A Cidade de Deus - Livro XXI 14

Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena

Dos castigos temporais desta vida a que está sujeita a condição humana

São inteiramente excepcionais aqueles que não são punidos nesta vida, mas somente depois dela. Contudo, que houve alguns que alcançaram a decrepitude da idade sem experimentar nem sequer a mais leve enfermidade, e que gozaram de uma vida ininterrupta, eu o sei tanto por ouvir dizer quanto por minha própria observação.
Todavia, a própria vida que nós, mortais, levamos é, ela mesma, toda castigo, pois é toda tentação, como declaram as Escrituras, onde está escrito: "Não é uma tentação a vida do homem sobre a terra?" Pois a ignorância é, por si só, castigo nada leve, ou a falta de instrução, da qual com justiça se julga tão necessário escapar, que os meninos são compelidos, sob pena de severo castigo, a aprender ofícios ou letras; e o próprio aprendizado a que são impelidos pelo castigo é, para eles, tamanho castigo, que às vezes preferem a dor que os impele à dor para a qual essa primeira os arrasta.
E quem não recuaria diante da alternativa, e escolheria morrer, se lhe fosse proposto ou sofrer a morte ou ser de novo uma criança de colo? Na verdade, nossa infância, introduzindo-nos nesta vida não com riso, mas com lágrimas, parece predizer inconscientemente os males que havemos de enfrentar. Diz-se que Zoroastro riu ao nascer, e esse presságio contra a natureza nada de bom lhe vaticinou. Pois conta-se que ele foi o inventor das artes mágicas, embora estas não tenham sido capazes de assegurar-lhe sequer a pobre felicidade desta vida presente contra os assaltos de seus inimigos.
Pois ele mesmo, rei dos bactrianos, foi vencido por Nino, rei dos assírios. Em suma, as palavras da Escritura: "Pesado jugo sobre os filhos de Adão, desde o dia em que saem do ventre de sua mãe até o dia em que retornam à mãe de todas as coisas", essas palavras de tal modo infalivelmente se cumprem, que até os pequeninos, que pela água da regeneração foram libertados do vínculo do pecado original, único pelo qual eram retidos, ainda assim padecem muitos males, e em alguns casos chegam a ficar expostos aos assaltos dos espíritos malignos.
Mas não suponhamos, nem por um instante, que esse sofrimento seja prejudicial à sua felicidade futura, ainda que ele se tenha agravado a ponto de separar a alma do corpo e de pôr fim à sua vida naquela tenra idade.