A Cidade de Deus - Livro XXI 13
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Contra a opinião dos que pensam que os castigos dos ímpios após a morte são purgatórios
Os platônicos, na verdade, embora sustentem que nenhum pecado fica impune, supõem que todo castigo é aplicado com finalidade corretiva, quer seja infligido por lei humana ou divina, nesta vida ou após a morte; pois um homem pode ficar ileso aqui, ou, ainda que punido, pode contudo não se emendar. Daí aquela passagem de Virgílio, onde, depois de haver dito de nossos corpos terrenos e membros mortais que nossas almas derivam:
"Daí desejos selvagens e temores rasteiros, e o riso humano, as lágrimas humanas; encerradas em noite semelhante a cárcere, olham para fora, mas não veem luz alguma",
prossegue dizendo:
"Não, quando enfim a vida fugiu e deixou o corpo frio e morto, mesmo então não se desvanece a dolorosa herança do barro; muitas manchas longamente contraídas forçosamente hão de permanecer impregnadas no íntimo. Por isso sofrem penas para purgar antigo crime, a fim de se tornarem puras; algumas pendem ao alto, à vista aberta, para que os ventos as trespassem de lado a lado, enquanto outras purgam sua culpa profundamente tingida em fogo ardente ou em onda que as submerge."
Os que são desta opinião querem que todos os castigos após a morte sejam purgatórios; e como os elementos do ar, do fogo e da água são superiores à terra, um ou outro destes pode ser o instrumento para expiar e purgar a mancha contraída pelo contágio da terra.
Assim Virgílio alude ao ar nas palavras "algumas pendem ao alto para que os ventos as trespassem"; à água em "onda que as submerge"; e ao fogo na expressão "em fogo ardente". De nossa parte, reconhecemos que mesmo nesta vida alguns castigos são purgatórios: não, decerto, para aqueles cuja vida em nada se torna melhor, mas antes pior por causa deles, e sim para aqueles que por eles são constrangidos a emendar a vida. Todos os demais castigos, sejam temporais ou eternos, infligidos como são a cada um pela divina providência, são enviados ou por causa de pecados passados, ou de pecados que se permitem presentemente na vida, ou para exercitar e revelar as virtudes de um homem.
Podem ser infligidos pela instrumentalidade tanto de homens e anjos maus quanto dos bons. Pois ainda que alguém sofra algum dano pela maldade ou pelo erro de outro, peca de fato o homem cuja ignorância ou injustiça causa o mal; mas Deus, que por seu juízo justo, ainda que oculto, permite que isso se faça, não peca. Ora, os castigos temporários são sofridos por alguns somente nesta vida, por outros após a morte, por outros tanto agora quanto depois; mas todos eles antes daquele último e mais rigoroso juízo.
Mas dentre os que sofrem castigos temporários após a morte, nem todos estão condenados àquelas penas sempiternas que hão de seguir-se a esse juízo; pois para alguns, como já dissemos, o que não é perdoado neste mundo é perdoado no porvir, isto é, não são punidos com o castigo eterno do mundo vindouro.