A Cidade de Deus - Livro XXI 18
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Daqueles que imaginam que, por intercessão dos santos, nenhum homem será condenado no juízo final
Há ainda outros, com cujas opiniões travei conhecimento em conversação, que, embora pareçam reverenciar as Sagradas Escrituras, têm contudo uma vida repreensível, e que, por isso, em seu próprio interesse, atribuem a Deus uma compaixão ainda maior para com os homens. Pois reconhecem que é verdadeiramente predito na palavra divina que os ímpios e os incrédulos são dignos de castigo, mas afirmam que, quando vier o juízo, a misericórdia prevalecerá. Pois, dizem eles, Deus, compadecendo-se deles, os entregará às orações e intercessões de seus santos.
Pois, se os santos costumavam orar por eles quando padeciam do seu ódio cruel, quanto mais não o farão quando os virem prostrados e humildes suplicantes? Porque não podemos, dizem eles, crer que os santos venham a perder as suas entranhas de compaixão quando houverem alcançado a santidade mais perfeita e completa; de modo que aqueles que, ainda sendo pecadores, oravam por seus inimigos, agora, quando estão livres do pecado, deixassem de interceder por seus suplicantes. Ou recusará Deus ouvir tantos de seus filhos amados, quando a santidade deles houver purgado as suas orações de todo impedimento a que Ele as atenda?
E a passagem do salmo que é citada por aqueles que admitem que os homens ímpios e os infiéis serão castigados por longo tempo, embora ao fim libertados de todos os sofrimentos, é reivindicada também pelas pessoas de que ora falamos como falando muito mais a seu favor. O versículo diz assim: "Esqueceu-se Deus de ter misericórdia? Ou encerrou Ele na sua ira as suas ternas misericórdias?" A sua ira, dizem eles, condenaria a castigo sem fim todos os que são indignos da felicidade eterna. Mas, se Ele permitir que sejam castigados por longo tempo, ou mesmo de qualquer modo, não terá Ele de encerrar as suas ternas misericórdias, o que o Salmista dá a entender que não fará?
Pois ele não diz: Encerrará Ele na sua ira as suas ternas misericórdias por longo período? mas dá a entender que de modo algum as encerrará.
E negam que assim se prove ser falsa a ameaça do juízo de Deus, ainda que Ele não condene homem algum, do mesmo modo que não podemos dizer que tenha sido falsa a sua ameaça de destruir Nínive, embora a destruição que fora absolutamente predita não se tenha cumprido. Pois Ele não disse: "Nínive será destruída se não se arrependerem e não emendarem os seus caminhos", mas, sem nenhuma tal condição, predisse que a cidade seria destruída. E essa predição, sustentam eles, foi verdadeira, porque Deus predisse o castigo que mereciam, ainda que não o fosse infligir.
Pois, embora os poupasse ao se arrependerem, todavia tinha certamente conhecimento de que se arrependeriam, e, não obstante, predisse absoluta e definitivamente que a cidade seria destruída. Isto foi verdadeiro, dizem eles, na verdade da severidade, porque eram dignos disso; mas, no que respeita à compaixão que conteve a sua ira, de modo que poupou os suplicantes do castigo com que ameaçara os rebeldes, não foi verdadeiro. Se, pois, Ele poupou aqueles cujo perdão irritou o seu próprio santo profeta, quanto mais não poupará aqueles suplicantes mais miseráveis por quem todos os seus santos intercederão?
E supõem que essa conjectura sua não é insinuada na Escritura, a fim de estimular muitos à reforma da vida pelo temor de sofrimentos muito prolongados ou eternos, e de estimular outros a orar por aqueles que não se reformaram. Contudo, pensam que os oráculos divinos não silenciam de todo sobre este ponto; pois perguntam com que propósito se diz: "Quão grande é a tua bondade, que reservaste para os que te temem", senão para nos ensinar que a grande e oculta doçura da misericórdia de Deus é encoberta para que os homens temam?
Com o mesmo propósito pensam eles que o apóstolo disse: "Pois Deus encerrou todos os homens na incredulidade, para de todos se compadecer", significando que ninguém seria condenado por Deus. E, contudo, os que sustentam esta opinião não a estendem à absolvição ou libertação do diabo e de seus anjos. A sua ternura humana se comove somente para com os homens, e advogam principalmente a sua própria causa, alimentando falsas esperanças de impunidade para as suas próprias vidas depravadas por meio dessa quase compaixão de Deus para com toda a raça.
Por conseguinte, aqueles que prometem essa impunidade até mesmo ao príncipe dos demônios e a seus sequazes fazem uma exibição ainda mais ampla da misericórdia de Deus.