A Cidade de Deus - Livro XXI 16
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
As leis da graça, que se estendem a todas as épocas da vida do regenerado
Mas tão grande é a misericórdia de Deus para com os vasos de misericórdia que Ele preparou para a glória, que mesmo a primeira idade do homem, isto é, a infância, que se submete sem qualquer resistência à carne, e a segunda idade, que se chama meninice, e que ainda não tem entendimento suficiente para empreender esta guerra, e por isso cede a quase todo prazer vicioso (porque, embora esta idade tenha a faculdade da fala e por isso possa parecer ter passado da infância, a mente é ainda fraca demais para compreender o mandamento), contudo, se qualquer uma destas idades recebeu os sacramentos do Mediador, então, ainda que a vida presente seja imediatamente levada ao fim, a criança, havendo sido trasladada do poder das trevas para o reino de Cristo, não só será salva dos castigos eternos, mas nem sequer sofrerá tormentos purgatoriais depois da morte.
Pois a regeneração espiritual por si só basta para impedir quaisquer consequências más que resultem, depois da morte, da ligação com a morte que a geração carnal estabelece. Mas, quando chegamos àquela idade que já pode compreender o mandamento e submeter-se ao domínio da lei, devemos declarar guerra aos vícios e travar esta guerra com vigor, para que não venhamos a cair em pecados condenáveis. E, se os vícios não ganharam força, são mais facilmente vencidos e subjugados por uma vitória habitual; mas, se foram acostumados a conquistar e a reinar, só com dificuldade e trabalho são dominados.
E, na verdade, esta vitória não pode ser alcançada com sinceridade e verdade senão pelo deleite na verdadeira justiça, e é a fé em Cristo que dá tal deleite. Pois, se a lei está presente com o seu mandamento, e o Espírito está ausente com o seu auxílio, a presença da proibição serve apenas para aumentar o desejo de pecar e acrescenta a culpa da transgressão. Às vezes, na verdade, vícios manifestos são vencidos por outros vícios ocultos, que são tidos por virtudes, embora o orgulho e uma espécie de ruinosa autossuficiência sejam os seus princípios informadores.
Por conseguinte, os vícios só devem ser considerados vencidos quando são conquistados pelo amor de Deus, que o próprio Deus somente dá, e que Ele dá unicamente por meio do Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se fez participante da nossa mortalidade para que nos fizesse participantes da sua divindade. Mas, de fato, poucos são os que têm a felicidade de haver passado a juventude sem cometer quaisquer pecados condenáveis, seja por conduta dissoluta ou violenta, seja por seguir algumas opiniões ímpias e ilícitas, mas que subjugaram, pela grandeza de sua alma, tudo o que neles poderia torná-los escravos dos prazeres carnais.
A maioria, havendo-se primeiro tornado transgressora da lei que recebeu, e havendo permitido que o vício prevalecesse neles, então refugia-se na graça em busca de auxílio, e assim, por uma penitência mais amarga e uma luta mais violenta do que de outro modo teria sido, subjuga a alma a Deus e dá-lhe assim a sua legítima autoridade sobre a carne, e torna-se vitoriosa. Portanto, quem quer que deseje escapar do castigo eterno, não somente seja batizado, mas também justificado em Cristo, e assim passe verdadeiramente do diabo para Cristo.
E não imagine que haja quaisquer penas purgatoriais, exceto antes daquele juízo final e terrível. Não devemos, contudo, negar que mesmo o fogo eterno será proporcionado aos merecimentos dos ímpios, de modo que para alguns será mais doloroso e para outros menos, quer este resultado se realize por uma variação na própria temperatura do fogo, graduada conforme o mérito de cada um, quer seja que o calor permaneça o mesmo, mas que nem todos o sintam com igual intensidade de tormento.