A Cidade de Deus - Livro XXI 11
Livro XXI: o castigo eterno dos condenados na cidade terrena
Se é justo que os castigos dos pecados durem mais do que duraram os próprios pecados
Alguns, contudo, dentre aqueles contra os quais defendemos a cidade de Deus, julgam injusto que um homem seja condenado a um castigo eterno por pecados que, por maiores que tenham sido, foram cometidos num breve espaço de tempo; como se alguma lei jamais houvesse regulado a duração do castigo pela duração da ofensa punida! Cícero nos diz que as leis reconhecem oito espécies de pena: indenização, prisão, açoite, reparação, infâmia, exílio, morte e escravidão.
Haverá alguma dentre essas que possa ser comprimida a uma brevidade proporcional à rapidez com que se comete a ofensa, de modo que não se gaste mais tempo em puni-la do que em perpetrá-la, a não ser, talvez, a reparação? Pois esta exige que o ofensor sofra o que fez, como diz aquela cláusula da lei: 'Olho por olho, dente por dente.' Pois é certamente possível que um ofensor perca o seu olho pela severidade da retaliação legal num espaço de tempo tão breve quanto aquele em que privou outro do olho pela crueldade da sua própria iniquidade.
Mas se o açoite é pena razoável por beijar a mulher de outro homem, não é a falta de um instante expiada com longas horas de penitência, e o deleite momentâneo punido com dor duradoura? Que diremos da prisão? Deve o criminoso ser encarcerado apenas pelo tempo que gastou na ofensa pela qual foi preso? Ou não se impõe uma pena de muitos anos de cárcere ao escravo que provocou o seu senhor com uma palavra, ou lhe desferiu um golpe que num momento se consumou?
E quanto à indenização, à infâmia, ao exílio e à escravidão, que comumente se infligem sem admitir abrandamento ou perdão, não se assemelham elas aos castigos eternos, na medida em que esta vida breve permite uma semelhança? Pois não são eternas senão porque a vida em que são suportadas não é eterna; e contudo os crimes que se punem com esses sofrimentos tão prolongados são perpetrados num espaço de tempo brevíssimo.
Nem há quem suponha que as penas do castigo devam ocupar tão breve tempo quanto a ofensa; ou que o homicídio, o adultério, o sacrilégio, ou qualquer outro crime, devam ser medidos não pela enormidade do dano ou da maldade, mas pela duração do tempo gasto em perpetrá-los. E quanto à sentença de morte por algum grande crime, considerarão as leis que o castigo consiste no breve momento em que se aplica a morte, ou nisto, que o ofensor é banido para sempre da sociedade dos vivos?
E assim como o castigo da primeira morte separa os homens desta presente cidade mortal, assim também o castigo da segunda morte separa os homens daquela futura cidade imortal. Pois assim como as leis desta presente cidade não preveem o retorno a ela do criminoso executado, assim também aquele que é condenado à segunda morte não é chamado de volta à vida eterna.
Mas se o pecado temporal é punido com castigo eterno, como então, dizem eles, é verdadeiro o que o vosso Cristo diz: 'Com a mesma medida com que medirdes, vos medirão também a vós'? E não percebem que 'a mesma medida' se refere não a um espaço igual de tempo, mas à retribuição do mal, ou, por outras palavras, à lei segundo a qual aquele que praticou o mal sofre o mal. Além disso, essas palavras poderiam ser convenientemente entendidas como referentes ao assunto de que o Senhor falava quando as proferiu, a saber, os juízos e as condenações.
Assim, se aquele que injustamente julga e condena é ele próprio justamente julgado e condenado, recebe 'com a mesma medida', ainda que não a mesma coisa que deu. Pois deu juízo, e juízo recebe, embora o juízo que deu fosse injusto, e o juízo que recebe seja justo.