A Cidade de Deus - Livro XXI 27

Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena

Contra a crença dos que pensam que os pecados acompanhados de esmolas não lhes causarão dano

Resta responder àqueles que sustentam que somente arderão no fogo eterno aqueles que negligenciam as esmolas proporcionadas aos seus pecados, fundando essa opinião nas palavras do apóstolo Tiago: "Juízo sem misericórdia haverá para aquele que não usou de misericórdia." Portanto, dizem eles, aquele que usou de misericórdia, ainda que não tenha reformado sua conduta dissoluta, mas tenha vivido perversa e iniquamente mesmo enquanto abundava em esmolas, terá um juízo misericordioso, de modo que ou não será de modo algum condenado, ou será libertado do juízo final depois de algum tempo.
E pela mesma razão supõem que Cristo fará distinção entre os que estão à direita e os que estão à esquerda, e enviará uns para o seu reino e os outros para o castigo eterno, unicamente com base na sua atenção ou negligência para com as obras de caridade. Além disso, esforçam-se por usar a oração que o próprio Senhor ensinou como prova e baluarte de sua opinião, a saber, que os pecados cotidianos, que nunca são abandonados, podem ser expiados por meio de esmolas, por mais ofensivos ou de qualquer espécie que sejam.
Pois, dizem eles, assim como não dia em que os cristãos não devam usar esta oração, também não pecado de espécie alguma que, embora cometido todos os dias, não seja remido quando dizemos: "Perdoa-nos as nossas dívidas", se cuidarmos de cumprir o que se segue: "assim como nós perdoamos aos nossos devedores." Pois, prosseguem eles, o Senhor não diz: "Se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celestial também vos perdoará os vossos pequenos pecados cotidianos", mas: "vos perdoará os vossos pecados." Portanto, sejam eles de que espécie ou magnitude forem, sejam perpetrados diariamente e nunca abandonados ou subjugados nesta vida, podem ser perdoados, presumem eles, por meio de esmolas.
Mas eles têm razão ao inculcar a prática de esmolas proporcionadas aos pecados passados; pois, se dissessem que qualquer espécie de esmola pudesse obter o perdão divino de grandes pecados cometidos diariamente e com enormidade habitual, se dissessem que tais pecados pudessem assim ser diariamente remidos, perceberiam que sua doutrina era absurda e ridícula. Pois seriam assim levados a reconhecer que seria possível a um homem riquíssimo comprar a absolvição de homicídios, adultérios e toda sorte de perversidade, pagando uma esmola diária de dez moedas ínfimas.
E se é por demais absurdo e insensato fazer tal reconhecimento, e se ainda perguntamos quais são aquelas esmolas convenientes das quais o próprio precursor de Cristo disse: "Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento", sem dúvida se de constatar que não são tais como as que praticam os homens que solapam sua vida com enormidades diárias até o próprio fim.
Pois supõem que, ao dar aos pobres uma pequena fração da riqueza que adquirem por extorsão e espoliação, podem aplacar a Cristo, de modo a poderem cometer impunemente os pecados mais condenáveis, na persuasão de que compraram dele uma licença para transgredir, ou antes, que compram uma indulgência diária. E ainda que, por um único crime, tenham distribuído todos os seus bens aos membros necessitados de Cristo, isso de nada lhes aproveitaria, a menos que desistissem de todas as ações semelhantes e alcançassem a caridade que não pratica o mal. Aquele, portanto, que pratica esmolas proporcionadas aos seus pecados deve começar primeiro por si mesmo.
Pois não é razoável que um homem que exerce caridade para com o próximo não o faça para consigo mesmo, visto que ouve o Senhor dizer: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo", e ainda: "Tem compaixão de tua alma, agradando a Deus." Aquele, pois, que não tem compaixão de sua própria alma para agradar a Deus, como se pode dizer que pratica esmolas proporcionadas aos seus pecados?
Para o mesmo propósito está escrito: "Aquele que é mau para si mesmo, para quem poderá ser bom?" Devemos, portanto, praticar esmolas a fim de sermos ouvidos quando oramos para que nossos pecados passados sejam perdoados, e não para que, enquanto neles permanecemos, pensemos prover-nos de uma licença para a perversidade por meio de esmolas.
A razão, portanto, por que predizemos que ele imputará aos que estão à sua direita as esmolas que praticaram, e acusará os que estão à sua esquerda por terem omitido as mesmas, é que ele possa assim mostrar a eficácia da caridade para o apagamento dos pecados passados, não para a impunidade em sua perpétua prática. E tais pessoas, na verdade, que recusam abandonar seus maus hábitos de vida por um caminho melhor, não se pode dizer que pratiquem obras de caridade. Pois este é o sentido do dito: "Quando o deixastes de fazer a um destes pequeninos, a mim o deixastes de fazer." Ele lhes mostra que não realizam ações caridosas mesmo quando pensam estar fazendo-as.
Pois, se dessem pão a um cristão faminto por ele ser cristão, certamente não negariam a si mesmos o pão da justiça, isto é, o próprio Cristo; pois Deus não considera a pessoa a quem se faz o dom, mas o espírito em que ele é feito. Aquele, portanto, que ama a Cristo num cristão estende-lhe esmola no mesmo espírito em que se aproxima de Cristo, não naquele espírito que abandonaria a Cristo se pudesse fazê-lo impunemente. Pois, na medida em que um homem ama o que Cristo desaprova, ele próprio abandona a Cristo. Pois de que aproveita a um homem ser batizado, se não é justificado?
Acaso aquele que disse: "Se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus", não disse também: "Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus"? Por que muitos, por temor do primeiro dito, correm ao batismo, enquanto poucos, por temor do segundo, buscam ser justificados?
Assim como, portanto, não é ao seu irmão que um homem diz "Tolo", se, ao dizê-lo, se indigna não contra a fraternidade, mas contra o pecado do ofensor (pois, de outro modo, seria réu do fogo do inferno), assim também aquele que estende caridade a um cristão não a estende a um cristão se não ama a Cristo nele. Ora, não ama a Cristo aquele que recusa ser justificado nele.
Ou, ainda, se um homem foi culpado deste pecado de chamar a seu irmão de Tolo, injustamente o ultrajando sem nenhum desejo de remover o seu pecado, suas esmolas pouco contribuem para expiar essa falta, a menos que acrescente a isto o remédio da reconciliação que a mesma passagem prescreve.
Pois ali se diz: "Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem e apresenta a tua oferta." Do mesmo modo, é coisa de pouca monta praticar esmolas, por maiores que sejam, por qualquer pecado, enquanto o ofensor continua na prática do pecado.
Quanto, depois, à oração cotidiana que o próprio Senhor ensinou, e que por isso se chama a oração do Senhor, ela de fato apaga os pecados do dia, quando dia após dia dizemos: "Perdoa-nos as nossas dívidas", e quando não apenas dizemos, mas pomos em prática o que se segue: "assim como nós perdoamos aos nossos devedores"; mas proferimos esta petição porque foram cometidos pecados, e não para que o sejam. Pois por ela nosso Salvador quis ensinar-nos que, por mais justamente que vivamos nesta vida de fraqueza e trevas, ainda cometemos pecados para cuja remissão devemos orar, ao mesmo tempo que devemos perdoar aos que pecam contra nós, a fim de que também nós próprios sejamos perdoados.
O Senhor, pois, não proferiu as palavras "Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas" para que dessa petição contraíssemos tal confiança que nos capacitasse a pecar com segurança de dia para dia, ou pondo-nos acima do temor das leis humanas, ou enganando astutamente os homens acerca de nossa conduta, mas para que assim aprendêssemos a não supor que estamos sem pecados, ainda que estivéssemos livres de crimes; tal como também Deus advertiu os sacerdotes da antiga lei a este mesmo respeito, no tocante a seus sacrifícios, que lhes ordenou oferecer primeiro pelos seus próprios pecados e depois pelos pecados do povo.
Pois até as próprias palavras de tão grande Mestre e Senhor devem ser atentamente consideradas. Pois ele não diz: Se perdoardes aos homens os seus pecados, também vosso Pai vos perdoará os vossos pecados, de qualquer espécie que sejam, mas diz: os vossos pecados; pois era uma oração cotidiana que ele ensinava, e era certamente a discípulos justificados que ele falava. Que entende ele, então, por "os vossos pecados", senão aqueles pecados de que nem mesmo vós, que sois justificados e santificados, podeis estar livres?
Enquanto, pois, aqueles que buscam nesta petição ocasião para se entregarem ao pecado habitual sustentam que o Senhor quis incluir os grandes pecados, porque não disse: Ele vos perdoará os vossos pequenos pecados, mas "os vossos pecados", nós, por outro lado, levando em conta o caráter das pessoas a quem ele se dirigia, não podemos ver como interpretar a expressão "os vossos pecados" senão como referente a pequenos pecados, porque tais pessoas não são culpadas de grandes pecados.
Não obstante, nem mesmo os próprios grandes pecados (pecados dos quais devemos fugir com uma total reforma de vida) são perdoados aos que oram, a menos que observem o preceito anexo: "assim como também nós perdoamos aos nossos devedores." Pois, se os pequeníssimos pecados que se prendem mesmo à vida dos justos não são remidos sem aquela condição, quão mais longe de obter indulgência estarão aqueles que se acham envolvidos em muitos grandes crimes, se, enquanto cessam de perpetrar tais enormidades, ainda inexoravelmente recusam remir qualquer dívida contraída para com eles, visto que o Senhor diz: "Mas, se não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas"? Pois este é também o sentido do dito do apóstolo Tiago: "Juízo sem misericórdia haverá para aquele que não usou de misericórdia." Pois devemos lembrar-nos daquele servo cuja dívida de dez mil talentos seu senhor cancelou, mas a quem depois ordenou que a pagasse, porque o próprio servo não tivera piedade de seu conservo que lhe devia cem denários.
As palavras que o apóstolo Tiago acrescenta, "E a misericórdia triunfa sobre o juízo", encontram sua aplicação entre os que são filhos da promessa e vasos de misericórdia. Pois até aqueles homens justos, que viveram com tal santidade que recebem nas habitações eternas também a outros que conquistaram sua amizade com as riquezas da injustiça, se tornaram tais pela misericordiosa libertação daquele que justifica o ímpio, imputando-lhe uma recompensa segundo a graça, não segundo a dívida. Pois deste número faz parte o apóstolo, que diz: "Alcancei misericórdia para ser fiel."
Mas deve-se admitir que aqueles que são assim recebidos nas habitações eternas não são de tal caráter que sua própria vida bastasse para resgatá-los sem o auxílio dos santos, e por conseguinte, no caso deles especialmente, a misericórdia triunfa sobre o juízo.
E, contudo, não devemos por isso supor que todo devasso perdido, que não fez emenda alguma de sua vida, deva ser recebido nas habitações eternas tão somente por ter assistido aos santos com as riquezas da injustiça, isto é, com dinheiro ou bens que tenham sido injustamente adquiridos, ou, se legitimamente adquiridos, que não são, todavia, as verdadeiras riquezas, mas apenas o que a iniquidade tem por riquezas, porque não conhece as verdadeiras riquezas em que abundam aquelas pessoas que recebem também a outros nas habitações eternas.
Há, pois, certa espécie de vida que, por um lado, não é tão que os que a adotam não sejam ajudados rumo ao reino dos céus por alguma generosa esmola com que possam aliviar as necessidades dos santos e fazer amigos que os possam receber nas habitações eternas, nem, por outro lado, tão boa que por si mesma baste para conquistar-lhes aquela grande bem-aventurança, se não alcançarem misericórdia pelos méritos daqueles que fizeram seus amigos.
E muitas vezes me admiro de que até mesmo Virgílio expressão a esta sentença do Senhor, na qual ele diz: "Fazei para vós amigos com as riquezas da injustiça, para que vos recebam nas habitações eternas"; e a este dito muito semelhante: "Quem recebe um profeta na qualidade de profeta receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo na qualidade de justo receberá a recompensa de justo." Pois, quando aquele poeta descreveu os campos Elísios, nos quais supõem que habitam as almas dos bem-aventurados, ali colocou não apenas os que tinham sido capazes, por mérito próprio, de alcançar aquela morada, mas acrescentou:
"E aqueles que mereceram grata memória pelos serviços prestados a outros;"
isto é, aqueles que tinham servido a outros e, com isso, mereceram ser lembrados por eles. Tal como se usassem a expressão tão comum nos lábios cristãos, em que alguma pessoa humilde se recomenda a um dos santos e diz: Lembra-te de mim, e assegura que ele assim o faça por bem merecer de suas mãos. Mas o que seja aquela espécie de vida de que temos falado, e quais sejam aqueles pecados que impedem um homem de conquistar por si mesmo o reino de Deus, mas ainda lhe permitem valer-se dos méritos dos santos, é coisa muito difícil de averiguar, muito perigosa de definir.
De minha parte, apesar de toda a investigação, tenho sido até a presente hora incapaz de descobrir isto. E é possível que nos esteja oculto, para que não nos tornemos descuidados em evitar tais pecados, e assim deixemos de progredir.
Pois, se fosse conhecido quais são esses pecados que, embora persistam e não sejam abandonados por uma vida mais elevada, não nos impedem, contudo, de buscar e esperar a intercessão dos santos, a preguiça humana presunçosamente se envolveria nesses pecados, e não daria passo algum para se desembaraçar de tais envoltórios pela hábil energia de alguma virtude, mas desejaria apenas ser resgatada pelos méritos de outras pessoas, cuja amizade tivesse sido conquistada por um uso generoso das riquezas da injustiça.
Mas agora que somos deixados na ignorância da natureza precisa daquela iniquidade que é venial, ainda que nela se persevere, certamente somos ao mesmo tempo mais vigilantes em nossas orações e esforços de progresso, e mais cuidadosos em conquistar para nós, com as riquezas da injustiça, amigos entre os santos.
Mas esta libertação, que se efetua pelas próprias orações de cada um, ou pela intercessão dos homens santos, assegura que o homem não seja lançado no fogo eterno, mas não que, uma vez nele lançado, deva, depois de algum tempo, ser dali resgatado.
Pois até aqueles que imaginam que o que se diz da boa terra que produz fruto abundante, qual trinta, qual sessenta, qual cem por um, deve referir-se aos santos, de modo que, na proporção de seus méritos, alguns deles libertarão trinta homens, alguns sessenta, alguns cem (até mesmo esses que sustentam isto) ainda assim comumente se inclinam a supor que essa libertação ocorrerá no dia do juízo, e não depois dele.
Sob esta impressão, alguém que observou a desairosa tolice com que os homens prometem a si mesmos a impunidade sob o fundamento de que todos serão incluídos neste método de libertação, conta-se que observou muito acertadamente que deveríamos antes esforçar-nos por viver tão bem que todos nos encontremos entre o número daqueles que hão de interceder pela libertação de outros, para que estes não sejam tão poucos em número que, depois de terem libertado um trinta, outro sessenta, outro cem, ainda restem muitos que não puderam ser libertados do castigo por suas intercessões, e entre eles todo aquele que e temerariamente prometeu a si mesmo o fruto do trabalho alheio.
Mas se disse o suficiente em resposta àqueles que reconhecem a autoridade das mesmas Escrituras sagradas que nós, mas que, por uma interpretação errônea delas, concebem o futuro mais conforme eles próprios desejam do que conforme as Escrituras ensinam. E, tendo dado esta resposta, encerro agora, segundo a promessa, este livro.