A Cidade de Deus - Livro XVIII 51

Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel

Que a fé católica pode ser confirmada até mesmo pelas dissensões dos hereges

Mas o diabo, vendo os templos dos demônios desertos e o gênero humano correndo ao nome do Mediador libertador, incitou os hereges, sob o nome cristão, a resistir à doutrina cristã, como se pudessem ser mantidos indistintamente na cidade de Deus, sem correção alguma, assim como a cidade da confusão indistintamente acolhia os filósofos que eram de opiniões diversas e adversas.
Portanto, aqueles que, na Igreja de Cristo, saboreiam algo mórbido e depravado e, ao serem corrigidos para que saboreiem o que é são e reto, resistem contumazmente e não querem emendar seus dogmas pestíferos e mortais, mas persistem em defendê-los, tornam-se hereges e, saindo para fora, devem ser tidos como inimigos que servem à sua disciplina. Pois mesmo assim, por sua maldade, eles aproveitam àqueles verdadeiros membros católicos de Cristo, visto que Deus faz bom uso até dos maus, e todas as coisas concorrem para o bem daqueles que O amam.
Pois todos os inimigos da Igreja, qualquer que seja o erro que os cegue ou a malícia que os deprave, exercitam a sua paciência, se recebem o poder de afligi-la corporalmente; e se a ela apenas se opõem por pensamento ímpio, exercitam a sua sabedoria: mas, ao mesmo tempo, se esses inimigos são amados, exercitam a sua benevolência, ou mesmo a sua beneficência, quer ela trate com eles pela doutrina persuasiva, quer pela disciplina temível. E assim o diabo, o príncipe da cidade ímpia, quando incita os seus próprios vasos contra a cidade de Deus que peregrina neste mundo, não tem permissão para causar-lhe dano algum.
Pois, sem dúvida, a divina providência lhe proporciona tanto consolação por meio da prosperidade, para que não seja quebrantada pela adversidade, quanto provação por meio da adversidade, para que não seja corrompida pela prosperidade; e assim cada uma é temperada pela outra, como reconhecemos nos Salmos aquela voz que de nenhuma outra causa se origina: "Segundo a multidão das minhas dores no meu coração, as Vossas consolações deleitaram a minha alma." Daí também provém aquela palavra do apóstolo: "Alegrando-vos na esperança, sendo pacientes na tribulação."
Pois não se deve pensar que possa em algum tempo falhar aquilo que o mesmo mestre diz: "Todo aquele que quiser viver piamente em Cristo padecerá perseguição." Porque, mesmo quando os que estão de fora não se enfurecem, e assim parece haver, e realmente há, tranquilidade, a qual traz muitíssima consolação, especialmente aos fracos, contudo não faltam, antes são muitos os que dentro, por seus costumes dissolutos, atormentam os corações daqueles que vivem piamente, visto que por eles o nome cristão e católico é blasfemado; e quanto mais caro é esse nome aos que querem viver piamente em Cristo, tanto mais se entristecem de que, por meio dos maus que têm um lugar dentro, ele venha a ser menos amado do que as mentes piedosas desejam.
Os próprios hereges também, visto que se pensa que têm o nome e os sacramentos cristãos, as Escrituras e a profissão, causam grande tristeza nos corações dos piedosos, tanto porque muitos que desejam ser cristãos são compelidos por suas dissensões a hesitar, quanto porque também muitos maldizentes encontram neles matéria para blasfemar o nome cristão, pois eles também são, de qualquer modo, chamados cristãos. Por esses e semelhantes costumes e erros depravados dos homens, aqueles que querem viver piamente em Cristo padecem perseguição, mesmo quando ninguém molesta ou aflige o seu corpo; pois eles padecem essa perseguição não nos seus corpos, mas nos seus corações.
Daí provém aquela palavra: "Segundo a multidão das minhas dores no meu coração"; pois ele não diz: no meu corpo. Contudo, por outro lado, nenhum deles pode perecer, porque se tem em mente as imutáveis promessas divinas.
E porque o apóstolo diz: "O Senhor conhece os que são Seus; pois aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do Seu Filho", nenhum deles pode perecer; portanto, segue-se naquele salmo: "As Vossas consolações deleitaram a minha alma." Mas aquela tristeza que se origina nos corações dos piedosos, que são perseguidos pelos costumes de cristãos maus ou falsos, é proveitosa aos que a padecem, porque procede da caridade pela qual eles não desejam que tais pessoas pereçam nem que impeçam a salvação de outros.
Por fim, grandes consolações brotam do seu castigo, que imbuem as almas dos piedosos de uma fecundidade tão grande quanto as dores com que se viram atribulados a respeito da própria perdição daqueles. Assim, neste mundo, nestes dias maus, não somente desde o tempo da presença corporal de Cristo e dos seus apóstolos, mas até desde o tempo de Abel, a quem primeiro o seu ímpio irmão matou por ser justo, e dali em diante, até o fim deste mundo, a Igreja tem avançado em peregrinação em meio às perseguições do mundo e às consolações de Deus.