A Cidade de Deus - Livro XX 1

Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos

Que, embora Deus esteja sempre julgando, é razoável concentrar a atenção neste livro em Seu juízo final

Pretendendo falar, na dependência da graça de Deus, do dia de Seu juízo final, e afirmá-lo contra os ímpios e os incrédulos, devemos antes de tudo lançar, por assim dizer, no fundamento do edifício, as declarações divinas. Aquelas pessoas que não creem em tais declarações fazem o possível para opor-lhes sofismas falsos e ilusórios de sua própria invenção, ora alegando que aquilo que se aduz da Escritura tem outro sentido, ora negando por completo que seja uma palavra de Deus.
Pois suponho que nenhum homem que entenda o que está escrito, e creia que foi comunicado pelo supremo e verdadeiro Deus por meio de homens santos, recuse render-se e consentir a estas declarações, quer confesse oralmente o seu consentimento, quer, por alguma influência, se envergonhe ou tema fazê-lo; ou até mesmo, com uma obstinação que muito se assemelha à loucura, se empenhe com afinco em defender aquilo que sabe e crê ser falso contra aquilo que sabe e crê ser verdadeiro.
Aquilo, portanto, que toda a Igreja do verdadeiro Deus sustenta e professa como seu credo, a saber, que Cristo virá do céu para julgar os vivos e os mortos, a isto chamamos o último dia, ou o último tempo, do juízo divino.
Pois não sabemos quantos dias possa ocupar este juízo; mas ninguém que leia as Escrituras, por mais negligentemente que seja, precisa ser advertido de que nelas a palavra "dia" é habitualmente empregada por "tempo". E quando falamos do dia do juízo de Deus, acrescentamos a palavra último ou final por esta razão: porque ainda agora Deus julga, e tem julgado desde o início da história humana, ao banir do paraíso, e excluir da árvore da vida, aqueles primeiros homens que perpetraram tão grande pecado. Sim, certamente exercia também o juízo quando não poupou os anjos que pecaram, cujo príncipe, vencido pela inveja, seduziu os homens depois de ele próprio ter sido seduzido.
Tampouco é sem o profundo e justo juízo de Deus que a vida dos demônios e dos homens, a daqueles no ar, a destes na terra, está cheia de miséria, calamidades e erros. E ainda que ninguém tivesse pecado, somente pelo bom e reto juízo de Deus poderia toda a criação racional ter sido mantida em eterna bem-aventurança por uma perseverante adesão ao seu Senhor. Ele julga, também, não apenas em conjunto, condenando a raça dos demônios e a raça dos homens à miséria por causa do pecado original dessas raças, mas julga igualmente os atos voluntários e pessoais dos indivíduos.
Pois até os próprios demônios suplicam para que não sejam atormentados, o que prova que sem injustiça poderiam ser ou poupados ou atormentados segundo os seus merecimentos. E os homens são punidos por Deus pelos seus pecados, muitas vezes de modo visível, sempre de modo secreto, seja nesta vida, seja depois da morte, embora nenhum homem aja retamente senão pelo auxílio da ajuda divina; e nenhum homem ou demônio aja iniquamente senão pela permissão do divino e justíssimo juízo.
Pois, como diz o apóstolo, "não injustiça em Deus"; e como ele diz em outro lugar, "os Seus juízos são insondáveis, e os Seus caminhos inescrutáveis". Neste livro, então, falarei, conforme Deus permitir, não daqueles primeiros juízos, nem destes juízos intermediários de Deus, mas do último juízo, quando Cristo de vir do céu para julgar os vivos e os mortos. Pois aquele dia é propriamente chamado o dia do juízo, porque nele não restará lugar algum para a indagação ignorante de por que este homem ímpio é feliz e aquele homem justo é infeliz.
Naquele dia, a verdadeira e plena felicidade será o quinhão de ninguém senão dos bons, ao passo que a merecida e suprema miséria será a porção dos ímpios, e somente deles.