A Cidade de Deus - Livro XXI 26
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
O que é ter Cristo por fundamento, e quem são aqueles a quem se promete a salvação como que através do fogo
Mas, dizem eles, os cristãos católicos têm Cristo por fundamento, e não se afastaram da união com Ele, por mais depravada que seja a vida que edificaram sobre esse fundamento, como madeira, feno e palha; e, por conseguinte, a fé bem dirigida pela qual Cristo é o seu fundamento bastará para livrá-los, com o tempo, da permanência naquele fogo, ainda que com perda, visto que aquelas coisas que sobre ele edificaram hão de ser queimadas.
Que o apóstolo Tiago lhes responda em resumo: "Se alguém disser que tem fé, e não tiver obras, porventura a fé poderá salvá-lo?" E quem é então, perguntam eles, aquele de quem o apóstolo Paulo diz: "Mas ele mesmo será salvo, todavia como que através do fogo"? Juntemo-nos a eles na investigação; e uma coisa é muito certa: que não é aquele de quem fala Tiago, pois de outro modo faríamos os dois apóstolos contradizerem-se um ao outro, se um diz: "Ainda que as obras de um homem sejam más, a sua fé o salvará como que através do fogo", enquanto o outro diz: "Se não tiver boas obras, porventura a sua fé poderá salvá-lo?"
Averiguaremos então quem é aquele que pode ser salvo pelo fogo, se primeiro descobrirmos o que é ter Cristo por fundamento. E isto podemos aprender muito prontamente a partir da própria imagem. Numa construção, o fundamento vem primeiro. Quem quer, pois, que tenha Cristo no coração, de modo que nenhuma coisa terrena ou temporal, nem mesmo as que são lícitas e permitidas, lhe seja preferida, tem Cristo por fundamento.
Mas, se tais coisas forem preferidas, então, ainda que um homem pareça ter fé em Cristo, contudo Cristo não é o fundamento desse homem; e muito mais, se ele, em desprezo dos preceitos salutares, busca gratificações proibidas, fica claramente convencido de colocar Cristo não em primeiro, mas em último lugar, visto que o desprezou como seu soberano e preferiu satisfazer as suas próprias paixões perversas, em desprezo dos mandamentos e das permissões de Cristo. Por conseguinte, se algum homem cristão ama uma meretriz e, unindo-se a ela, se torna um só corpo, esse já não tem Cristo por fundamento.
Mas, se alguém ama a própria esposa, e a ama como Cristo quereria que ele a amasse, quem pode duvidar de que tem Cristo por fundamento? Porém, se a ama à maneira do mundo, carnalmente, como o impele a doença da concupiscência, e como amam os gentios que não conhecem a Deus, ainda isto o apóstolo, ou antes Cristo por meio do apóstolo, permite como falta venial. E portanto até mesmo tal homem pode ter Cristo por fundamento. Pois, enquanto não preferir tal afeto ou prazer a Cristo, Cristo é o seu fundamento, ainda que sobre ele edifique madeira, feno e palha; e por isso será salvo como que através do fogo.
Pois o fogo da aflição queimará tais prazeres voluptuosos e amores terrenos, ainda que não sejam dignos de condenação, por serem desfrutados em legítimo matrimônio. E o combustível desse fogo é a perda dos entes queridos e todas aquelas calamidades que consomem tais alegrias. Por conseguinte, a superestrutura será perda para aquele que a edificou, pois ele não a reterá, mas será atormentado pela perda daquelas coisas em cujo gozo encontrava prazer. Mas por esse fogo será salvo, em virtude do fundamento, porque, ainda que um perseguidor lhe exigisse decidir se reteria a Cristo ou a essas coisas, ele preferiria a Cristo.
Quereis ouvir, nas próprias palavras do apóstolo, quem é aquele que edifica sobre o fundamento ouro, prata e pedras preciosas? "Aquele que não é casado", diz ele, "cuida das coisas que pertencem ao Senhor, de como há de agradar ao Senhor." Quereis ouvir quem é aquele que edifica madeira, feno e palha?
"Mas aquele que é casado cuida das coisas que são do mundo, de como há de agradar à esposa." "A obra de cada um se manifestará: porque o dia a declarará", o dia, sem dúvida, da tribulação, "porquanto", diz ele, "será revelada pelo fogo." Ele chama a tribulação de fogo, assim como se diz em outro lugar: "A fornalha prova os vasos do oleiro, e a prova da aflição prova os homens justos." E "o fogo provará qual seja a obra de cada um".
"Se a obra de alguém permanecer", pois permanece o cuidado de um homem pelas coisas do Senhor, de como há de agradar ao Senhor, "a que edificou sobre ele, esse receberá galardão", isto é, colherá o fruto do seu cuidado. "Mas, se a obra de alguém se queimar, sofrerá perda", pois aquilo que amou não o reterá, "todavia ele mesmo será salvo", pois nenhuma tribulação o terá afastado daquele fundamento estável, "mas como que através do fogo"; porque aquilo que possuía com a doçura do amor não o perde sem o agudo aguilhão da dor.
Aqui, pois, segundo me parece, temos um fogo que não destrói nenhum dos dois, mas enriquece um, traz perda ao outro e prova ambos.
Mas, se esta passagem [da Epístola aos Coríntios] deve interpretar aquele fogo do qual o Senhor dirá aos que estão à sua esquerda: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno", de modo que entre estes devamos crer que há aqueles que edificam sobre o fundamento madeira, feno e palha, e que eles, em virtude do bom fundamento, serão, depois de algum tempo, libertados do fogo que é o castigo dos seus maus merecimentos, que pensaremos então daqueles à direita, aos quais se dirá: "Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado", senão que são aqueles que edificaram sobre o fundamento ouro, prata e pedras preciosas?
Mas, se o fogo de que fala nosso Senhor é o mesmo de que diz o apóstolo "todavia como que através do fogo", então ambos, isto é, tanto os que estão à direita como os que estão à esquerda, hão de ser lançados nele.
Pois esse fogo há de provar a ambos, visto que se diz: "Porque o dia do Senhor o declarará, porque será revelado pelo fogo; e o fogo provará qual seja a obra de cada um." Se, portanto, o fogo há de provar a ambos, a fim de que, se a obra de alguém permanecer, isto é, se a superestrutura não for consumida pelo fogo, ele receba galardão, e, se a sua obra se queimar, sofra perda, certamente esse fogo não é o próprio fogo eterno. Pois neste último fogo somente os que estão à esquerda serão lançados, e isso com condenação final e perpétua; mas aquele primeiro fogo prova os que estão à direita.
Mas a alguns deles ele de tal modo prova que não queima nem consome a estrutura que se acha edificada por eles sobre Cristo como fundamento; ao passo que a outros prova de outra maneira, de sorte a queimar o que edificaram, e assim os faz sofrer perda, enquanto eles mesmos são salvos, porque retiveram a Cristo, que foi posto como seu firme fundamento, e o amaram acima de todas as coisas.
Mas, se são salvos, então certamente estarão à direita, e com os demais ouvirão a sentença: "Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado"; e não à esquerda, onde estarão os que não serão salvos, e que por isso ouvirão a condenação: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno." Pois desse fogo nenhum homem será salvo, porque todos eles irão para o castigo eterno, onde os seus vermes não morrerão, nem o seu fogo se apagará, no qual serão atormentados dia e noite para sempre.
Mas, se se disser que, no intervalo de tempo entre a morte deste corpo e aquele último dia do juízo e da retribuição que se seguirá à ressurreição, os corpos dos mortos serão expostos a um fogo de tal natureza que não afetará aqueles que nesta vida não se entregaram a tais prazeres e ocupações que serão consumidos como madeira, feno e palha, mas afetará aqueles outros que levaram consigo estruturas dessa espécie; se se disser que tal mundanismo, sendo venial, será consumido no fogo da tribulação ou somente aqui, ou aqui e no além, ou aqui para que não o seja no além, isto eu não contradigo, porque é possível que seja verdade.
Pois talvez até a própria morte do corpo seja parte dessa tribulação, visto que resulta da primeira transgressão, de modo que o tempo que se segue à morte toma, em cada caso, a sua cor da natureza da edificação do homem.
As perseguições também, que coroaram os mártires, e que os cristãos de toda espécie sofrem, provam ambas as edificações como um fogo, consumindo algumas, juntamente com os próprios construtores, se Cristo não se acha neles como seu fundamento, enquanto outras consomem sem os construtores, porque neles se acha Cristo, e eles são salvos, ainda que com perda; e ainda outras edificações não consomem, porque nelas se acham tais materiais que permanecem para sempre. No fim do mundo, haverá, no tempo do Anticristo, tribulação como nunca antes houve.
Quantas edificações haverá então, de ouro ou de feno, erguidas sobre o melhor fundamento, Cristo Jesus, que aquele fogo há de provar, trazendo alegria a uns, perda a outros, mas sem destruir nem uma nem outra espécie, por causa desse fundamento estável!
Mas todo aquele que prefere, não digo a sua esposa, com quem vive para o prazer carnal, mas qualquer daqueles parentes que não proporcionam deleite de tal espécie, e a quem é justo amar, todo aquele que prefere estes a Cristo, e os ama à maneira humana e carnal, não tem Cristo por fundamento, e por isso não será salvo pelo fogo, nem de modo algum o será; pois não poderá habitar com o Salvador, que diz muito explicitamente acerca deste mesmo assunto: "Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim." Mas aquele que ama os seus parentes carnalmente, e contudo de tal modo que não os prefere a Cristo, mas antes preferiria ficar sem eles a ficar sem Cristo, se fosse posto à prova, será salvo pelo fogo, porque é necessário que, pela perda desses parentes, sofra dor proporcional ao seu amor.
E aquele que ama o pai, a mãe, os filhos, as filhas, segundo Cristo, de modo que os auxilia a obter o seu reino e a apegar-se a Ele, ou os ama porque são membros de Cristo, longe esteja que esse amor seja consumido como madeira, feno e palha, e não antes reputado como estrutura de ouro, prata e pedras preciosas. Pois como pode um homem amar mais do que a Cristo aqueles a quem ama somente por causa de Cristo?