A Cidade de Deus - Livro XXI 25
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Contra os que afirmam que todos os católicos que perseveraram no batismo serão libertados do fogo eterno, por mais perversamente que tenham vivido
Mas respondamos agora àqueles que prometem livramento do fogo eterno, não ao diabo e a seus anjos (como tampouco o prometem aqueles de quem temos falado), nem mesmo a todos os homens, sejam quais forem, mas somente aos que foram lavados pelo batismo de Cristo e se fizeram participantes de seu corpo e de seu sangue, não importa como tenham vivido, não importa em que heresia ou impiedade tenham caído.
Mas são contraditos pelo apóstolo, onde ele diz: "Ora, as obras da carne são manifestas, e são estas: a prostituição, a impureza, a lascívia, a idolatria, a feitiçaria, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as rixas, as heresias, as invejas, as bebedeiras, as glutonarias e coisas semelhantes a estas, sobre as quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus." Certamente esta sentença do apóstolo é falsa, se tais pessoas houverem de ser libertadas depois de algum lapso de tempo e então herdarem o reino de Deus.
Mas, como ela não é falsa, eles certamente jamais herdarão o reino de Deus. E, se jamais entrarem naquele reino, então serão sempre retidos no castigo eterno, pois não há lugar intermediário onde possa viver sem castigo quem não foi admitido naquele reino.
E, portanto, podemos com razão indagar como havemos de entender estas palavras do Senhor Jesus: "Este é o pão que desce do céu, para que dele coma o homem e não morra. Eu sou o pão vivo que desceu do céu.
Se alguém comer deste pão, viverá para sempre." E aqueles, na verdade, a quem agora respondemos, são refutados em sua interpretação desta passagem por aqueles a quem em breve havemos de responder, os quais não prometem este livramento a todos os que receberam os sacramentos do batismo e do corpo do Senhor, mas somente aos católicos, por mais perversamente que vivam; pois estes, dizem eles, comeram o corpo do Senhor não apenas sacramentalmente, mas realmente, sendo constituídos membros de seu corpo, do qual o apóstolo diz: "Nós, sendo muitos, somos um só pão, um só corpo." Aquele, pois, que está na unidade do corpo de Cristo (isto é, na membresia cristã), do qual corpo os fiéis costumavam receber o sacramento no altar, desse homem se diz verdadeiramente que come o corpo e bebe o sangue de Cristo.
E, por conseguinte, os hereges e cismáticos, estando separados da unidade deste corpo, são capazes de receber o mesmo sacramento, mas sem proveito algum para si próprios, antes, pelo contrário, para seu próprio dano, de modo que são antes julgados mais severamente do que libertados depois de algum tempo. Pois não estão naquele vínculo de paz que é simbolizado por aquele sacramento.
Mas, novamente, até mesmo aqueles que compreendem suficientemente que de quem não está no corpo de Cristo não se pode dizer que come o corpo de Cristo, erram quando prometem libertação do fogo do castigo eterno às pessoas que se apartam da unidade daquele corpo para a heresia, ou mesmo para a superstição pagã.
Pois, em primeiro lugar, deveriam considerar quão intolerável é, e quão discordante da sã doutrina, supor que muitos, na verdade, ou quase todos, que abandonaram a Igreja católica e originaram heresias ímpias e se tornaram heresiarcas, hajam de gozar de destino superior ao daqueles que nunca foram católicos, mas caíram nos laços destes outros; isto é, se o fato de seu batismo católico e da recepção original do sacramento do corpo de Cristo no verdadeiro corpo de Cristo é suficiente para livrar esses heresiarcas do castigo eterno.
Pois certamente aquele que deserta da fé, e de desertor se torna agressor, é pior do que aquele que não desertou da fé que nunca professou. E, em segundo lugar, são contraditos pelo apóstolo, que, depois de enumerar as obras da carne, diz com referência às heresias: "Os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus."
E, portanto, tampouco devem tais pessoas, que levam uma vida abandonada e condenável, estar confiantes da salvação, ainda que perseverem até o fim na comunhão da Igreja católica e se consolem com as palavras: "Aquele que perseverar até o fim será salvo." Pela iniquidade de sua vida, eles abandonam aquela mesma justiça de vida que Cristo é para eles, seja pela prostituição, seja por perpetrarem em seu corpo as outras impurezas que o apóstolo nem sequer quis mencionar, seja por uma luxúria dissoluta, seja por praticarem alguma daquelas coisas das quais ele diz: "Os que tais coisas praticam não herdarão o reino de Deus." Por conseguinte, os que tais coisas praticam não existirão em parte alguma senão no castigo eterno, visto que não podem estar no reino de Deus.
Pois, enquanto continuam em tais coisas até o próprio fim da vida, não se pode dizer que permaneçam em Cristo até o fim; pois permanecer nele é permanecer na fé de Cristo. E esta fé, segundo a definição que dela dá o apóstolo, "opera pelo amor". E o "amor", como ele diz em outro lugar, "não faz mal". Tampouco se pode dizer que estas pessoas comem o corpo de Cristo, pois nem sequer podem ser contadas entre seus membros. Pois, para não mencionar outras razões, não podem ser ao mesmo tempo membros de Cristo e membros de uma meretriz.
Enfim, ele próprio, quando diz: "Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele", mostra o que é, em realidade e não sacramentalmente, comer o seu corpo e beber o seu sangue; pois isto é permanecer em Cristo, para que ele também permaneça em nós. De sorte que é como se ele dissesse: Aquele que não permanece em mim, e em quem eu não permaneço, não diga nem pense que come o meu corpo ou bebe o meu sangue. Por conseguinte, os que não são membros de Cristo não permanecem nele.
E os que se fazem membros de uma meretriz não são membros de Cristo, a menos que tenham, penitentemente, abandonado aquele mal e voltado a este bem para com ele se reconciliarem.