A Cidade de Deus - Livro XXI 3
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Se o sofrimento corporal necessariamente termina na destruição da carne
Mas, dizem eles, não existe corpo algum que possa sofrer e não possa também morrer. Como sabemos disto? Pois quem pode afirmar com certeza que os demônios não sofrem em seus corpos, quando eles próprios reconhecem que são gravemente atormentados? E se nos responderem que não há corpo terreno, isto é, nenhum corpo sólido e perceptível, ou, numa só palavra, nenhuma carne, que possa sofrer e não possa morrer, não será isto dizer-nos apenas aquilo que os homens recolheram da experiência e de seus sentidos corporais? Pois, na verdade, eles não têm conhecimento de nenhuma carne senão daquela que é mortal; e todo o seu argumento é este: que julgam absolutamente impossível aquilo de que não tiveram experiência.
Pois não podemos chamar de raciocínio o fazer da dor uma presunção de morte, quando, de fato, ela é antes um sinal de vida. Porque, embora seja questão duvidosa se aquilo que sofre pode continuar a viver para sempre, é certo, contudo, que tudo o que sofre dor vive, e que a dor só pode existir num sujeito vivo. É necessário, portanto, que aquele que sente dor esteja vivo, mas não é necessário que a dor o mate; pois nem toda dor mata sequer estes nossos corpos mortais, destinados a morrer.
E o fato de que alguma dor os mata é causado pela circunstância de que a alma está de tal modo unida ao corpo que sucumbe à grande dor e se retira; pois a estrutura de nossos membros e partes vitais é tão débil que não pode resistir àquela violência que causa grande ou extrema agonia. Mas na vida por vir esta união da alma com o corpo será de tal natureza que, assim como não se dissolve por nenhum decurso de tempo, tampouco se rompe por nenhuma dor.
E assim, embora seja verdade que neste mundo não há carne que possa sofrer dor e contudo não possa morrer, haverá, todavia, no mundo por vir uma carne tal como agora não existe, assim como haverá também uma morte tal como agora não existe. Pois a morte não será abolida, mas será eterna, visto que a alma não poderá nem fruir de Deus e viver, nem morrer e escapar às dores do corpo. A primeira morte expulsa a alma do corpo contra a sua vontade; a segunda morte retém a alma no corpo contra a sua vontade. As duas têm isto em comum: que a alma sofre contra a sua vontade aquilo que o seu próprio corpo lhe inflige.
Nossos adversários também fazem grande caso disto: que neste mundo não há carne que possa sofrer dor e não possa morrer; ao passo que não dão nenhuma importância ao fato de que existe algo maior do que o corpo. Pois o espírito, cuja presença anima e governa o corpo, pode tanto sofrer dor como não pode morrer. Eis, então, algo que, embora possa sentir dor, é imortal. E esta capacidade, que agora vemos no espírito de todos, estará no futuro nos corpos dos condenados. Além disso, se atentarmos para a questão um pouco mais de perto, vemos que aquilo a que se chama dor corporal deve antes ser referido à alma.
Pois é a alma, não o corpo, que sente a dor, ainda quando a dor se origina do corpo: a alma sente dor no ponto em que o corpo é ferido. Assim como, então, falamos de corpos que sentem e vivem, embora o sentir e a vida do corpo provenham da alma, do mesmo modo também falamos de corpos que sofrem dor, embora nenhuma dor possa ser sofrida pelo corpo à parte da alma. A alma, pois, sofre com o corpo naquela parte em que ocorre algo que o fere; e sofre sozinha, embora esteja no corpo, quando alguma causa invisível a aflige, enquanto o corpo permanece são e salvo.
Mesmo quando não associada ao corpo, ela sofre dor; pois certamente aquele homem rico padecia no inferno quando clamou: "Sou atormentado nesta chama." Mas, quanto ao corpo, este não sofre dor alguma quando está sem alma; e, mesmo quando animado, só pode sofrer pelo sofrimento da alma. Se, portanto, pudéssemos extrair uma justa presunção da existência da dor para a da morte, e concluir que onde a dor pode ser sentida a morte pode ocorrer, então a morte seria antes propriedade da alma, pois a ela a dor pertence de modo mais peculiar.
Mas, visto que aquilo que mais sofre não pode morrer, que razão há para supor que aqueles corpos, por serem destinados a sofrer, sejam por isso destinados a morrer? Os platônicos, de fato, sustentavam que estes corpos terrenos e membros mortais davam origem aos temores, desejos, tristezas e alegrias da alma. "Daí", diz Virgílio (isto é, destes corpos terrenos e membros mortais),
"Daí os desejos selvagens e os temores rasteiros, e o riso humano, e as lágrimas humanas."
Mas no décimo quarto livro desta obra provamos que, segundo a própria teoria dos platônicos, as almas, mesmo quando purgadas de toda contaminação do corpo, são ainda possuídas por um monstruoso desejo de voltar novamente aos seus corpos. Ora, onde pode existir desejo, certamente também pode existir dor; pois o desejo frustrado, seja por não alcançar aquilo a que visa, seja por perder aquilo que havia conquistado, converte-se em dor. E, portanto, se a alma, que é a única ou a principal que sofre, possui contudo uma espécie de imortalidade própria, é inconsequente dizer que, por sofrerem dor os corpos dos condenados, eles hão de morrer.
Enfim, se o corpo faz a alma sofrer, por que não pode o corpo causar a morte tão bem quanto o sofrimento, a não ser porque não se segue que aquilo que causa dor cause também a morte? E por que, então, é incrível que estes fogos possam causar dor, mas não a morte, àqueles corpos de que falamos, assim como os próprios corpos causam dor, mas não por isso a morte, às almas? A dor, portanto, não é uma presunção necessária da morte.