A Cidade de Deus - Livro XXI 12
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Da gravidade da primeira transgressão, por causa da qual a pena eterna é devida a todos os que não estão sob o amparo da graça do Salvador
Mas a pena eterna parece dura e injusta à percepção humana, porque, na fraqueza de nossa condição mortal, falta aquela sabedoria suprema e puríssima pela qual se poderia perceber quão grande maldade se cometeu naquela primeira transgressão. Pois quanto mais o homem encontrava sua alegria em Deus, tanto maior foi a sua maldade ao abandoná-lo; e aquele que destruiu em si mesmo um bem que poderia ter sido eterno tornou-se digno de um mal eterno.
Daí toda a massa do gênero humano estar condenada; pois aquele que primeiro deu entrada ao pecado foi punido com toda a sua posteridade, que estava nele como numa raiz, de modo que ninguém está isento desta justa e devida pena, a não ser que seja libertado pela misericórdia e por uma graça imerecida; e o gênero humano de tal modo se reparte que em alguns se manifesta a eficácia da graça misericordiosa, e nos demais a eficácia da justa retribuição. Pois ambas não poderiam manifestar-se em todos; porque, se todos tivessem permanecido sob a pena da justa condenação, em ninguém se teria visto a misericórdia da graça redentora.
E, por outro lado, se todos tivessem sido transferidos das trevas para a luz, em ninguém se teria manifestado a severidade da retribuição. Mas muitos mais são deixados sob a pena do que os que dela são libertados, a fim de que assim se mostre o que era devido a todos. E, se ela tivesse sido infligida a todos, ninguém poderia com justiça censurar a justiça daquele que executa a vingança; ao passo que, na libertação de tantos daquela justa sentença, há motivo para render as mais sinceras graças à generosidade gratuita daquele que liberta.