A Cidade de Deus - Livro XVIII 52

Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel

Se devemos crer, como alguns pensam, que, cumpridas as dez perseguições já passadas, nenhuma outra resta além da décima primeira, que há de ocorrer no próprio tempo do Anticristo

Na verdade, não julgo que se diga ou creia temerariamente aquilo que alguns pensaram ou possam pensar: que, até o tempo do Anticristo, a Igreja de Cristo não de sofrer quaisquer perseguições além das que sofreu, isto é, dez, e que a décima primeira e última será infligida pelo Anticristo. Contam como primeira a que foi feita por Nero, a segunda por Domiciano, a terceira por Trajano, a quarta por Antonino, a quinta por Severo, a sexta por Maximino, a sétima por Décio, a oitava por Valeriano, a nona por Aureliano e a décima por Diocleciano e Maximiano.
Pois, assim como houve dez pragas no Egito antes que o povo de Deus pudesse começar a sair, pensam que isto deve ser referido para mostrar que a última perseguição pelo Anticristo de ser semelhante à décima primeira praga, na qual os egípcios, perseguindo os hebreus com hostilidade, pereceram no Mar Vermelho, ao passo que o povo de Deus passou em terra seca.
Contudo, não penso que as perseguições tenham sido profeticamente significadas pelo que se passou no Egito, por mais que aqueles que assim pensam pareçam ter comparado as duas coisas em pormenor com elegância e engenho, não pelo Espírito profético, mas pela conjectura da mente humana, que por vezes acerta a verdade e por vezes se engana. Mas que poderão dizer os que pensam isto acerca da perseguição na qual o próprio Senhor foi crucificado? Em que número a colocarão?
E se pensam que a conta deve ser feita excluindo esta, como se devessem contar-se apenas aquelas que dizem respeito ao corpo, e não aquela em que a própria Cabeça foi atacada e morta, que farão daquela que, depois de Cristo subir ao céu, ocorreu em Jerusalém, quando o bem-aventurado Estêvão foi apedrejado; quando Tiago, irmão de João, foi morto à espada; quando o apóstolo Pedro foi encarcerado para ser morto e foi libertado pelo anjo; quando os irmãos foram expulsos e dispersos de Jerusalém; quando Saulo, que depois se tornou o apóstolo Paulo, devastava a Igreja; e quando ele mesmo, anunciando a boa nova da que perseguira, sofreu tais coisas como as que infligira, fosse dos judeus, fosse de outras nações, onde por toda parte pregava Cristo com o maior fervor?
Por que, então, julgam acertado começar por Nero, quando a Igreja, em seu crescimento, alcançou os tempos de Nero em meio às mais cruéis perseguições, sobre as quais seria demasiado longo dizer algo? Mas, se pensam que devem contar-se as perseguições feitas por reis, foi o rei Herodes quem também fez uma gravíssima depois da ascensão do Senhor. E que conta dão de Juliano, a quem não incluem entre os dez? Não perseguiu ele a Igreja, ao proibir que os cristãos ensinassem ou aprendessem as letras liberais?
Sob ele, o mais velho Valentiniano, que foi o terceiro imperador depois dele, mostrou-se confessor da cristã e foi destituído de seu comando no exército.
Nada direi do que ele fez em Antioquia, exceto mencionar que ficou tomado de admiração diante da liberdade e da alegria de um jovem fidelíssimo e firmíssimo que, quando muitos foram presos para serem torturados, foi torturado durante um dia inteiro e cantava sob o instrumento de tortura, até que o imperador temeu que ele sucumbisse sob as crueldades contínuas e o envergonhasse por fim, o que o fez recear e temer que viesse a ser ainda mais ignominiosamente coberto de vergonha pelos demais.
Por fim, dentro de nossa própria lembrança, não devastou Valente, o ariano, irmão do mencionado Valentiniano, a Igreja católica com grande perseguição por todo o Oriente? Mas quão irrazoável é não considerar que a Igreja, que fruto e cresce pelo mundo inteiro, pode sofrer perseguição dos reis em algumas nações mesmo quando não a sofre em outras!
Talvez, porém, não se devesse contar como perseguição quando o rei dos godos, na própria Gótia, perseguiu os cristãos com admirável crueldade, quando ali não havia senão católicos, dos quais muitíssimos foram coroados com o martírio, como ouvimos de certos irmãos que ali estiveram naquele tempo, ainda meninos, e recordavam sem hesitação ter visto estas coisas? E o que ocorreu recentemente na Pérsia? Não foi a perseguição contra os cristãos tão ardente (se é que está abrandada) que alguns dos que dela fugiram chegaram até a cidades romanas?
Quando penso nestas coisas e em outras semelhantes, não me parece que se possa fixar com certeza o número das perseguições com que a Igreja de ser provada. Mas, por outro lado, não é menos temerário afirmar que haverá algumas perseguições por reis além daquela última, sobre a qual nenhum cristão tem dúvida. Portanto, deixamos isto indeciso, não sustentando nem refutando qualquer dos lados desta questão, mas apenas refreando os homens da audaciosa presunção de afirmar uma ou outra delas.