A Cidade de Deus - Livro XXI 5

Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena

Que há muitas coisas das quais a razão não pode dar conta e que, no entanto, são verdadeiras

Não obstante, quando proclamamos os milagres que Deus operou, ou ainda de operar, e que não podemos colocar diante dos próprios olhos dos homens, os céticos não cessam de exigir que expliquemos tais maravilhas pela razão. E, porque não podemos fazê-lo, visto que estão acima da compreensão humana, supõem que falamos falsamente. Esses mesmos homens, portanto, deveriam dar conta de todas estas maravilhas que podemos, ou de fato, ver.
E, se percebem que isso é impossível ao homem fazer, deveriam reconhecer que não se pode concluir que uma coisa não tenha sido ou não venha a ser pelo fato de não se conciliar com a razão, pois coisas que existem agora das quais o mesmo é verdadeiro. Não vou, então, detalhar a multidão de maravilhas que são relatadas nos livros, e que se referem não a coisas que aconteceram uma vez e passaram, mas que são permanentes em certos lugares, onde, se alguém tiver o desejo e a oportunidade, poderá verificar a sua verdade; mas apenas algumas poucas recontarei.
Eis algumas das maravilhas que os homens nos contam: o sal de Agrigento, na Sicília, quando lançado ao fogo, torna-se fluido como se estivesse na água, mas na água crepita como se estivesse no fogo. Os garamantes têm uma fonte tão fria de dia que ninguém pode bebê-la, e tão quente de noite que ninguém pode tocá-la. No Epiro, também, uma fonte que, como todas as outras, apaga tochas acesas, mas, ao contrário de todas as outras, acende tochas apagadas. uma pedra encontrada na Arcádia, chamada asbesto, porque, uma vez acesa, não pode ser apagada.
A madeira de certa espécie de figueira egípcia afunda na água, e não flutua como as outras madeiras; e, o que é ainda mais estranho, depois de ter ficado submersa no fundo por algum tempo, sobe de novo à superfície, embora a natureza exija que, encharcada de água, devesse ficar mais pesada do que nunca. também as maçãs de Sodoma, que crescem de fato com aparência de maturidade, mas, quando as tocas com a mão ou com o dente, a casca se rompe e elas se desfazem em e cinzas. A pedra persa pirita queima a mão quando esta a segura com força, e assim recebe seu nome do fogo.
Na Pérsia, também, encontra-se outra pedra chamada selenita, porque o seu brilho interior cresce e mingua com a lua. na Capadócia as éguas são fecundadas pelo vento, e seus potros vivem apenas três anos. Tilon, uma ilha da Índia, tem esta vantagem sobre todas as outras terras: que nenhuma árvore que nela cresce jamais perde a folhagem.
Estas e inumeráveis outras maravilhas registradas na história, não de acontecimentos passados, mas de lugares permanentes, não tenho tempo de explanar, nem de me desviar do meu objetivo principal; mas que aqueles céticos que se recusam a dar crédito aos escritos divinos me deem, se puderem, uma explicação racional delas. Pois o único fundamento da sua incredulidade quanto às Escrituras é que estas contêm coisas incríveis, tais como as que venho recontando. Pois, dizem eles, a razão não pode admitir que a carne arda e permaneça inconsumida, que sofra sem morrer. Poderosos raciocinadores, na verdade, capazes de dar a razão de todas as maravilhas que existem!
Que nos deem, então, a razão das poucas coisas que citamos, as quais, se não soubessem que existem, e fossem apenas asseguradas por nós de que em algum tempo futuro haveriam de ocorrer, eles creriam ainda menos do que aquilo que agora se recusam a crer sob a nossa palavra.
Pois qual deles creria em nós se, em vez de dizer que os corpos vivos dos homens, doravante, serão tais que suportarão dor e fogo eternos sem jamais morrer, disséssemos que no mundo vindouro haverá um sal que se torna líquido no fogo como se estivesse na água, e crepita na água como se estivesse no fogo; ou que haverá uma fonte cuja água, no ar gélido da noite, é tão quente que não pode ser tocada, ao passo que no calor do dia é tão fria que não pode ser bebida; ou que haverá uma pedra que, pelo seu próprio calor, queima a mão quando segurada com força, ou uma pedra que não pode ser apagada se tiver sido acesa em qualquer parte; ou qualquer daquelas maravilhas que citei, omitindo inumeráveis outras?
Se disséssemos que estas coisas se encontrariam no mundo vindouro, e os nossos céticos respondessem: "Se quereis que creiamos nestas coisas, satisfazei a nossa razão a respeito de cada uma delas", haveríamos de confessar que não o poderíamos fazer, porque a frágil compreensão do homem não pode dominar estas e semelhantes maravilhas da obra de Deus; e, todavia, que a nossa razão estava plenamente convencida de que o Todo-Poderoso nada faz sem razão, embora a frágil mente do homem não possa explicar essa razão; e que, conquanto em muitos casos estejamos incertos do que Ele intenta, é sempre certíssimo que nada do que Ele intenta lhe é impossível; e que, quando Ele declara o seu intento, cremos n'Aquele que não podemos crer ser nem impotente nem falso.
Não obstante, esses caviladores da e exatores da razão, como dão conta daquelas coisas das quais não se pode oferecer uma razão, e que, contudo, existem, ainda que em aparente contrariedade à natureza das coisas? Se tivéssemos anunciado que estas coisas haveriam de ser, esses céticos teriam exigido de nós a razão delas, como o fazem no caso daquelas coisas que anunciamos estarem destinadas a ser.
E, por conseguinte, assim como estas maravilhas presentes não são inexistentes, embora a razão e o discurso humanos se percam em tais obras de Deus, assim também aquelas coisas de que falamos não são impossíveis por serem inexplicáveis; pois, neste ponto particular, encontram-se na mesma condição que as maravilhas da terra.