A Cidade de Deus - Livro XVIII 5
Livro XVIII: a cidade terrena em paralelo, dos assírios a Roma, e os profetas de Israel
De Ápis, rei de Argos, a quem os egípcios chamaram Serápis e adoraram com honras divinas
Nesses tempos, Ápis, rei de Argos, atravessou em navios para o Egito e, ao morrer ali, foi feito Serápis, o deus supremo de todos os egípcios. Ora, Varrão dá esta razão muito acessível pela qual, depois de sua morte, ele foi chamado não Ápis, mas Serápis. A arca em que foi colocado quando morto, que todos hoje chamam de sarcófago, era então chamada em grego de sorós, e começaram a adorá-lo quando sepultado nela, antes que seu templo fosse construído; e de Soros e Ápis ele foi chamado primeiro Sorápis, e depois Serápis, pela mudança de uma letra, como facilmente acontece.
Decretou-se também a respeito dele que quem dissesse ter ele sido um homem fosse punido com a pena capital. E visto que em todo templo onde Ísis e Serápis eram adorados havia também uma imagem que, com o dedo apertado sobre os lábios, parecia advertir os homens a guardar silêncio, Varrão pensa que isto significa que se devia manter em segredo o fato de terem sido humanos. Mas aquele touro que, com admirável insensatez, iludia o Egito, nutrido com abundantes iguarias em honra dele, não era chamado Serápis, mas Ápis, porque o adoravam vivo, sem sarcófago.
Quando aquele touro morria, ao procurarem e encontrarem um bezerro da mesma cor, isto é, marcado de modo semelhante com certas manchas brancas, acreditavam que era algo milagroso e provido para eles divinamente. Contudo, não era grande coisa para os demônios, a fim de enganá-los, mostrar a uma vaca, quando concebia e estava prenhe, a imagem de tal touro, que só ela podia ver, e por meio dela atrair a paixão geradora da mãe, de modo que aparecesse em forma corpórea em sua cria, assim como Jacó conseguiu, com as varas manchadas, que as ovelhas e cabras nascessem manchadas.
Pois o que os homens podem fazer com cores e substâncias reais, os demônios podem fazê-lo com muita facilidade, mostrando formas irreais aos animais em reprodução.