A Cidade de Deus - Livro XXI 23
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Contra os que opinam que a punição nem do diabo nem dos homens ímpios será eterna
Antes de tudo, convém que indaguemos e reconheçamos por que a Igreja não pôde tolerar a ideia que promete purificação ou indulgência ao diabo, mesmo após a punição mais severa e prolongada.
Pois tantos homens santos, imbuídos do espírito do Antigo e do Novo Testamento, não recusaram aos anjos, de qualquer ordem ou condição que fossem, que gozassem da bem-aventurança do reino celeste depois de purificados pelo sofrimento; antes, porém, perceberam que não podiam invalidar nem esvaziar a sentença divina que o Senhor predisse haver de pronunciar no juízo, dizendo: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos." Pois aqui é evidente que o diabo e seus anjos arderão no fogo eterno.
E há também aquela declaração no Apocalipse: "O diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão também a besta e o falso profeta. E serão atormentados de dia e de noite para todo o sempre." Na primeira passagem usa-se "eterno", na segunda "para todo o sempre"; e por estas palavras a Escritura não costuma significar outra coisa senão duração sem fim.
E, portanto, nenhuma outra razão, nenhuma razão mais óbvia e justa, pode ser encontrada para sustentar, como a crença fixa e inabalável da mais verdadeira piedade, que o diabo e seus anjos jamais retornarão à justiça e à vida dos santos, do que a de que a Escritura, que a ninguém engana, diz que Deus não os poupou, e que foram por Ele condenados de antemão e lançados em prisões de trevas no inferno, reservados para o juízo do último dia, quando o fogo eterno os receberá, no qual serão atormentados pelos séculos sem fim.
E, se assim é, como se pode crer que todos os homens, ou mesmo alguns, sejam retirados da resistência à punição depois de nela passado algum tempo? Como se pode crer nisso sem enfraquecer nossa fé na punição eterna dos demônios? Pois, se todos ou alguns daqueles a quem se dirá: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos", não hão de estar sempre naquele fogo, que razão há então para crer que o diabo e seus anjos ali estarão sempre?
Ou será porventura que a sentença de Deus, que há de ser pronunciada igualmente sobre os homens e os anjos ímpios, seja verdadeira no caso dos anjos e falsa no dos homens? Claramente assim será, se as conjecturas dos homens hão de pesar mais que a palavra de Deus. Mas, porque isto é absurdo, aqueles que desejam livrar-se da punição eterna deveriam abster-se de argumentar contra Deus e, antes, enquanto ainda há oportunidade, obedecer aos mandamentos divinos.
Que vã fantasia é, então, supor que punição eterna signifique punição prolongada, ao passo que vida eterna signifique vida sem fim, visto que Cristo, nessa mesma passagem, falou de ambas em termos semelhantes, numa só e mesma sentença: "Estes irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna"! Se ambos os destinos são "eternos", então devemos ou entender ambos como prolongados, mas afinal terminando, ou ambos como sem fim. Pois são correlativos: de um lado, a punição eterna; de outro, a vida eterna.
E dizer, num só e mesmo sentido, que a vida eterna será sem fim e que a punição eterna terá fim, é o cúmulo do absurdo. Por isso, assim como a vida eterna dos santos não terá fim, assim também a punição eterna daqueles que a ela estão condenados não terá fim.