisas do que na criação de todas elas!