A Cidade de Deus - Livro XXI 4

Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena

Exemplos da natureza que provam que os corpos podem permanecer no fogo sem se consumir e sem perder a vida

Se, portanto, a salamandra vive no fogo, como os naturalistas registraram, e se certos famosos montes da Sicília têm ardido continuamente desde a mais remota antiguidade até agora, e contudo permanecem inteiros, esses são exemplos suficientemente convincentes de que nem tudo o que arde se consome. E uma vez que a alma também é uma prova de que nem tudo o que pode sofrer dor pode igualmente morrer, por que então ainda exigem que apresentemos exemplos reais para provar que não é incrível que os corpos dos homens condenados ao castigo eterno possam reter sua alma no fogo, possam arder sem se consumir, e possam sofrer sem perecer?
Pois propriedades adequadas serão comunicadas à substância da carne por Aquele que dotou as coisas que vemos de propriedades tão maravilhosas e diversas, que a própria multidão delas impede nosso assombro. Pois quem, senão Deus, o Criador de todas as coisas, deu à carne do pavão sua propriedade antisséptica?
Essa propriedade, quando dela ouvi falar pela primeira vez, pareceu-me incrível; mas aconteceu em Cartago que uma ave dessa espécie foi cozida e servida a mim, e, tomando uma fatia conveniente de carne de seu peito, ordenei que fosse guardada, e quando havia sido conservada por tantos dias quantos bastam para tornar fétida qualquer outra carne, foi trazida e posta diante de mim, e não exalava nenhum odor desagradável. E depois de ter sido deixada de lado por trinta dias e mais, ainda estava no mesmo estado; e um ano depois, permanecia igual, exceto que estava um pouco mais encarquilhada e mais seca.
Quem deu à palha tal poder de gelar, que ela preserva a neve sob si enterrada, e tal poder de aquecer, que amadurece os frutos ainda verdes?
Mas quem pode explicar as estranhas propriedades do próprio fogo, que escurece tudo o que queima, embora ele mesmo seja brilhante; e que, embora seja das mais belas cores, descolore quase tudo o que toca e do que se alimenta, e converte o combustível em chamas em cinzas enegrecidas? Contudo, isso não está estabelecido como uma lei absolutamente uniforme; pois, ao contrário, as pedras cozidas no fogo incandescente também elas próprias se tornam incandescentes, e embora o fogo seja antes de um tom avermelhado, e elas brancas, todavia o branco é congruente com a luz, e o negro com as trevas. Assim, embora o fogo queime a madeira ao calcinar as pedras, esses efeitos contrários não resultam da contrariedade dos materiais.
Pois embora a madeira e a pedra difiram, não são contrárias, como o negro e o branco, das quais cores uma se produz nas pedras, enquanto a outra se produz na madeira pela mesma ação do fogo, que comunica seu próprio brilho às primeiras, ao passo que enegrece a segunda, e que nenhum efeito poderia ter sobre uma se não fosse alimentado pela outra. Que propriedades maravilhosas encontramos, então, no carvão, que é tão quebradiço que uma leve pancada o parte e uma leve pressão o pulveriza, e contudo é tão resistente que nenhuma umidade o apodrece, nem tempo algum o faz decair.
Tão durável é ele, que é costume, ao demarcar os limites de terras, colocar carvão por baixo deles, de modo que se, após o mais longo intervalo, alguém intentar uma ação e alegar que não marco divisório, possa ser convencido pelo carvão que está embaixo. Que coisa, então, lhe permitiu durar tanto tempo sem apodrecer, ainda que enterrado na terra úmida na qual a própria madeira de que provém apodrece, senão este mesmo fogo que consome todas as coisas?
Consideremos novamente as maravilhas da cal; pois, além de tornar-se branca no fogo, que torna negras as outras coisas, e do que disse o suficiente, ela tem também a misteriosa propriedade de conceber fogo dentro de si. Fria ao tato, ela contudo possui uma reserva oculta de fogo, que não se manifesta de imediato aos nossos sentidos, mas que a experiência nos ensina jazer como que adormecida dentro dela, ainda enquanto invisível. E é por essa razão chamada "cal viva", como se o fogo fosse a alma invisível que vivifica a substância ou corpo visível. Mas o que de maravilhoso é que esse fogo se acende quando é extinto.
Pois, para liberar o fogo oculto, a cal é umedecida ou encharcada com água, e então, embora antes estivesse fria, torna-se quente por essa mesma aplicação que esfria o que é quente. Como se o fogo estivesse partindo da cal e exalando seu último alento, ele não jaz oculto, mas aparece; e então a cal, jazendo na frieza da morte, não pode ser revivificada, e o que antes chamávamos "viva", agora chamamos "apagada". Que pode haver de mais estranho do que isto? E todavia ainda maior maravilha. Pois, se tratares a cal não com água, mas com óleo, que é como combustível para o fogo, nenhuma quantidade de óleo a aquecerá.
Ora, se essa maravilha nos tivesse sido contada acerca de algum mineral da Índia sobre o qual não tivéssemos oportunidade de experimentar, ou logo a teríamos declarado uma falsidade, ou certamente teríamos ficado grandemente assombrados. Mas as coisas que diariamente se apresentam à nossa própria observação nós desprezamos, não porque sejam realmente menos maravilhosas, mas porque são comuns; de sorte que até alguns produtos da própria Índia, remota como ela é de nós, deixam de excitar nossa admiração assim que podemos admirá-los à vontade.
O diamante é uma pedra possuída por muitos entre nós, especialmente por joalheiros e lapidários, e a pedra é tão dura que não pode ser trabalhada nem pelo ferro nem pelo fogo, nem, dizem, por coisa alguma, exceto pelo sangue de bode. Mas supões tu que ele seja tão admirado por aqueles que o possuem e estão familiarizados com suas propriedades quanto por aqueles a quem é mostrado pela primeira vez?
As pessoas que não o viram talvez não creiam no que dele se diz, ou, se creem, admiram-se como diante de algo que ultrapassa sua experiência; e se acontece de o verem, ainda assim se maravilham porque não estão acostumadas a ele, mas pouco a pouco a experiência familiar embota sua admiração. Sabemos que a pedra-ímã tem um poder maravilhoso de atrair o ferro.
Quando a vi pela primeira vez, fiquei estupefato, pois vi um anel de ferro ser atraído e suspenso pela pedra; e então, como se ela tivesse comunicado sua própria propriedade ao ferro que atraía, e o tivesse tornado uma substância semelhante a si mesma, esse anel foi aproximado de outro e o ergueu; e assim como o primeiro anel aderia ao ímã, assim o segundo anel aderia ao primeiro. Um terceiro e um quarto foram acrescentados do mesmo modo, de sorte que pendia da pedra uma espécie de cadeia de anéis, com seus aros ligados, não entrelaçados, mas unidos entre si por sua superfície externa.
Quem não ficaria assombrado com essa virtude da pedra, subsistindo como subsiste não apenas nela mesma, mas transmitida através de tantos anéis suspensos, e ligando-os entre si por elos invisíveis? Contudo, muito mais surpreendente é o que ouvi acerca dessa pedra de meu irmão no episcopado, Severo, bispo de Mileve. Ele me contou que Batanário, outrora conde da África, quando o bispo jantava com ele, mostrou um ímã e o segurou sob um prato de prata sobre o qual colocou um pedacinho de ferro; então, à medida que movia a mão com o ímã por baixo do prato, o ferro sobre o prato movia-se correspondentemente.
A prata interposta não era afetada em absoluto, mas, exatamente conforme o ímã era movido para trás e para frente por baixo dela, não importa quão depressa, assim o ferro era atraído por cima. Relatei o que eu mesmo testemunhei; relatei o que me foi contado por alguém em quem confio como confio em meus próprios olhos. Permiti-me dizer ainda o que li acerca desse ímã. Quando um diamante é colocado perto dele, ele não levanta o ferro; ou, se o levantou, tão logo o diamante se aproxima, ele o deixa cair. Essas pedras vêm da Índia.
Mas se deixamos de admirá-las porque agora nos são familiares, quanto menos devem admirá-las aqueles que as obtêm com muita facilidade e nas enviam? Talvez sejam tidas por tão baratas quanto temos a cal, à qual, por ser comum, não damos nenhum valor, embora ela possua a estranha propriedade de queimar quando a água, que costuma apagar o fogo, é derramada sobre ela, e de permanecer fria quando misturada com o óleo, que ordinariamente alimenta o fogo.